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Aplicativo de brasileira ajuda na alfabetização de crianças com autismo

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Imagem: iStock

Camila Brunelli

Colaboração do UOL VivaBem

31/07/2019 04h00

A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que há 70 milhões de pessoas com autismo em todo o mundo, sendo cerca de 2 milhões somente no Brasil. Calcula-se que em todo o mundo, uma em cada 160 crianças tenham o TEA (Transtorno do Espectro do Autismo). No Brasil, a estimativa é de que uma em cada 88 crianças apresenta traços de autismo --com prevalência cinco vezes maior em meninos.

Trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por padrões de comportamentos repetitivos e dificuldade na interação social --e que afeta, especialmente, três domínios do desenvolvimento humano: a comunicação, a sociabilização e a imaginação.

Especialistas dizem que a maioria dos pais percebe que há algo de errado antes dos dois anos da criança. Entre os sinais mais comuns estão a dificuldade de brincar de "faz de conta", de socializar com outras crianças e de comunicação (verbal e/ou não-verbal). É importante que se diga que quanto mais cedo o diagnóstico for confirmado por profissionais de saúde, mais cedo um tratamento adequado pode ser oferecido, e mais chances de inclusão daquela criança.

Assistente social de formação, a pesquisadora Ana Sarrizo, de Belo Horizonte, se deparou com um grupo de crianças autistas que faziam atividades educativas durante o contra turno escolar, em uma comunidade carente --e sem ferramentas adequadas às dificuldades que podem apresentar.

Ana passou, então, a estudar o tema: conversou com professores, pais, psicólogos. Durante o primeiro semestre do curso tecnólogo de Projetos Multimídia, na UniBH, na capital mineira, conheceu um professor que havia defendido, em sua tese, um jogo para crianças com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção). Na mesma época, ficou sabendo de um prêmio da Fundação Santander para empreendedores e escreveu seu projeto: ficou em primeiro lugar, frente a mais de 17,6 mil propostas.

Com o prêmio de R$ 100 mil e uma bolsa no curso de empreendedorismo da Babson College, ela desenvolveu o aplicativo Brainy Mouse, com base no jogo do professor especializado em TDAH. Depois de 6 meses de versão Beta, período em que o jogo foi testado com crianças de Belo Horizonte, São Paulo e nos Estados Unidos, lançou o app --primeiramente na versão em inglês e, quatro meses mais tarde, em português.

"O game é para auxiliar na alfabetização, qualquer criança pode brincar. O que acontece é que jogo apresenta argumentos a crianças que apresentam esse tipo de deficiência que vão desenvolver a habilidade cognitiva dela", explicou a criadora do aplicativo.

Como pode ajudar o autista

Partindo do pressuposto de que cada criança é diferente e que existem três graus de autismo - leve, moderado e severo - o menu permite que todo o layout do jogo seja personalizado de acordo com o usuário ou o humor que está naquele dia. Assim, o educador, pai ou profissional de saúde pode alterar cor da tela, idioma, trilha sonora do jogo, tamanho da letra, velocidade do ratinho e nível de dificuldade de acordo com as necessidades do alfabetizando. "Tem crianças que só de ver o vermelho, naquele dia específico, se irrita. Outras, não gostam, por exemplo, de música clássica."

O jogo se passa dentro de uma cozinha, em que as crianças, representadas pelo ratinho, tentam montar pratos típicos de diversos países --entre Brasil, Estados Unidos, Japão, Itália, México, Alemanha, França e Israel -- juntando os ingredientes, que são separados por sílabas. Assim, para passar de fase, o jogador é obrigado a montar as palavras, sílaba por sílaba, sem deixar que o chef o capture. E da esquerda para a direita, para que a criança se acostume com a maneira correta da escrita ocidental.

Uma ferramenta do aplicativo de importância central no desenvolvimento do autista é chamada de Rato Amigo, um ratinho super-herói --com capa e tudo -- que está disponível no canto superior esquerdo da tela. Esse dispositivo age diretamente na capacidade de socialização e interação da criança, uma das maiores dificuldades dos educadores que trabalham com esse público. Se o jogador perceber que não consegue fugir do cozinheiro para montar o prato da vez, ele pode acionar o superrato, que congela o vilão, dando mais tempo para realizar as tarefas. Outra oportunidade de estimular essa habilidade social, é no caso de a criança não conseguir achar alguma sílaba do ingrediente necessário para a montagem do prato. Com ajuda do ratinho, é possível achar a parte da palavra que estava escondida.

