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Cantor Reinaldo tinha câncer e morreu do coração; existe relação?

Reinaldo, conhecido como "príncipe do pagode", teve uma parada cardiorrespiratória; ele se tratava de um câncer de pulmão há cerca de quatro anos - Reprodução/Instagram
Reinaldo, conhecido como "príncipe do pagode", teve uma parada cardiorrespiratória; ele se tratava de um câncer de pulmão há cerca de quatro anos Imagem: Reprodução/Instagram

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

18/11/2019 16h32

Resumo da notícia

  • O cantor Reinaldo morreu durante a madrugada após sofrer uma parada cardiorrespiratória; ele se tratava de um câncer há cerca de quatro anos
  • Além do câncer no pulmão, Reinaldo também tinha uma doença coronariana, o que pode ter contribuído para sua morte
  • Mas a relação entre doenças cardiovasculares existe de fato e pode ser causada pela resposta inflamatória do corpo ou pelo uso de medicamentos
  • Estudos e até mesmo uma subárea da medicina surgiram nos últimos anos dedicadas a oferecer melhores opções a pacientes oncológicos

Conhecido como príncipe do pagode, o cantor Reinaldo Gonçalves Zacarias morreu durante a madrugada de hoje em São Paulo aos 65 anos.
Segundo informações da assessoria de imprensa, o sambista teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. Reinaldo lutava há quatro anos contra um câncer de pulmão, mas cumpria agenda de shows normalmente.

De acordo com a oncologista Andrea Shimada, da equipe médica responsável pelo tratamento oncológico de Reinaldo no Hospital Sírio-Libanês, a notícia da morte do cantor foi recebida com surpresa. "Do ponto de vista clínico, ele estava com o câncer sob controle", disse, em entrevista para o VivaBem.

Para ela, é difícil dizer que a parada cardiorrespiratória aconteceu em decorrência da doença. Ela lembra, no entanto, que ele possuía outros fatores de risco que podem ter influenciado nesse desfecho. "Ele também sofria de uma doença coronariana há anos e foi fumante por muitos anos, o que pode ter contribuído para a morte", acredita.

Câncer tem influência no sistema cardiovascular

Apesar de não ser o caso de Reinaldo, a ligação entre câncer e doenças cardiovasculares existe e não é nova para a medicina. "Há alguns anos, percebeu-se que os pacientes oncológicos tinham mais chance de morrer por complicações cardiovasculares", afirma Carlos Rassi, cardiologista e coordenador do Pronto-Atendimento do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.

O câncer pode, por exemplo, ser responsável por provocar a formação de coágulos -- os trombos -- criando uma trombose."Um tumor pode, sim, aumentar as chances de desenvolver um quadro de trombose justamente por conta da resposta inflamatória que ele causa no corpo", explica o médico.

Mas não é só isso. "Além de compartilhar fatores de risco, como hipertensão e obesidade, a quimioterapia e a radioterapia podem causar danos ao coração", explica Adriana Castelo Moura, oncologista clínica e especialista em câncer de pulmão do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, de Brasília.

Segundo ela, a rigor, todos os tipos de câncer podem criar problemas cardiovasculares a longo prazo, mas alguns têm risco acentuado, como o de pulmão, rim e câncer de mama justamente pelo tipo de tratamento utilizado.

Não era o caso de Reinaldo, que, de acordo com Shimada, fazia um tratamento baseado em imunoterapia e não utilizava medicamentos considerados cardiotóxicos.

Efeitos podem aparecer a longo prazo

De fato, os efeitos colaterais da quimioterapia e da radioterapia no coração já são conhecidos desde a década de 1970 mas, nos últimos anos, diversos estudos se debruçaram para entender melhor como esses medicamentos afetavam esse órgão.

Um deles foi realizado em parceria com a Kaiser Permanente Southern California, entidade dedicada a pesquisas e inovação, e a Alabama University, em Birmingham, nos EUA, e publicado no periódico Journal of Clinical Oncology. Os cientistas concluíram que pessoas (jovens e adolescentes) que passaram por um câncer se tornam mais vulneráveis a doenças desse tipo.

A pesquisa comparou as condições de saúde de 5.673 pacientes entre 13 e 39 anos que passaram por um tratamento contra câncer. Esses dados foram comparados com outro grupo de pessoas que nunca tiveram a doença.

O resultado foi que sobreviventes de câncer tiveram, no geral, duas vezes mais chance de desenvolver doenças cardiovasculares em comparação às pessoas sem histórico de tumores. Os cientistas ainda concluíram que o risco era maior entre pacientes que tiveram câncer de mama ou leucemia.

Os autores do estudo levantaram duas hipóteses para isso: o resultado da cardiotoxidade de tratamentos utilizados no combate ao câncer ou ainda um mecanismo patogênico comum entre câncer e doença cardiovascular (como estresse oxidativo ou mesmo um defeito genético).

De acordo com o cardiologista Roberto Kalil Filho, a área que estuda conjuntamente os desdobramentos cardiovasculares em pacientes com câncer mais atenção nos últimos dez anos, quando surgiu a subespecialidade chamada de cardio-oncologia. "Na prática, observamos a toxidade ou os efeitos colaterais dos quimioterápicos no coração", diz o especialista.

Esses efeitos podem variar ente alterações no eletrocardiograma até casos graves de insuficiência cardíaca, arritmias, infarto e tromboembolismo venoso.

O assunto ganhou tamanha importância que, em 2011, a Sociedade Brasileira de Cardiologia elaborou a I Diretriz Brasileira de Cardio-Oncologia, que uniformiza protocolos e condutas e também ajudar na hora de decidir o que é melhor para o paciente oncológico. "É certamente um campo em ascensão para amparar melhor os pacientes", afirma Kalil.

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