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Por que ocorrem abortos espontâneos, como o da mulher de Eduardo Bolsonaro?

Heloísa e Eduardo Bolsonaro  - Reprodução/Instagram
Heloísa e Eduardo Bolsonaro Imagem: Reprodução/Instagram

Bruna Alves

Colaboração para o UOL, de São Paulo

03/11/2019 08h31

A psicóloga Heloísa Wolf Bolsonaro, esposa do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), teve um aborto espontâneo na nona semana de gestação e relatou no Instagram, ontem, como tudo aconteceu.

"Eduardo e eu fomos hoje fazer minha segunda ultrassom transvaginal e descobrimos que minha gestação de 9 semanas não evoluiu. Tive um aborto espontâneo, o coraçãozinho do meu bebê já não bate mais aqui dentro. Divido com vocês, pois muitas famílias passam por isso e passa mil coisas pela cabeça, em especial da mãe. "Será que eu comi algo errado? Será que fiz alguma atividade física errada? Será que eu me estressei demais? Etc. Quando na verdade, estatisticamente, em torno de 20% das gestações são interrompidas até a 22ª semana", disse na postagem, que já teve mais de 20 mil curtidas.

Ao final da mensagem, Heloísa conta que a família ficou triste com a notícia, mas agradeceu o carinho de todos."Deus tem seus planos e não cabe a nós questioná-los. Apesar de tristes, estamos em paz! Assim que possível, tentaremos mais uma vez trazer nosso filho ao mundo. Um obrigado especial às médicas que nos trataram com muito amor e carinho!", finaliza.

Mas afinal, é comum a mulher ter um aborto espontâneo nas primeiras semanas de gestação? Por que isso acontece? É possível evitar? Para esclarecer essas e outras dúvidas, o UOL conversou com a obstetra da Maternidade Brasília, Nívia Ximenes.

UOL: É comum ter um aborto espontâneo durante a gestação?
Nívia Ximenes: É muito frequente, mais do que a gente imagina. Hoje em dia, a gente consegue ter mais diagnóstico porque as mulheres descobrem mais cedo a gravidez. Antigamente, as mulheres demoravam mais e esse diagnóstico até se perdia.

UOL: Com quanto tempo de gestação é comum as mulheres terem abortos espontâneos?
Nívia Ximenes: Muitas gestações iniciais acabam evoluindo de forma insatisfatória A maioria acontece com até 12 semanas de gestação. É mais incomum ter aborto quando passa de 12 até 20 semanas.

UOL: Há algum motivo específico para a gestação evoluir de uma forma errada?
Nívia Ximenes: A maioria das vezes, a gente sabe que a causa são alterações genéticas. Então, quando junta o óvulo com o espermatozoide, se tem algum errinho genético ali, na junção e na transformação das células, o próprio corpo identifica que alguma coisa não está legal e a gestação não evolui. Essa é a principal causa desses abortos espontâneos. Mas é diferente daquela mulher que tem abortos de repetição - daquela mulher que engravida e perde. Nesse caso, precisa ser feito um outro tipo de investigação.

UOL: A idade da mulher influencia em um possível aborto?
Nívia Ximenes: Sim. Idade materna avançada, acima dos 40 anos, tem maior chance.

UOL: Quais são os sinais de que a mulher possa estar tendo um aborto espontâneo?
Nívia Ximenes: Sangramento, cólicas, obstrução.

UOL: Se o organismo identifica possíveis má formações genéticas, porque algumas crianças nascem com anomalias?
Nívia Ximenes: Isso é uma falha nossa (do organismo) em identificar que alguma coisa não está indo bem. Às vezes, alguns tipos de doenças, por exemplo síndrome de down, passa despercebido e a gravidez acaba evoluindo. O normal seria que a gravidez não vingue, não evolua.

UOL: O aborto espontâneo pode ocorrer somente na primeira gestação?
Nívia Ximenes: Não. Isso pode acontecer em qualquer momento da vida reprodutiva da mulher. Existe um mito, que geralmente, a mulher pode perder a primeira gestação, e isso não é verdade. Pode acontecer na primeira, na segunda, na quinta ou na décima gravidez.

UOL: A mulher pode tomar alguns cuidados antes de engravidar para preservar a gestação?
Nívia Ximenes: Antes de engravidar, a gente orienta que a mulher tenha hábitos saudáveis, faça uso de ácido fólicos. Então, geralmente, essas pacientes têm um risco menor de perder (o bebê). Diferente daquelas que são por causas genéticas. Mas o que está ao nosso alcance é fazer rotinas ginecológicas, pré-concepcional, que é a consulta antes de engravidar.

UOL: A mulher acabou de perceber que está tendo sangramento e pode perder o bebê. O que fazer?
Nívia Ximenes: Quando a mulher começa a ter sangramento ou cólica espontânea, tem que ir para emergência, porque a paciente acaba expelindo de forma natural e não precisa fazer nenhum tipo de procedimento. Mas, tem outras mulheres que infelizmente, só descobrem por ecografia e as vezes precisam de medicação para ajudar a expelir, ou então algum procedimento cirúrgico.

UOL: A curetagem uterina é um procedimento comum?
Nívia Ximenes: Hoje em dia a gente nem faz mais curetagem. A gente faz um procedimento chamado de aspiração manual intra-uterina (AMIU). A gente usa um canozinho para tirar aquele material dentro do útero, para aquelas gestações que não estão vingando.

UOL: A partir de quanto tempo após ter tido um aborto, a mulher pode tentar uma nova gestação?
Nívia Ximenes: Quando ela tem um aborto espontâneo de forma natural e não precisa de cirurgia, no outro ciclo, no mês seguinte, ela pode tentar engravidar. Diferente daquela mulher que faz algum procedimento cirúrgico, daí a gente pede três meses para liberar para ela tentar engravidar. E a gente pede um repouso, por conta do pós-operatório.

Ao final da entrevista, a especialista ressalta a importância do apoio emocional às mulheres que perdem seus bebês. "Uma perda gestacional inicial ou com um bebê grande, são muito dolorosas - para aquelas pacientes que desejam muito uma gestação. O apoio familiar e a abordagem com essa paciente têm que ser diferenciado e não tratar como uma coisa pontual".

A especialista afirma que, independente do tempo da gestação, sempre vai existir um período de luto para aquela mulher - que precisa ser respeitado e compreendido. "Infelizmente, essas pacientes passam por um luto, uma tristeza muito grande, que para mim é o ponto mais importante de um aborto espontâneo", conclui.

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