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#Maratona 8: "Depois de correr 42km, sou capaz de qualquer coisa"

Tatiana Schibuola

Do UOL, em São Paulo

06/12/2019 04h00

No oitavo e último episódio do podcast semanal #Maratona, de VivaBem, a jornalista do UOL Tatiana Schibuola conta como foi enfrentar os 42 km da Maratona de Valência. Dê o play para ouvir o seu relato. Ou leia a seguir:

"Tem gente que transforma o estilo de vida por causa da corrida e parece ter mesmo nascido pra isso. Como o colunista de VivaBem, o preparador físico Fernando Guerreiro: "Comecei em 2016 com a corrida. Me convidaram pra uma prova de 7km numa montanha. Fui campeão! 3 meses depois fiz a loucura de correr minha primeira maratona. Tô indo pro meu primeiro [triatlo] IronMan", contou, no terceiro episódio do podcast Maratona.

Bom, no meu caso, a corrida é que sempre se adaptou a mim. Sempre fui uma corredora mediana. Nunca transformei meu estilo de vida por causa da corrida - quem ouviu o podcast sabe: gosto de dormir até tarde, não vivo sem um docinho, sou um tantinho workaholic. E é assim que eu gosto.

Até agora, tinha corrido 2 maratonas. A primeira, em 2012, Amsterdã, perfeita. A segunda, em 2013, em Nova York, um desastre: um dedinho do pé esquerdo quebrado rendeu uma lesão grave na lateral do joelho direito que levaria ao menos dois anos pra recuperar. E lá se foram mais quatro anos desde então.

A decisão de fazer a maratona de Valência, nesse ano, veio da minha vontade de voltar a completar os 42,195 km com final feliz. Preciso confessar, também, que eu tinha a esperança de que o ciclo de treinos me devolvesse um pouco da disciplina ferrenha que adotei ao treinar para Amsterdã, lá em 2012 (fiz dieta, musculação duas vezes por semana e ainda corria nas montanhas do litoral paulista com um pé nas costas). Spoiler: não deu certo.

Então, meu treinador, o Marcos Paulo Reis, da MPR Assessoria Esportiva, me contou que estava formando um grupo pra Maratona de Valência - plana, temperatura amena, tudo de bom. Fiz a inscrição e, no último final de semana, voei até Valência, na Espanha, onde rolou a 39ª Maratona de Valência. Foi nesse domingo último, dia 1º de dezembro.

"Admiro o cara que é muito leve. Toma uma cervejinha dois dias antes. A vida é saber se divertir com a maratona", disse Marcos Paulo. Também admiro. Mas, se tem algo que eu não fui nesse ciclo de treinos, foi ser leve. Até o último segundo, eu morri de medo. E eu juro que não tava fazendo tipo.

Sexta-feira: desembarque em Valência

Dia de retirar o meu kit de prova na expo - pra quem não está familiarizado com o universo das corridas, há sempre uma grande feira no local onde se retira o número de peito. O local de retirada era o mesmo da largada e chegada: o complexo cultural e arquitetônico Cidade das Artes e das Ciências, considerado um dos 12 tesouros da Espanha. Os edifícios modernosos foram desenhados pelo arquiteto Santiago Calatrava (o mesmo que desenhou o Museu do Amanhã no Rio de Janeiro).

Passei o restinho da tarde sentada num restaurante. O.k., era um McDonald's. Eu tinha tanto medo de ter dor de barriga no dia da prova que decidi não comer nada diferente do que já conhecesse. Pedi o sanduíche de frango sem maionese e troquei as fritas por salada. Em se tratando de mim, pode acreditar, era muito saudável!

Voltei pro hotel e comecei a calibrar a hidratação. Estava de olho nas dicas do nutricionista Marco Jafet: "A ideia é estar com a célula bem hidratada desde o início da semana. Geralmente eu peço pra fazer a hidratação desde o início da semana da prova."