"Inconscientemente, a criança vai percebendo que buscar ajuda e incluir alguém na vida dela é bom. Isso em cadeia, quando se torna uma rotina, vai trazer muitos benefícios para ela", diz a pesquisadora. Um dos principais sinais de autismo é a criança que não se relaciona com outras pessoas --algumas desde que são bebês têm dificuldade de estabelecer uma comunicação visual com a mãe que a amamenta.

Outro detalhe do jogo é o joystick, no lado esquerdo da tela, que a criança tem de apertar para que o ratinho se mova. Esse movimento desenvolve a coordenação motora, já que muitas crianças autistas apresentam dificuldades nesse aspecto. Além disso, quando está jogando, a criança só pode pegar as sílabas do ingrediente da esquerda para a direita - mais uma dica motora da vida real. Ana contou que jovens autistas que jogam há cerca de 3 meses, de uma a duas horas por dia, já começam a ter sinais de desenvolvimento. "Eles começam a interagir e escrever um pouco melhor."

"Apesar de o principal objetivo ser a alfabetização, auxilia sim, na motricidade (grau de força que a criança aplica sobre o botão), na autonomia, e na questão da ansiedade - agindo quase que como um calmante", disse o neurologista Felipe Kalil Neto, da PUC do Rio Grande do Sul, que é especializado em neurologia infantil.

O médico gaúcho citou outro momento do jogo em que o desenvolvimento é incentivado. Para ele, quando, antes de começar a brincar, o pequeno tem de vestir o ratinho, é um momento de auxílio na construção de autonomia. "Geralmente, no dia a dia, são adultos dando ordens, e tem algumas crianças que não toleram. Quando tem um ratinho bonitinho fica mais caloroso, mais lúdico --o mesmo princípio da musicoterapia. Com certeza, a criança aprende mais fácil." Ele explicou que algumas crianças autistas só se alfabetizam ou desenvolvem a fala por meio da terapia com músicas.

Kalil Neto, no entanto, disse que é preciso ter cuidado. Apesar de acreditar que os meios eletrônicos sejam uma ferramenta valiosa para lidar com as crianças de hoje --desde que com limite -- ressalta que não é nenhuma mágica. Ele deixa claro que o uso do aplicativo não substitui o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar composta essencialmente por um neurologista (ou psiquiatra), um terapeuta ocupacional e um fonoaudiólogo. "Só tenho elogios a esse aplicativo, mas como método complementar. Parece ser um joguinho bobo, mas é de uma complexidade absurda. Não vejo nada de negativo."

Já a psicóloga Camila Canguçu, professora de Psicologia na Universidade de Rochester (USA) até o fim do ano passado, acha positivo o ratinho estimular a criança a pedir ajuda e se comunicar e lembra que aplicativos criados para tablets e celulares são mais fáceis de transportar - já que os brinquedos educativos específicos para essas crianças não são.

Democratização do diagnóstico

O game está disponível para Android e iOS e o download do jogo custa US$ 4.99 e dá direito a todas as versões e atualizações. Tudo que é arrecadado com os downloads vai para a Fundação Brainy Mouse, entidade sem fins lucrativos, da qual Ana é presidente. Segundo ela, o valor é revertido para apoio de pesquisas em prol da cura, soluções e outros jogos interativos que possam beneficiar crianças com autismo, TDAH, distrofia muscular ou síndrome de Down.

Especialistas no assunto concordam que quanto mais precoce o diagnóstico, mais fácil é a inclusão dessas crianças. Por isso, é importante observar se o bebê de um ou dois aninhos não fala, vive com o olhar perdido, ou anda na pontinha dos pés. Ela conta que muitos demoram a levar os filhos o médico porque acreditam 'ser uma fase'. "O que acontece é que os pais têm vergonha e medo do diagnóstico. Eles estão muito cansados, sem esperança. Muitos têm o casamento desfeito - eles não têm tempo para eles, porque principalmente a mãe vive em função desse filho", lamentou.

Fontes: Ana Sarrizo, pesquisadora e criadora do aplicativo Brainy Mouse; Camila Canguçu, psicóloga, ex- professora da Universidade de Rochester, Mestre em psicologia pela USF e Doutora em psicologia pela Medaille College em Nova York; Felipe Kalil Neto, neurologista do Hospital São Lucas da PUCRS especialista em Neurologia infantil