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Alimentos da estação não são necessariamente mais nutritivos; saiba por quê

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Imagem: Istock

Sibele Oliveira

Colaboração para o VivaBem

05/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Por mais que não seja a safra de um alimento numa região do país, é em outras, então é possível ter o alimento fresco
  • Existem também técnicas de manejo agronômico, como o melhoramento genético, que ajudam a produzir frutos de qualidade mesmo fora de época
  • As características dos alimentos, como sabor, textura, aroma e valor nutricional são determinadas por características do clima e do solo
  • Não há diferenças significativas do uso de agrotóxicos e fertilizantes entre alimentos dentro e fora de safra
  • Mas é um fato que frutas, verduras e legumes da safra são mais baratos, por isso essa escolha pode ser útil para quem tem um menor orçamento

Quando vamos à feira, supermercado ou hortifrúti, sempre procuramos as frutas, verduras e legumes da época. Afinal, acreditamos que esses alimentos são mais frescos, nutritivos, saudáveis, saborosos e baratos. Não temos essa percepção à toa, já que ela é transmitida por gerações. Além disso, são inúmeros os artigos que destacam as vantagens de consumir frutas e hortaliças produzidas no período de safra.

Mas não é tão simples assim. Para começar, segundo Geraldo Papa, professor aposentado do Departamento de Fitossanidade, Engenharia Rural e Solos da Faculdade de Engenharia da Unesp (Universidade Estadual Paulista), pode não ser safra de um alimento em uma região do país e ser em outra. E mesmo dentro de um estado, os períodos de safra são diferentes. É por isso que temos em nossas mesas as mesmas frutas, legumes e verduras praticamente o ano inteiro, e não só durante alguns meses. Porque os recebemos de várias localidades.

De acordo com ele, as tecnologias de cultivo aplicadas em cada variedade de alimento têm tornado o termo "safra" cada vez menos importante em países tropicais, como o Brasil. Isso porque elas permitem que a produção seja feita praticamente o ano todo. Ana Maria Costa, pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), afirma que o que faz uma planta produzir é, normalmente, a quantidade de calor que ela recebe.

Quando a planta é cultivada numa região que recebe mais calor, ela produzirá o fruto mais cedo. Já se o local tiver pouco calor, a mesma produção demorará mais. Embora não pareça, ambas estão na safra. "Para o consumidor, que está acostumado a ver o fruto em fevereiro, a safra para ele é fevereiro. Se de repente o fruto começa a chegar em junho ou em outra época do ano, ele vai achar que está fora de safra", diz a especialista. Por isso, devemos tomar cuidado com as tabelas de safra, elas dizem respeito a uma determinada região.

Técnicas para produzir mais

Não é só por receber alimentos de diferentes regiões do país e até do exterior que as bancas de feiras e mercados se mantêm sempre fartas e cheias de variedades. As técnicas de manejo agronômico também contribuem para isso. Uma delas é o melhoramento genético.
"Fazemos cruzamentos e seleções para os frutos não serem produzidos só num determinado período. Eles se tornam mais eficiente na busca da luz, da energia e da temperatura. E começam a florescer mais frequentemente", explica Costa. E quanto mais frequente a floração, mais vezes as plantas produzirão frutos.

Outro equívoco é achar que só os alimentos da época têm aquele aroma de que acabaram de ser colhidos, uma aparência de encher os olhos, uma textura mais agradável ao paladar, mais sabor e maior concentração de nutrientes. "As características dos alimentos são determinadas, além do caráter genético natural, pelas condições locais do clima, solo, luminosidade e altitude, entre outras", salienta Papa.

Com o melhoramento genético, os alimentos produzidos dentro e fora da safra acabam sendo parecidos. Mesmo que algumas frutas, como as uvas viníferas e o café, sejam muito influenciadas por diferenças geográficas e climáticas, o desenvolvimento e a adaptação genética dessas variedades reduzem as diferenças que elas teriam sem o uso da técnica.