O objetivo, aqui, é crucial. Não é só matar a sede. Se você está desidratado, o sangue "engrossa", como se diz na linguagem dos leigos. E exige mais do coração. A pressão arterial sobe. E ninguém quer colocar o coração em risco, né?

Então lá estava eu, em Valência, uma cidade lindíssima, sem poder gastar as pernas, comer tapas ou tomar um vinho. Em vez disso, assisti à Netflix e bebi muita água no meu quarto de hotel. Jantei um sanduíche de franguinho com pão e batatas.

Sábado: dia de trotar leve

Na manhã de sábado, as coisas começaram a ficar mais animadas. Era a manhã do trote. E da foto da equipe. É praxe, antes da maratona, dar uma soltada nos músculos com uma corrida superleve de 5 km. Faz parte do calendário oficial do evento, o Breakfast Run.

Ali eu conheci a Katia Perez Costa, membro do time. Juntas, trotamos e tagarelamos por 5 km pelos Jardins de Turía (gente, queria ter um parque desses pra chamar de meu). Ela me contou que ia para a sua décima maratona. E que, ainda assim, estava apavorada, como se fosse a primeira. Fiquei aliviada. Mesmo. Eu não era a única.

Kátia, minha nova parceira de corridas, me contou que teve treinos que não deram certo. Lembrei dos meus nos últimos três meses - tão cheios de altos e baixos emocionais. Do longo na prova Bertioga-Maresias, debaixo de sol de 26 graus, depois de dormir só 1h30 por causa do trânsito - a primeira vez que terminei uma corrida caminhando. E do dia em que minha cabeça me disse que eu não poderia correr mais depois de meros 10 km (quando o treino prescrevia 22k).

Lembrei da psicóloga do esporte Carla di Pierro: "O resultado ali vai ser com todas as insônias. Perdas, noites maldormidas, treinos que não deram tão certo. Atravessar a linha de chegada vai ser lembrar tudo isso que você viveu."

Esses 5km passaram assim, fáceis. Nem senti. Ao final, recusei o copo de orxata, bebida típica valenciana, de aspecto leitoso, doce, feita a partir de um tubérculo chamado xufa, oferecido pela organização. Definitivamente, não era a hora de experimentar nada.

Na volta, passei no supermercado. Comprei suco de laranja e croissants integrais. Eu precisava carregar nos carboidratos. A recomendação era passar a tarde de molho no hotel, pernas pra cima. Pra mim, não ia rolar. Estava ansiosa demais.

E decidi seguir o conselho do Adriano Bastos. Aquele da Disney: "Não ficar aí neurótico em cima do que vai acontecer no dia seguinte. Procura se distrair. Se você ficar ali pensativo em cima do que você precisa fazer no dia seguinte, essa tensão acaba de atrapalhando o descanso pré-prova."

Caminhei, bem tranquila, até o centro antigo da cidade. Me perdi um pouco entre castelos, ruelas estreitas e plazas. Bebi bastante água, devagarinho. Voltei antes de escurecer.

Organizei as roupas, o número de peito, os alfinetes para prendê-lo, viseira, o cinto pra carregar os sachês de gel de carboidrato. O tênis? Eu tinha levado dois. Um mais leve, de solado mais fino, em que fiz os treinos de esteira. Outro, mais parrudo, do modelo que eu tinha usado a vida inteira. Lembrei do César Cândido, corredor e editor do VivaBem UOL. "Gosto de tênis que você calça e parece que está descalço."

Pronto. Decidi pelo tênis da vida inteira.

Pedi macarrão à bolonhesa do serviço de quarto. Comi só a metade. Passei a noite colada na Netflix. Fui dormir como se fosse pra forca no dia seguinte. Sério. Mandei um whats pro meu marido: "Vou dormir. Ferrou. É amanhã. Emoji apavorado, emoji desesperado, emoji enjoado."

Eu devo ter demorado umas duas horas pra dormir. Todo mundo fala que a noite antes da prova é assim mesmo. Já tinha sido assim pra mim antes, mas, como disse o corredor e youtuber Sérgio Rocha, "passou de cinco anos, prescreve."

