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80% dos alunos entre 13 e 15 anos já consumiram substâncias psicoativas

Segundo os pesquisadores, nesta fase é muito comum adolescentes experimentarem essas substâncias - iStock
Segundo os pesquisadores, nesta fase é muito comum adolescentes experimentarem essas substâncias Imagem: iStock

Tainá Lourenço

Jornal da USP

17/09/2019 10h27

Num universo com cerca de sete mil estudantes do nono ano do ensino fundamental, com idades entre 13 e 15 anos, mais de 80% já consumiram algum tipo de substância psicoativa. É o que revela uma pesquisa da Faculdade de FFCLRP (Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto) da USP.

Segundo os pesquisadores, nesta fase é muito comum adolescentes experimentarem essas substâncias; porém, destacam, existe preocupação com jovens que, além de consumirem mais frequentemente e em maior quantidade, apresentam problemas de saúde física e mental e que estiveram envolvidos em casos de violência física e sexual.

O trabalho "Uso de substância e envolvimento em situações de violência: um estudo tipológico em amostra brasileira", do GEPDIP (Grupo de Estudos e Pesquisa em Desenvolvimento e Intervenção Psicossocial) foi feito a partir da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar realizada pelo IBGE, em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação em 2015. Essa pesquisa contou com a participação de mais de 100 mil alunos brasileiros do nono ano de escolas públicas e privadas de áreas urbanas e rurais em todo o País.

Essa é a primeira vez que essa pesquisa nacional é analisada de forma sistemática, levando em consideração o envolvimento dos adolescentes com casos de violência e problemas da saúde. "Nós trabalhamos com uma subamostra de 6.702 adolescentes que responderam todas as questões relacionadas ao uso de substâncias", revela o psicólogo André Vilela Komatsu, um dos autores da pesquisa. Esses estudantes foram classificados em cinco grupos: abstencionistas, experimentadores de álcool, usuários de drogas convencionais, usuários de múltiplas substâncias e usuários de drogas pesadas.

Os dois grupos com menor uso de substâncias foram os que apresentaram menos problemas de saúde e envolvimento em violência; este é o caso dos abstencionistas, 18% dos alunos que não consomem nenhum tipo de substância, e também dos experimentadores de álcool, 26%, que em geral fizeram uso apenas de álcool.

Em contrapartida, usuários de drogas convencionais, que utilizam ou álcool e tabaco ou álcool e maconha, 28%, e os que consomem múltiplas substâncias - álcool, tabaco e maconha - 23%, estiveram envolvidos em casos de violência, mas não apresentaram nenhum tipo de problema de saúde.

Alunos em risco pessoal e social

Já os usuários de drogas pesadas, 5%, que consomem álcool, tabaco, maconha e crack com frequência e de forma acentuada, apresentaram maior prevalência de problemas de saúde física e mental que os demais grupos e, além disso, estiveram envolvidos em casos de violência com maior frequência, inclusive em casos de vitimização por abuso sexual.

Segundo Komatsu, o caso desses 5% de jovens é preocupante, pois além de o consumo não ser apenas experimental, como é o caso dos outros alunos, as dificuldades que podem aparecer durante essa fase impactam de forma negativa no próprio desenvolvimento. "São questões que, se não forem resolvidas agora, vão custar muito mais caro lá na frente, tanto para os jovens quanto para a sociedade."

A solução, propõe, é criar mecanismos capazes de identificar a problemática já em seus primeiros sinais, por intermédio da capacitação da equipe escolar para "escutas acolhedoras, rastreamento de problemas relacionados ao abuso de substâncias e para violência contra crianças e adolescentes".

O psicólogo afirma ainda que outro ponto a ser explorado é o aumento de oportunidades de lazer e cultura. Diz que, se os jovens tiverem opção de atividades estimulantes para a fase de desenvolvimento em que se encontram, ''tenderão a investir mais tempo nessas atividades e, consequentemente, irão se expor menos a situações de risco para se envolverem com atividades ilícitas".

Prêmio no World Congress of Criminology

O estudo do GEPDIP está entre os dez classificados pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC - Education For Justice) e pela ISC (sigla em inglês para Sociedade Internacional de Criminologia) para ser premiado durante o 19º World Congress of Criminology que acontecerá no mês de outubro em Doha, no Qatar.

A premiação será entre 27 e 31 de outubro e, neste ano, o tema será Ciência, Tecnologia e Ensino em Criminologia: Pesquisando, Investigando e Prevenindo o Crime. Ênfase em Ensinar e Educar sobre o Estado de Direito. A competição é patrocinada pela iniciativa Educação para Justiça da UNODC, em parceria com a ISC.

A coordenadora do Grupo de Estudos, Marina Rezende Bazon, do Departamento de Psicologia da FFCLRP, conta que o prêmio conquistado pelo grupo mostra o quanto os estudos de criminologia "têm muito a oferecer ao Brasil", porque, mesmo com tantos casos de violência criminal e segurança, a criminologia como ciência dedicada exclusivamente aos fenômenos criminais ainda não existe por aqui.

Assim como a professora, Komatsu afirma que o prêmio é importante pois contribui para a construção do cenário da criminologia no Brasil e também abre oportunidades para parcerias entre os grupos participantes e insights para novos avanços na ciência mundial.

De maus-tratos domésticos à violação de leis criminais, o GEPDIP analisa o envolvimento de crianças e adolescentes em situações de violência e como essas práticas se desenvolvem, para então responder como instituições e profissionais devem atuar nesses casos.

Participaram da produção do trabalho: André Vilela Komatsu, pós-doutorando do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), Cepid Fapesp sediado na USP; Marina Rezende Bazon, professora do Departamento de Psicologia da FFCLRP e coordenadora do GEPDIP; Rafaelle Carolynne Santos Costa e Lais Sette Galinari, mestrandas em Psicologia na FFCLRP; e Renato Carpio de la Torre, professor de Psicologia na Universidade Nacional de Santo Agostinho de Arequipa, Peru.

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