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Estudo vê gordura em pulmão de pacientes com doença do cigarro eletrônico

Novo estudo dá mais pistas sobre o que pode estar acontecendo com pacientes acometidos pela doença - AFP
Novo estudo dá mais pistas sobre o que pode estar acontecendo com pacientes acometidos pela doença Imagem: AFP

Do VivaBem, em São Paulo

09/09/2019 14h23

Resumo da notícia

  • Cientistas dos EUA encontraram células do sistema imunológico com gordura nos pulmões de pacientes vítimas da misteriosa doença do cigarro eletrônico
  • Conhecidas como macrófagos, as células são enviadas pelo corpo para "limpar" a área de infecções
  • Cientistas agora tentam entender como as moléculas de gordura foram parar dentro dessas células e como isso se relaciona à doença
  • Anteriormente, as autoridades encontraram uma substância derivada da vitamina E em comum em quase todos os casos relatados até agora

A misteriosa doença pulmonar que vem acometendo usuários de cigarro eletrônico nos Estados Unidos parece estar a mais um passo de ser desvendada. Isso porque médicos da University of Utah Health encontraram, dentro dos pulmões desses pacientes, células imunes chamadas magrófagos com grande quantidade de óleo dentro delas.

A descoberta foi publicada em estudo no New England Journal of Medicine e podem ajudar os cientistas a diagnosticar de forma mais precisa e entender melhor a síndrome, que já fez três vítimas (uma quarta morte ainda está em análise), de acordo com o CDC (Center of Diseases Control and Prevention) dos Estados Unidos.

Os cientistas conseguiram identificar as células nos pulmões de seis pacientes que praticaram "vaping" (como está sendo chamado o uso dos cigarros eletrônicos) e que estão sendo tratados na University of Utah Hospital em Salt Lake City.

Os médicos usaram um procedimento chamado de lavagem broncoalveolar. Nele, uma pequena seção dos pulmões é lavada com um líquido específico e depois ela é coletada para exames.

Foi nesse tecido que os médicos encontraram os macrófagos, um tipo de célula do sistema imunológico que costuma "limpar" áreas infeccionadas. Ao usar um contraste, os cientistas conseguiram ver que essas células estavam cheias de gotículas oleosas.

Os especialistas fizeram o primeiro teste no primeiro paciente tratado na universidade. Na ocasião, um dos responsáveis pelo caso desconfiou que ele poderia estar com pneumonia lipoide -causada pela aspiração de partículas de lipídio.

Depois que o marcador foi encontrado no paciente, o teste foi feito nos outros indivíduos suspeitos de sofrerem com a mesma condição, e as estruturas também foram encontradas neles.

Desde que o artigo foi submetido para publicação, o número de pacientes analisados subiu para 10 —o biomarcador foi encontrado em todos eles. O número de vítimas continua a aumentar semanalmente.

Os médicos agora se perguntam se a "doença misteriosa" é, na verdade, um tipo de pneumonia lipoide. Embora tenham semelhanças, as duas condições também possuem diferenças: a pneumonia lipoide é tipicamente vista em pessoas mais velhas e geralmente causada de forma acidental; e se apresenta de forma bastante específica nos exames de Raio-X.

Substância tóxica foi encontrada em cigarros eletrônicos

Os investigadores do FDA (Food and Drug Administration) já haviam descoberto um mesmo produto químico presente em diversas amostras de maconha utilizadas por pessoas que adoeceram.

O produto seria o acetato de vitamina E, uma substância usada regularmente como suplemento alimentar, mas que teria potencial para causar sérios danos quando inalado.

Desde o início dos casos, especialistas já alertavam para a necessidade de uma melhor regulamentação do uso dos cigarros eletrônicos e aditivos (para dar sabor de frutas, por exemplo) que podem ser usados nesses aparelhos.

"Há poucos estudos sobre o que as substâncias que produzem o vapor do cigarro eletrônico causam na saúde", explica Stella Regina Martins, especialista em dependência química do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor (Instituto do coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP)*.

"Além disso, cada aditivo tem uma composição diferente, não regulamentada, que vai mudar quando aquecida. É quase impossível saber em quais substâncias eles vão se transformar após o aquecimento e o que isso vai causar no corpo", acredita a especialista.

Para o médico Paulo Corrêa, pneumologista da Comissão Científica de Tabagismo da SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia), os aparelhos para o "vaping" são comercializados, ainda que proibidos, de forma livre e como um produto seguro --o que não é o caso.
"Muitos jovens usam achando que a fumaça é apenas vapor de água, mas não é verdade", conta. "O líquido contém substâncias como glicerol e propileno glicol, que podem originar substâncias cancerígenas depois de aquecidas", alerta o médico.

*Informações de matéria publicada no dia 19/08/2019.