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É normal sentir-se mais triste no frio: entenda por quê

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Imagem: iStock

Camila Brunelli

Colaboração para o VivaBem

21/08/2019 04h00

Mesmo os apaixonados pelo inverno, com as bebidas quentes e o aconchego das cobertas, têm mais dificuldade de levantar da cama de manhã. Em algumas pessoas, chega a bater um desânimo e até uma tristeza. E não se trata de frescura: é biológico. A falta de luminosidade --especialmente dos raios solares -- causa uma maior sensação de moleza, preguiça, desânimo. Dias com luminosidade maior fazem com que nosso organismo produza substâncias que favorecem a animação, disposição e engajamento com as atividades --exercícios físicos e interação social, essenciais para a saúde mental do humano.

Isso porque durante a noite nosso cérebro secreta a melatonina, hormônio responsável por regular o relógio biológico e fazer com que tenhamos sono à noite --e, consequentemente, mais disposição durante o dia. Por isso, na ausência de luminosidade, as pessoas permanecem no padrão noturno, o que causa sonolência, desânimo, irritabilidade e mais apetite que o normal. É como se o cérebro entendesse que ainda é tempo de dormir.

Além disso, a ausência do sol atrapalha a fixação da vitamina D, outra substância ligada ao combate da depressão. A luz solar também ativa a produção da dopamina e serotonina, neurotransmissores relacionados à felicidade e bem-estar.

Alguns casos podem ir além da melancolia

Em locais onde o inverno é mais rigoroso e os dias mais curtos, algumas pessoas sofrem até da chamada depressão sazonal de inverno --ou transtorno afetivo sazonal --, causada pelo isolamento social e pela falta de luminosidade. Há locais em que o sol pode ficar escondido por até 12 horas.

No Brasil, apesar de termos sol na maioria dos dias invernais, entramos na lógica de sair menos de casa quando dá aquela esfriada. Com isso, tem-se menos contatos com as pessoas e, claro, toma-se menos sol --luz solar ativa a produção da serotonina e da dopamina, neurotransmissores relacionados à felicidade. Assim como em dias de clima mais quente a interação social em ambientes públicos é mais fácil, em locais com inverno frio e chuvoso o clima favorece a introspecção.

Acabamos encontrando menos com amigos e familiares, o que reduz o sentimento de segurança emocional experimentado quando estamos em um ambiente de convívio saudável com quem amamos. A rotina casa-trabalho-casa deixa as pessoas menos tempo na rua e convivendo menos com quem se ama.

É bom lembrar que estar virtualmente com os atores de nossa vida social não adianta. Por isso, esqueça as redes sociais como alternativa para o isolamento social. Especialistas frisam que tem de estar com elas, beijá-las, abraçá-las: pesquisadores já conseguiram provar que o que o contato físico libera ocitocina, apelidado de 'hormônio dos vínculos emocionais'.

Deixar de fazer atividade física também influencia nesse quadro. Esse é um erro comum e quase que natural, principalmente para quem não gosta dos ventos invernais. O problema é que, ao deixar de praticar exercícios, o sujeito deixa de ter substâncias como endorfina e serotonina sendo liberadas pelo organismo, promovendo aquela sensação de bem-estar da qual está carente nesses dias com menos luz.

Como saber se é depressão?

A depressão é um diagnóstico de causas biológicas e situacionais, de modo que apenas o clima frio não pode ser considerado como causa isolada do transtorno. Mas esses períodos de longas frentes frias podem agravar o quadro de quem já tem o problema --e quem não tem pode apresentar alguns sintomas de uma pessoa deprimida por causa de fatores climáticos.

Para diagnosticar esse distúrbio, é importante que o paciente tenha tido pelo menos dois episódios depressivos e sempre na mesma época do ano. Sentimentos de tristeza, inquietação, apetite alterado, alterações no sono, diminuição de energia física, problemas de cognição ou concentração e incapacidade de sentir prazer podem ser experimentados.

A quantidade dos sintomas que cada paciente pode apresentar varia, mas é importante que eles não tenham a ver com situações específicas que possam trazer esses sentimentos, como um término de relacionamento ou perda de emprego.

Como se esquivar do desânimo?

O principal antídoto para não se sentir assim melancólico é a boa e velha atividade física. Em outras palavras: mexa-se! Saia de casa para resolver as coisas e não fique desmarcando compromissos por causa do frio --isso pode afetar sua autoestima por não se sentir produtivo. Se achar que está muito frio de manhã para ir à academia, tente ir na hora do almoço, por exemplo.

Buscar companhia e não deixar a vida social de lado também ajuda. Tanto que psicólogo e professor de Psicologia da PUC-SP, Ricardo Monezi, faz uma analogia ao mundo animal: "vamos fazer como os animais fazer no inverno: ficar bem juntinhos para esquentar. Quando os bichos se aglomeram, além de aquecer, eles parecem maiores para os predadores --e no caso dos humanos, o predador é a depressão."

Fontes: Paulo Bloise, psiquiatra e fundador do Ambuliatório de Crise Psiquiátrica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); Ricardo Monezi, psicólogo, especialista em Medicina do Comportamento e doutor em psicobiologia pela Unifesp, professor de Fisiologia do Comportamento e Neurologia para o curso de Psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo); Caio Viana, psicólogo da Beneficência Portuguesa de São Paulo; Yuri Busin, psicólogo e diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio); Wadson Gama, psicólogo especialista em psicologia social, professor de psicologia e desenvolvimento humano do IPOG (Instituto de Pós-graduação e Graduação)