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Ele descobriu HIV aos 59 anos; como é a vida de um idoso com o vírus?

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Imagem: iStock

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

03/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • As infecções por HIV na população idosa aumentaram 15% nos últimos anos. José contraiu HIV aos 59 anos e entrou em depressão profunda
  • Sem sintomas, o antropólogo descobriu que era soropositivo por ter sofrido uma toxoplasmose
  • Para o paciente, não foi difícil controlar o quadro e, sim, aceitar que teria de conviver com HIV
  • Em idosos, o HIV pode evoluir rapidamente e acelerar complicações comuns na terceira idade, como osteoporose, pressão alta e insuficiência renal

O antropólogo José, de 64 anos, acompanhou de perto a epidemia da Aids nos anos 1980. Bissexual, ele conta ter perdido amigos para a doença que, na época, avançava de forma rápida. "Para quem viveu o período como eu, é impossível não desenvolver medo de ser infectado", afirma José, que pediu seu verdadeiro nome não ser revelado na reportagem.

Após terminar um longo casamento com a ex-esposa, ele passou a se interessar mais por homens e ter um número maior de parceiros. Porém, por saber dos riscos de IST, mantinha suas relações sexuais seguras.

As coisas mudaram quando ele iniciou um relacionamento sério, aos 59 anos. Apesar de ele e parceiro não realizarem testes, José confiava no namorado e o casal passou a transar sem preservativo. "Infelizmente, não sabia que ele saía com outros homens e acabei contraindo o vírus. Quando descobri, entrei em uma depressão profunda", lembra.

Diagnóstico não é sentença de morte, mas é necessário cuidar do corpo e da mente

Sem sintomas, José só descobriu que era soropositivo por ter sofrido uma toxoplasmose, infecção causada por um parasita que pode afetar vários órgãos. "Quando a doença é diagnosticada, os médicos geralmente buscam se existe um motivo para uma queda de imunidade. No caso de José, foi uma coincidência termos descoberto. Os exames mostraram que ele tinha acabado de contrair o vírus HIV", aponta o infectologista Rico Vasconcelos, médico de José e coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Para o paciente, a parte mais difícil não foi controlar o quadro, e sim aceitar que teria de conviver com o HIV. "Meu mundo caiu. Achei que minha vida tinha acabado e que não conseguiria suportar viver com isso", conta.

Eu me isolei de todos, não conseguia nem sair da cama. Para mim, o HIV ainda era um bicho de sete cabeças"

Conforme explica Vasconcelos, a sorofobia —nome dado ao preconceito com pacientes que têm o vírus — não só é comum na sociedade, como também entre os próprios portadores. "As pessoas enxergam o HIV como a doença do outro —coisa de quem faz coisa errada, é promíscuo. Nunca acham que pode ocorrer com elas, já que a maioria 'só transa sem camisinha com quem conhece'. Se todo mundo pensasse que é algo que pode acontecer com qualquer pessoa sexualmente ativa, a preocupação seria maior e os diagnósticos, menores", indica.

Com a ajuda do filho, José passou a fazer terapia e, pouco a pouco, entendeu que a medicina já é avançada o suficiente para permitir que ele vivesse uma vida normal.

Quadro pode avançar mais rapidamente em idosos

José teve a sorte de descobrir a doença rapidamente. Por sua idade, poderia ter sofrido consequências mais graves se o HIV não tivesse sido controlado logo no início. "Depois de alguns anos ele poderia começar a ter sintomas de Aids e o aparecimento de doenças oportunistas. O quadro também intensifica alguns processos associados ao envelhecimento, como a osteoporose, pressão alta e insuficiência renal", esclarece Vasconcelos.

Além disso, pessoas mais velhas respondem de forma diferente ao tratamento. Enquanto um jovem melhora a imunidade logo no início do tratamento antirretroviral, os idosos têm uma alteração mais lenta.

Objetivo é ter HIV indetectável

A carga viral é determinada pela quantidade de vírus circulando no sangue. Para quem faz o tratamento, o ideal é não ter nenhuma cópia, o que os especialistas chamam de HIV indetectável.

"Neste estágio, o vírus não faz mal para a saúde do paciente nem é transmitido para seus parceiros sexuais. Mas é indicado fazer outros exames antes, para que o casal se projeta de outras IST", aponta Vasconcelos.

Hoje, José já sai com outras pessoas, mas o processo para se abrir para novos relacionamentos foi lento. "É difícil confiar novamente nos parceiros. Mas, graças ao vírus, descobri que o preconceito estava mais em mim do que nas pessoas com quem me relaciono", conta.

Como o tratamento mudou desde os anos 80

O primeiro caso de HIV descrito na literatura médica apareceu em 81. Na época, HIV era sinônimo de AIDS, que significa que a pessoa teria uma vida curta e sofrida. "Em 1996, tudo muda. Aprendemos a associar diferentes antirretrovirais no tratamento do paciente, o que tornou o prognóstico muito mais positivo", esclarece Vasconcelos.

Entretanto, na década 1990, os remédios tinham muitos efeitos colaterais: os pacientes sentiam mal-estar, sofriam de diarreia, mudança de cor de pele e até deformações no corpo. "Com a melhoria das drogas, hoje podemos oferecer uma qualidade de vida melhor. Farmacologicamente falando, já é muito fácil tratar o quadro", completa.

IST aumentam entre idosos

Um estudo realizado pela instituição de caridade Age UK, no Reino Unido, apontou que, entre as pessoas com 65 anos ou mais, a taxa de diagnósticos de IST aumentou 23% entre 2014 e 2018. A maior diferença foi para os homens —uma elevação de 18% em quatro anos, em comparação aos 4% apresentados na população feminina.

Em São Paulo, as infecções por HIV tiveram queda recorde de 18%, mas na população idosa aumentaram 15%. As possíveis causas voltam-se para a falta de campanhas de prevenção e educação sexual, assim como idosos com vida sexual mais ativa.

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