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Associação da leishmaniose com um vírus aumenta a gravidade da doença

Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto comprovam que lesões mais graves nos casos de leishmaniose são causadas por um vírus que infecta o parasita Leishmania  - iStock
Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto comprovam que lesões mais graves nos casos de leishmaniose são causadas por um vírus que infecta o parasita Leishmania Imagem: iStock

Agência Brasileira de Divulgação Científica

21/11/2019 07h00

A leishmaniose tegumentar é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Leishmania. A doença é transmitida ao ser humano pela picada das fêmeas do mosquito palha (ou flebotomíneo).

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil são registrados anualmente cerca de 21 mil casos de leishmaniose tegumentar. A região Norte apresenta o maior número de casos, seguida das regiões Centro-Oeste e Nordeste.

A maioria dos doentes com leishmaniose tegumentar apresenta lesões localizadas na pele. Há, no entanto, casos mais graves, nos quais ocorrem disseminações das lesões, que surgem nas mucosas, frequentemente no nariz, boca e garganta. Tais lesões podem se tornar desfigurantes e são bastante graves.

Quando atingem o nariz, as lesões podem causar entupimentos, sangramentos, coriza, aparecimento de crostas e feridas. Quando atingem a garganta, os sintomas são dor ao engolir, rouquidão, tosse.

A culpa é do vírus: o parasita do parasita.

"Já se sabia da existência de um vírus que infecta os protozoários Leishmania. Seu nome é Leishmania RNA virus (LRV)", diz Dario Simões Zamboni, professor do Departamento de Biologia Celular e Molecular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da Universidade de São Paulo (USP).

"O nosso grupo demonstrou como o vírus LRV promove as formas mais graves", afirma Zamboni.

De acordo com o pesquisador, nos casos mais graves de leishmaniose tegumentar, aqueles que apresentam lesões mucocutâneas, a gravidade das lesões é provocada pela ação do vírus LRV.
"Nem todos os parasitas Leishmania têm o vírus LRV. Mas os pacientes infectados por protozoários que contém o vírus LRV tem um risco maior para o desenvolvimento de uma doença grave", explica Zamboni.

Em outras palavras, o vírus LRV é um importante fator de virulência associado ao desenvolvimento da leishmaniose mucocutânea. Ou seja, o vírus LRV é um parasita do parasita que torna a doença muito mais grave.

A ação do vírus LRV de Leishmania

Graças ao estudo de material coletado de diversos pacientes, e que foi cultivado in vitro e in vivo (em camundongos), os pesquisadores conseguiram compreender como o vírus LRV interfere para aumentar a gravidade das lesões mucocutâneas.

Funciona assim: uma vez que o parasita Leishmania invade células humanas, nos casos onde está presente o vírus LRV, este ativa um receptor nas células humanas chamado TLR3. Uma vez que tal receptor é ativado, o sistema imunológico começa a produzir interferon do tipo 1. O interferon, por sua vez, induz a autofagia das células humanas (autofagia é o processo de degradação e reciclagem de componentes da célula).

"Uma vez que o sistema imune começa a produzir interferon do tipo 1, as células humanas ficam muito mais vulneráveis. Isto acontece porque a presença do interferon impede a ação do inflamassoma, que é um conjunto de proteínas do sistema imune que ajuda a combater a infecção", diz Zamboni

De acordo com Zamboni, "o inflamassoma é um mecanismo importante do nosso corpo para nos defender de infecções. É uma arma importante para matar o protozoário Leishmania. Nos casos de leishmaniose, o inflamassoma ajuda nossas células a se defender do parasita", explica Zamboni.

"Mas quando o vírus está presente na Leishmania, ele acaba com a ação do inflamassoma, provocando uma infecção mais grave. No caso da leishmaniose tegumentar mucocutânea, as lesões faciais com frequência podem assumir contornos horrorosos e desfigurantes."

Nova esperança

A descoberta do papel do vírus como fator de gravidade nos pacientes com leishmaniose tegumentar mucocutânea é muito importante, pois aponta para a possibilidade do futuro desenvolvimento futuro de novas terapias.

Segundo Zamboni, "a partir do momento em que a gente entende a biologia por trás da ação do vírus e do aumento da gravidade das lesões, temos meios para tentar começar a interferir neste processo. É um caminho que pode culminar no desenvolvimento de novas terapias."

Artigo publicado

O artigo científico descrevendo esta importante descoberta acaba de ser publicado na conceituada revista Nature Communications. A pesquisa é fruto do projeto temático Fapesp "O inflamassoma na resposta contra patógenos intracelulares e os mecanismos microbianos relacionados à evasão".

A pesquisa foi realizada no âmbito do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O primeiro autor do trabalho é o doutorando Renan Carvalho, orientando de Zamboni no Departamento de Biologia Celular e Molecular e Bioagentes Patogênicos da FMRP-USP.

Todo os demais co-autores integrantes da equipe liderada por Zamboni trabalham na FMRP-USP e na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e na FIOCRUZ de Rondônia.

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