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Remédio para retardar envelhecimento reduz efeito do exercício, diz estudo

Frascos de um remédio popular para o diabetes, a metformina, em uma prateleira de uma farmácia em Nova Jersey, nos Estados Unidos - Emile Wamsteker/The New York Times
Frascos de um remédio popular para o diabetes, a metformina, em uma prateleira de uma farmácia em Nova Jersey, nos Estados Unidos Imagem: Emile Wamsteker/The New York Times

Gretchen Reynolds

Do New York Times

30/06/2019 04h00

Um remédio popular contra a diabetes, às vezes indicado para retardar o envelhecimento, pode diminuir alguns dos benefícios que os exercícios aeróbicos trazem a idosos saudáveis, de acordo com um novo estudo. A medicação, chamada metformina, pode enfraquecer certas alterações físicas causadas pela atividade física que normalmente ajudam as pessoas a envelhecer bem.

Os resultados levantam questões sobre a conexão entre remédios e atividade física no envelhecimento saudável, e também se sabemos o suficiente sobre como esses dois fatores interagem. Os achados são particularmente desconcertantes se pensarmos que pessoas saudáveis e ativas estão considerando tomar esse remédio para retardar o envelhecimento.

Hoje em dia, a metformina é a medicação mais prescrita globalmente para pessoas acometidas pela diabetes tipo 2. Ela permite que os portadores da doença melhorem seu controle do nível de açúcar no sangue e a sensibilidade à insulina, em grande parte por reduzir a quantidade de açúcar liberada pelo fígado no sangue. Em pessoas com diabetes, os benefícios podem claramente compensar os riscos.

Recentemente, contudo, cientistas, médicos e muitas outras pessoas chegando à meia-idade ficaram intrigados com a ideia de que o medicamento também poderia mudar a maneira como as pessoas saudáveis envelhecem.

Vermes e roedores que receberam metformina normalmente vivem mais do que seus companheiros de laboratório não medicados. Esses estudos com animais sugerem que, além de reduzir o nível de açúcar no sangue, o remédio também diminui a inflamação e produz outros efeitos celulares capazes de modificar o envelhecimento.

Os exercícios também influenciam o processo de envelhecimento, claro. Estudos com animais e humanos mostram, por exemplo, que as atividades regulares melhoram a aptidão aeróbica das pessoas e sua sensibilidade à insulina, ambos fatores ligados a períodos de vida mais longos e mais saudáveis.

Não é novidade que alguns pesquisadores passaram a especular que a combinação de metformina e exercícios pode levar a benefícios ainda maiores contra o envelhecimento do que a abordagem isolada. Mas pouco se sabia sobre como, e se, a metformina e os exercícios poderiam trabalhar juntos em nosso corpo e em nossas células.

Assim, para o novo estudo, publicado em fevereiro na revista científica Aging Cell, pesquisadores da Fundação de Pesquisa Médica de Oklahoma, da Universidade Estadual do Colorado e da Universidade de Illinois decidiram pedir a algumas pessoas saudáveis que praticassem exercícios e ingerissem metformina.

Eles começaram recrutando 53 homens e mulheres sedentários, porém saudáveis, com cerca de 60 anos. A maioria apresentava fatores de risco para diabetes tipo 2, como histórico familiar, mas não era diabética.

Os cientistas avaliaram a aptidão aeróbica, os níveis de açúcar no sangue, a sensibilidade à insulina e a massa corporal iniciais dos voluntários. Fizeram também biópsias em minúsculos pedaços de músculo da perna e determinaram de forma aleatória se os participantes deveriam receber metformina ou placebo.

Em seguida, todos começaram um programa monitorado de exercícios, visitando o laboratório três vezes por semana para correr na esteira ou pedalar na bicicleta ergométrica por 45 minutos, rotina que seguiram por quatro meses. Por fim, os pesquisadores repetiram a mesma bateria de medições do início do estudo e compararam os dois grupos.

Descobriu-se, sem surpresas, que a maioria dos voluntários estava em melhor forma física e com o controle de açúcar no sangue mais aprimorado do que antes, e também com a sensibilidade à insulina aumentada. Espera-se que cada uma dessas três mudanças fisiológicas melhore a maneira como os voluntários envelhecem.

Contudo, os dois grupos apresentaram disparidades significativas. No geral, os homens e as mulheres que tomaram a metformina ganharam menos condicionamento físico, alcançando apenas metade da resistência do grupo do placebo. Além disso, muitos dos que tomaram a medicação mostraram pouca, quando alguma, melhora na sensibilidade à insulina. (Praticamente o peso de ninguém, em nenhum grupo, mudou muito.)

Os cientistas em seguida examinaram microscopicamente os músculos dos voluntários e encontraram diferenças reveladoras entre os dois grupos. As células musculares dos voluntários do grupo do placebo estavam repletas de mitocôndrias, que são como centros produtores de energia das células. As mitocôndrias transformam o oxigênio e o açúcar em combustível celular, em um processo conhecido como respiração mitocondrial. Mais respiração geralmente significa melhor saúde celular.

Nas células musculares dos voluntários que tomaram placebo, a respiração mitocondrial aumentou em 25 por cento, em comparação aos níveis do início do estudo. O mesmo não aconteceu no grupo da metformina, que mostrou pouca, quando alguma, elevação da respiração mitocondrial.

Em realidade, a metformina bloqueou os ganhos que seriam esperados para a respiração mitocondrial das células musculares em decorrência dos exercícios, esclareceu Benjamin Miller, principal pesquisador do programa de pesquisa sobre envelhecimento e metabolismo da Fundação de Pesquisa Médica do Oklahoma, que supervisionou o estudo.

Sem a potencialização das mitocôndrias, os voluntários do grupo da metformina pareciam menos capazes de melhorar a forma física ou a sensibilidade à insulina do que os outros voluntários.

Miller disse que os resultados não indicam que o uso de metformina deve ser interrompido ou evitado, mesmo para retardar o envelhecimento.

O estudo acompanhou apenas um pequeno grupo de pessoas por um período relativamente reduzido e examinou uma fração ínfima dos múltiplos efeitos que tanto a metformina quanto o exercício causam sobre o corpo. Além disso, não foram investigadas pessoas tomando metformina sem a prática de exercícios.

"Mas os achados realmente nos dão razão para pensar de forma um pouco mais cautelosa sobre a combinação de metformina e exercício em pessoas saudáveis", afirmou Miller. "Não houve um efeito complementar ao juntar os dois", esclareceu. Pelo contrário, a metformina e o exercício "aparentemente não trabalham bem juntos".

Mais pesquisas são necessárias para entender como a metformina afeta a mitocôndria, os exercícios e o envelhecimento, disse ele. De forma mais ampla, a conclusão do estudo levanta questões sobre como o exercício pode responder a outras medicações.

"Os médicos são muito conscientes das interações medicamentosas. Está na hora de considerarmos também as interações entre remédios e exercícios", sugeriu.

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