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Black Friday: entenda o que a temporada de descontos faz com nossa mente

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Imagem: iStock

Priscilla Auilo Haikal

Colaboração para o VivaBem

29/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Temporadas de ofertas podem provocar muita ansiedade e descontrole entre os consumidores
  • Especialistas explicam que nesses períodos existe uma pressão que leva as pessoas a crerem que se não comprarem algo, vão perder uma chance única
  • Recomendação para não se deixar contaminar por esse impulso coletivo é analisar com calma se realmente o produto é uma necessidade

Nesta sexta (29) acontece a 10ª edição da Black Friday, a data de descontos importada dos Estados Unidos que promete fazer a alegria de consumidores e lojistas no final do ano. Lembrada pelas cenas de corre-corre nas lojas daqueles que querem aproveitar as ofertas, costuma ser bastante noticiada pela imprensa e fortemente explorada pelos publicitários, de modo que acontece o famoso fenômeno do "não se fala em outra coisa".

Apesar de tanto alarde favorecer as vendas para muitos comerciantes, também pode provocar muita ansiedade e descontrole entre os consumidores. Especialistas explicam que nesses períodos de promoções existe uma espécie de pressão social que leva as pessoas a terem a impressão de que se não comprarem algo, vão perder uma chance única e uma oportunidade valiosa —sensação extremamente indesejada e desagradável. Além de causar um desconforto decisivo, que pode contribuir para atitudes de consumo desnecessárias.

Essa interpretação de desvantagem e de exclusão ao pensar que "todo mundo está comprando menos eu" e que o outro é mais feliz e realizado por isso é extremamente superficial. De acordo com os especialistas, a recomendação para não se deixar contaminar por esse impulso coletivo é analisar com calma se realmente o produto é uma necessidade e quais as razões para adquiri-lo naquele momento, dando um intervalo de tempo entre a decisão e a efetivação da compra.

Compro, logo existo

Antes de detalhar como é possível diminuir a influência da enxurrada de ofertas em nossas escolhas, é importante lembrar que vivemos em uma sociedade de consumo, onde o ter muitas vezes é considerado mais importante do que o ser, por isso o comprar é uma forma de se autoafirmar e de ter mais confiança. Pode inclusive se transformar numa "válvula de escape" para sentimentos desagradáveis, como tristeza ou angústia, mas é um recurso com um tempo de duração muito breve. O objeto adquirido perde o valor quase automaticamente e a pessoa logo passa a imaginar qual a próxima mercadoria que precisa para se sentir melhor.

Profissionais explicam que isso acontece pois é uma procura por soluções de problemas, mas de maneira equivocada. Um ato prazeroso desencadeia uma injeção de dopamina que desperta a vontade ter outra atitude de prazer, e o nosso cérebro interpreta como um sistema de recompensa. Essa intenção de repetir um impulso em troca de satisfação é algo bastante comum entre consumidores ao perceberem que estão diante de várias ofertas, já que o consumo em tempos de promoções faz parte de um movimento oportuno e agradável, praticado por muitas pessoas.

A própria ocupação com os processos de compra (pesquisa, prova e escolha) é uma forma de afastar certas preocupações ou estados emocionais desagradáveis. A orientação é refletir e buscar uma consciência crítica em relação ao que se pretende com essas aquisições. Realmente precisamos de tudo que imaginamos ser necessário para viver bem? Como surgiu essa percepção de que determinado produto é indispensável para o meu conforto ou bem-estar? É fundamental neste momento?

Caso seja uma saída recorrentemente usada, e a pessoa não sabe lidar de outra forma com questões incômodas ou prejudiciais, é indicado que seja feito acompanhamento ou aconselhamento.

Nem só de consumo vive um coração

Por mais tentador que seja a ideia de aproveitar descontos, é importante ter em mente que essa condição não deve ser usada como desculpa para justificar ações desmedidas em relação às compras. Em geral, quem tem problemas de compulsão com compras (oniomania), tem dificuldades em manter o controle durante toda a vida, não somente durante a temporada de ofertas.

Quando isso acontece, causa sofrimento e interfere significativamente no funcionamento social ou ocupacional da pessoa. Quem sofre do distúrbio só percebe que há algo de errado depois que não sabe o que fazer com as dívidas e os relacionamentos desgastados. Mas por meio de alguns sinais é possível identificar que existe transtorno relacionado, tais como:

  1. Reclamações ou comentários frequentes sobre seu hábito de comprar;
  2. Preocupações excessivas relacionadas às compras;
  3. Perda de controle sobre o ato de comprar;
  4. Uso das compras para lidar com emoções negativas ou difíceis;
  5. Sentimento de culpa ou arrependimento após as aquisições;
  6. Mentir para esconder as compras excessivas;
  7. Acarreta prejuízos nas áreas pessoal, afetiva, profissional ou financeira.

O tratamento para casos assim envolve a psicoterapia para a mudança de hábitos, que parte do entendimento dos aspectos emocionais relacionados com a compulsão para desenvolver estratégias e traçar meios de lidar com o problema, como a conscientização que é um comportamento prejudicial, decorrente de prazer momentâneo e efêmero. Também pode ser aconselhada avaliação com psiquiatra para verificar se é preciso uso de psicofarmacológicos.

Dicas para não se contaminar com a "chuva de ofertas"

Mesmo as pessoas que não apresentam necessariamente um descontrole com relação a compras ficam mais propensas a consumirem nesses períodos promocionais apenas pelo prazer de consumir e não pelo produto em si. A principal indicação para evitar exageros é se planejar antes de iniciar as compras, com a tradicional lista do que se gostaria de comprar, independente se for necessidade ou desejo.

Quando tiver um tempo disponível, pense sobre o que relacionou: se já possui algo parecido ou que desempenha a mesma função, se realmente precisa daquele objeto, se no momento a condição financeira permite a compra e se há alguma motivação emocional. Esse momento de autorreflexão é muito importante para evitar decisões por impulsos e arrependimentos.

Caso realmente exista a necessidade de adquirir o produto, faça a compra somente após concluir a pesquisar de preços. Sair de casa com o dinheiro exato para determinada escolha ou deixar cartões em casa pode ajudar a diminuir a chance de comprar algo impulsivamente. Mantenha o foco na lista e evite entrar em lojas ou sites "para pesquisar oportunidades", o que pode gerar vontade de obter coisas que não estavam previstas. Também pode ser útil optar pela companhia de alguém mais controlado, que possa ajudar a não gastar demais ou fora do planejado.

Além de atitudes, algumas posturas podem contribuir para lidar melhor com as promoções, e envolvem autoconhecimento e a autoaceitação. Vão desde ter mais clareza de suas necessidades (o que realmente estou precisando neste momento), ter planos e objetivos pessoais em relação às finanças e ao uso do dinheiro, manter um orçamento pessoal organizado e constante, buscar formas de reutilizar ou achar novas possibilidades com aqueles bens que possui antes de buscar comprar novos, e principalmente, ter clareza de quais são seus valores pessoais e orientar-se por eles.

Fontes: Carolina Hanna, psiquiatra do Hospital Sírio-Libanês; Carolina Costa, médica do Ipub da UFRJ (Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro); Cristiana Nicoli de Mattos, médica psiquiatra associada ao AMITI (Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso) do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Marcelo Gonçalves, psicólogo colaborador do grupo de Pesquisa e Tratamento para Compras Compulsivas do PRO-AMITI no IPq-HC-FMUSP; e Tatiana Filomensky, coordenadora do Grupo de Oniomania do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP).

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