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Como funcionam os exames que prometem diagnóstico precoce de Alzheimer

Testes de sangue, saliva e visão ainda estão em estudo, mas são cotados como alternativas mais efetivas e baratas para o diagnóstico precoce - iStock
Testes de sangue, saliva e visão ainda estão em estudo, mas são cotados como alternativas mais efetivas e baratas para o diagnóstico precoce Imagem: iStock

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

16/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Diagnósticos precoces e mais específicos para o Alzheimer são considerados grandes desafios da comunidade científica
  • Três novos exames atualmente em estudo poderiam diagnosticar a doença com antecedência e por custos menores
  • No entanto, mesmo que o quadro seja diagnosticado cedo, ainda não há medicamentos para tratá-lo em estágio inicial

Quem conhece alguém que sofre de Alzheimer sabe que a doença não é nada fácil: os pacientes têm dificuldade para lembrar acontecimentos recentes e manter a atenção, repetem as mesmas frases e perguntas e, em casos mais graves, se tornam incapazes de realizar atividades básicas, como tomar banho e até se alimentarem sozinhos.

Hoje, um dos grandes desafios para a comunidade científica é conseguir oferecer diagnósticos mais precoces e precisos —já que cada caso apresenta características singulares — e drogas que possam combater o avanço da doença.

Nenhum dos testes atuais disponíveis no mercado, que incluem avaliações de comportamento e psiquiátrica, além de exames de sangue e imagem, conseguem prever o quadro cedo ou com exatidão. Por isso, os pesquisadores buscam desenvolver novas técnicas apostando principalmente nos biomarcadores, que funcionam como indicadores da possibilidade do surgimento da doença.

Dentre os biomarcadores investigados, o principal foco é identificar mudanças de duas proteínas associadas a alterações comuns no cérebro de pacientes: a beta-amiloide, que começa a se acumular e, junto com células mortas, forma depósitos entre os neurônios conhecidos como placas senis) e a TAU, que forma emaranhados neurofibrilares dentro das células nervosas.

"No entanto, já existem pesquisas com outras abordagens. Temos hoje cerca de 132 moléculas —sendo 96 modificadoras da doença em estudo para tratamento", aponta Rodrigo Schultz, neurologista e presidente da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer).

Conheça três novos testes que estão em estudo

- Teste de saliva

De acordo com a pesquisa de Gustavo Alves Andrade dos Santos, doutor em biotecnologia que estuda os biomarcadores salivares para detecção de Alzheimer desde 2013 e atualmente em seu pós-doutorado na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), o nível salivares de A-42 (um tipo proteína beta amiloide com 42 aminoácidos) pode ser considerado um marcador potencial da doença, cooperando para a exclusão de outros tipos de desordens degenerativas.

"Acreditamos que a análise dos biomarcadores em testes de saliva possa ser utilizada como suporte às avaliações comportamentais e com isso servir de modelo de diagnóstico para a identificação de Alzheimer ainda em fase precoce", aponta.

Os testes são não invasivos e a análise posterior é realizada pelo método de ELISA, o mesmo usado para detecção de HIV, sendo este altamente sensível. "Esperamos um modelo pronto até metade do ano que vem, dependendo das situações avaliadas durante os testes e resultados. Ainda não conseguimos prever quanto custará, mas sem dúvidas será barato", explica o pesquisador.

- Exame de sangue

Na análise, os médicos podem saber o nível de beta-amiloide no sangue e, se a taxa não estiver normal, prever se a se a proteína se acumulou no cérebro —uma das principais características da doença.

De acordo com os responsáveis por uma pesquisa publicada no periódico científico Neurology, ao avaliar o nível dessa proteína no sangue juntamente com outros dois principais fatores de risco do Alzheimer (a idade e a presença da variante genética APOE4), a precisão dos testes chega a 94%, sendo mais barato e mais simples do que uma tomografia computadorizada de PET, o exame que é mais usado atualmente para medir a quantidade de beta-amiloide no cérebro.

- Teste de visão

Em um estudo publicado no periódico JAMA Ophthalmology, cientistas apontaram que com uma angiografia por tomografia de coerência óptica (OCT), um exame de vista realizado em muitas clínicas, pode ser possível identificar o Alzheimer em pessoas que ainda não apresentam sintomas da doença.

O estudo foca no fato de que pessoas com Alzheimer apresentam sinais de alteração no centro da retina e no nervo óptico, conforme já pesquisas anteriores já apontaram.

"Todos nós temos uma pequena área desprovida de vasos sanguíneos no centro de nossa retina. Descobrimos que essa região cresceu significativamente nos 17 idosos com Alzheimer pré-clínico [avaliados na pesquisa]", afirmou Paul A. Cibis, um dos responsáveis pelo trabalho científico. A alteração no olho não foi demonstrada nos 13 pacientes do estudo que não apresentaram nível elevado de beta-amilóide ou TAU.

Drogas para tratar a doença em estágio inicial ainda não existem

Em teoria, esses três novos testes ajudariam a iniciar o tratamento dos pacientes com Alzheimer antes dos sintomas aparecerem. "É extremamente justificável e importante. Começar a usar um medicamento nessa fase poderia regredir a doença e aumentar a qualidade de vida dos pacientes, algo que para um quadro mais avançado talvez já não funcione. O grande problema é que essa droga, para o tratamento precoce, ainda não existe", explica o presidente da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer).

De acordo com o neurologista, equipes de cientistas também estão trabalhando para criar novos medicamentos. "Acreditamos que teremos, entre três e dez anos, novas boas drogas. Por enquanto, a recomendação é que os pacientes mantenham hábitos saudáveis", conclui.

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