Pois é: pra mim era como se fosse, de novo, a primeira maratona, depois de 6 anos.

Largada da Maratona de Valência, na Ponte Monteolivete - Divulgação
Largada da Maratona de Valência, na Ponte Monteolivete
Imagem: Divulgação

Dia D: não tem mais volta

Acordei às 7h15. Tomei uns 150 ml de suco de laranja. Comi meio croissant. Vesti duas camisetas de manga comprida (fazia uns 13 graus), uma pra jogar fora.

A missão, agora, se chamava número 2. (Desculpa o momento #SemFrescura). Não rolou. E esse foi o primeiro revés do dia. Nenhum movimento peristáltico até então.

Chequei o meu whatsapp. Uma mensagem do meu marido: "Vai dar tudo certo e vai curtir quando chegar. Você tá preparada sim. Beijo."

Honestamente, eu não tinha certeza se estava preparada ou não. Caminhando até a largada, atrás da Ponte de Monteolivete, eu lembrei dos meus dois últimos treinos, que decidi fazer na esteira, depois de inúmeras tentativas frustradas nos treinos de rua ou de estrada. Um, de 25 km. Esse foi regado a uns três episódios da série True Detective, temporada 3 (HBO). Terminei acelerando. O outro, uma semana depois, de 30 km. Foi à base da última temporada de The Crown (Netflix).

Só considerei essa hipótese de correr na esteira depois de ouvir a endocrinologista e corredora Giuli Pansera: "Já fiz até 30 km na esteira da academia do prédio. Depois disso eu faço qualquer coisa. Pronta pra maratona."

Não é que deu certo? Sem chuva ou calor, e com ar condicionado bombando numa temperatura parecida com a da prova, terminei inteiraça. Esses dois treinos foram fun-da-men-tais pra minha autoconfiança.

A largada é punk. É linda, emocionante, mas você sabe que tem todo o percurso pela frente. Deixei uma das blusas de manga comprida por ali mesmo. A temperatura era de 15 graus.

E fui. Assim como no dia anterior, os primeiros 5 km, em direção à região portuária, foram muito fáceis. Primeiro posto de água, garanti minha garrafinha. Me sentia um pouco lenta, mas decidi que não correria riscos. Entre o sexto e o sétimo, passamos em frente à Universidade. Meus intestinos me lembraram que existiam, senti umas pontadas de dor. Fiquei preocupada, mas logo passou.

No décimo quilômetro, comecei a reposição com gel e água. É impressionante como o carboidrato dá mesmo uma zerada na gente.

Bem no quilômetro 16, o sol, que subia no céu, apontou diretamente pros meus olhos. A luz intensa por ora me cegou. Havia muito barulho na rua. Gente, música, tambor. Nessa hora, eu senti um tremendo mal-estar. Uma espécie de tontura, uma confusão mental. Vontade de parar. Durou cerca de um quilômetro, mas aos poucos foi passando. Que alívio.

18, 19, 20, 21. A metade da prova já me dizia que dificilmente eu conseguiria um recorde pessoal. Passei a focar, então, em terminar. Eu PRECISAVA terminar. Mas terminar significava dobrar a meta que tinha atingido até ali. Lembrei da publicitária e corredora Bruna Mattoso que me falou sobre fracionamento. "Eu vou dividindo a prova e não penso 'ainda falta'. Penso 'já passou'".

Pelos próximos dez quilômetros, me fixei no percurso. Retões longos em avenidas lindas e arborizadas.

Me fixei também num grupo de italianos, que corriam juntos, um puxando o outro, fazendo lista de chamada: Geovane! E o Geovane vinha lá de trás. Mateo! E o Mateo desacelerava um pouco. O ritmo deles era só um pouquinho mais forte que o meu, eles faziam algumas ultrapassagens, decidi colar nos caras.