É verdade que dentro do período de safra há condições de produção mais naturais e menor necessidade de adaptações e intervenções tecnológicas, como a irrigação. Portanto, características como o sabor, o aroma e a textura tendem a ser melhores. "Entretanto, o melhoramento genético leva também em consideração o caráter de paladar, textura e demais preferências da população de cada região", diz Papa.

Embora possa haver uma variação na composição química de alimentos dentro e fora de safra, essas diferenças não tornam os da estação melhores. O que pode acontecer é uma fruta colhida na Bahia ser mais doce do que em São Paulo. Isso porque ela recebe mais energia solar no inverno do nordeste do que no sudeste. Mas quanto ao valor nutricional, não há tantas diferenças.

O tempo, aliás, influencia bastante as características das hortaliças e frutas. "Dependendo da quantidade de chuva, esses componentes químicos vão estar um pouco mais diluídos no fruto. Vai ter mais água. Se estiver mais seco, eles concentram um pouco mais os componentes químicos", comenta Costa. No entanto, não é possível generalizar. Vai depender de cada alimento.

Mais fertilizantes e agrotóxicos?

Outra crença compartilhada por aí é que os alimentos fora da época são produzidos com uma quantidade maior de agrotóxicos e fertilizantes. Mas não é bem assim. Em relação aos fertilizantes, eles não são aplicados em maior concentração, como tanta gente afirma. "Quanto ao uso de agroquímicos, as diferenças são poucas entre cultivar na safra ou em outros períodos. Pois no inverno ocorre, por exemplo, menor incidência de lagartas (lepidópteros) que no verão, mas há uma incidência maior de outras pragas como pulgões e tripes", ilustra Papa.

Geralmente, se uma espécie que se desenvolve melhor no verão for cultivada no inverno, ela tem menor incidência de pragas e doenças. Por esse motivo, o uso de agroquímicos pode ser menor, ele explica. Já o cultivo no verão pode exigir maior uso de defensivos agrícolas. Mas, por outro lado, no calor os resíduos desses produtos químicos se dissipam mais.

Mas e os produtos mirrados que encontro fora de época?

Muitas vezes, eles ficam assim porque não são produzidos com técnicas de manejo agronômico. Também pode acontecer de serem colhidos antes do tempo. Mesmo os frutos climatéricos (que continuam o processo de maturação depois de tirados da planta), como algumas variedades de laranjas, têm um tempo certo para a colheita.

Eles também dependem de condições ideais de armazenamento para que sigam amadurecendo fora do pé. Caso contrário, acabam estragando mais rápido. "Se são colhidos muito precocemente, eles morrem. Apodrecem em vez de amadurecer", assegura Costa. É um erro cometido por quem tenta fazer que frutas e hortaliças cheguem perfeitas ao seu destino, quando elas vêm de longe.

Mesmo quem faz questão de consumir alimentos de produtores locais, que às vezes não oferecem tanta variedade, não deve tirar os outros do cardápio, pois são igualmente ricos em fibras, vitaminas, minerais e outros compostos bioativos. "Independentemente da sua forma de cultivo ou época do ano em que consumimos esse grupo de alimentos, estaremos usufruindo de alimentos nutritivos e essenciais à nossa saúde", afirma Rita Ribeiro, professora do departamento de nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Mas de fato são mais baratos!

De todas as informações que ouvimos sobre os alimentos da época, a única correta é que eles são mais baratos. Isso acontece porque são produzidos em abundância e geralmente fornecidos por produtores locais. Sem o custo de transporte, o preço cai consideravelmente. Portanto, consumi-los é uma questão mais de economia do que de saúde.

E se a intenção é ter uma dieta completa e variada, também dá para fazer só com itens de estação. Afinal o importante é ter uma dieta colorida, e num país com uma fartura tão grande de alimentos como o Brasil, não é difícil encontrar opções baratas para variar o prato, como resume Clarissa Fujiwara, nutricionista do Departamento de Nutrição da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica). "Baseando-se em diversificação alimentar, a gente consegue ter fontes proteicas, de fibras e de vitaminas. E olhando para os alimentos sazonais, é possível ter um cardápio contemplando as nossas necessidades nutricionais".

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