A temperatura parecia ter aumentado. Arranquei a segunda blusa de manga comprida, fiquei só de regata. Do quilômetro 28 ao 30, reconheci as ruas do centro velho, onde tinha caminhado no dia anterior. Havia bandas de percussão de tempos em tempos, e elas me deixavam entusiasmadíssima. Eu batia baquetas imaginárias no ar, animada.

E então veio o quilômetro 30. O máximo que eu havia corrido nesse ciclo. E nessa hora as pernas começaram a pesar. Já senti essa sensação outras vezes. Geralmente no fim das provas. Era muito cedo pra sentir as pernas pesarem.

As palavras de Claudio Mesquita, fisioterapeuta e colunista de VivaBem, ecoaram na minha cabeça: "É preciso ouvir o seu corpo." Diminuí um pouquinho o ritmo, deixei os italianos irem embora. Ciao, ragazzi!

Eu precisava, agora, chegar ao quilômetro 35, onde estava o Emerson Gomes, o treinador da equipe. Eu SÓ PRECISAVA encontrar o Emerson. Estávamos em uma parte diferente da cidade, avenidas mais largas, o Emerson demorando a chegar. Quando o vi, de longe, levantei os braços - ele não me reconheceu, porque eu havia arrancado a blusa amarela do uniforme. "Cadê a camiseta? Quer um energético?" Eu gritei: "Não precisa, não precisa! Vou terminar essa bagaça, falta pouco!"

Faltavam sete quilômetros. Não era pouco. Mas agora precisava ser.

No 37,5 veio um posto de água e isotônico. Eu precisava da reposição do isotônico. Não podia correr o risco de faltar nada. A bebida vinha num copinho de papelão raso, vazando pra todo lado. Me permiti andar por uns 40 segundos pra tomar o líquido com calma:

Um corredor humano tomou conta dos últimos cinco quilômetros. Eram homens, mulheres, velhos, crianças, todos reunidos pra ver a procissão de maratonistas. Os gritos se repetiam:

"Venga!"

"Ánimo!"

"Sí, se puede!"

A linha chegada da Maratona de Valência, na Espanha - divulgação
A linha chegada da Maratona de Valência, na Espanha
Imagem: divulgação

Linha de chegada

Sim, eu podia. Mantive o ritmo até entrar novamente no complexo arquitetônico da Cidade das Artes e das Ciências. Uma passarela azul clara, montada sobre o espelho d'água do Museu das Ciências Príncipe Felipe, faz os últimos 200 metros da prova. É a chegada mais linda que eu já vi. Eu sorria por dentro e por fora. Agitava os braços pra cima. Cruzei a linha de chegada.

O meu tempo foi de 4 horas, 13 minutos e 03 segundos. Dá um ritmo médio de 6 minutos por km, ou exatos 10km/h. São 17 minutos a menos que minha última prova; dez minutos mais lenta que a minha primeira prova.

Ainda na matemática, a mulher que venceu a prova, a etíope Rosa Dereje Bekele, terminou o percurso em exíguas 2 horas 18 minutos e 30 segundos. No time da minha assessoria esportiva, a corredora mais rápida, Livia Quintanilha, fez 3 horas, 34 minutos e 39 segundos. Não dá pra dizer que eu não gostaria de ter feito mais rápido. Em menos de 4 horas, um sonho!

Agora, falando sério: ainda assim, fiquei felicíssima com meu resultado. Reconheço que meu ciclo de treinamentos não foi, por assim dizer, tão bem-sucedido. Houve altos e baixos. Eu poderia ter segurado mais a boca. Eu poderia ter me dedicado mais à musculação. E não poderia ter controlado os revezes com pais, filhos, reuniões de trabalho, planilhas de orçamento, power points de planejamento.

Terminei a prova com a certeza de que não precisava mais correr maratona alguma - sim, eu consigo. De volta ao Brasil, já começo a considerar que não seria mal tentar a Maratona de Berlim no próximo ano. Quem sabe?

***

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