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O que aprendi sobre a vida com minha tia Doris, de 106 anos

Reprodução/wiseGEEK
Imagem: Reprodução/wiseGEEK

Barry Eisenberg

Do New York Times

22/06/2019 04h00

Minha tia Doris morreu recentemente, a exatas duas semanas de seu aniversário. Ela faria 107 anos.

Como executivo de um hospital, consultor e professor de administração da área da saúde, por toda a minha vida profissional me envolvi com os cuidados de saúde. Mas o tempo passado com minha tia no fim de sua vida me ensinou mais sobre viver e morrer do que toda a experiência que tive.

Doris viveu no mesmo apartamento em Manhattan por sete décadas. Por anos, resistiu à ideia de se mudar para a casa de algum parente ou para alguma residência assistencial. Aos 103 anos, sofreu uma queda que a fez parar no hospital. Após isso, ela concordou, não sem alguma relutância, em contratar uma cuidadora, que passou a morar com ela.

A pessoa era cuidadosa e eficiente, mas, durante os dois anos seguintes, Doris se tornou excessivamente frágil e acamada, com a mente confusa. Passou a ter cada vez mais dificuldade para respirar e sua voz estava praticamente inaudível quando disse à minha esposa, Amy, e a mim que não queria morrer ao lado de uma "estranha", que entendemos ser a cuidadora.

Quando Amy disse: "Doris, adoraríamos que você viesse morar conosco", Doris começou a chorar. Com um olhar de gratidão, sussurrou: "Vocês me aceitariam?"

Doris parecia estar próxima da morte e queríamos honrar seu desejo de estar em família. Parecia algo simples, até mesmo ingênuo, pensando em retrospecto, descomplicado pelas implicações de um período de cuidados sem data para acabar.

O médico dela acreditava que o tempo urgia. Com a ajuda de uma residência para idosos local, reformamos nosso quarto de hóspedes e deixamos tudo pronto para que Doris pudesse ser transportada à nossa casa em Nova Jersey.

À medida que a equipe de transporte delicadamente movia a frágil Doris de sua cama para a maca, ela parecia mais uma pilha de ossos do que uma pessoa. Será que ela sobreviveria à viagem? Ela mal respondia a estímulos, os olhos estavam vagos. Segurei suas mãos debilitadas, esperando que ela não estivesse assustada. Em casa, ela ficava deitada, quase sem movimentos, na cama de hospital providenciada pela residência de idosos. Começamos a vigília que, acreditávamos, não duraria muito.

Penduramos alguns retratos de família tirados do apartamento de Doris, que ficavam na parede próxima à cama dela, e os colocamos perto da cabeceira da cama, descrevendo cada um.

Uma foto da década de 40 trazia Doris em um vestido escuro de botões com ombreiras pronunciadas, um visual que ela descrevia como "garboso". Em outra, dos anos 1960, ela estava em uma praia cercada por palmeiras na Califórnia, posando feliz com alguns primos. Havia poucos sinais de que nossos relatos estavam sendo absorvidos, mas perseveramos na esperança de deflagrar memórias familiares, como os waffles fritos do Hudson Place da Terceira Avenida que ela tanto amava e a decoração marítima da década de 40 que fazia com que seus olhos brilhassem.

Doris passou a se mexer um pouco nos dias que se seguiram, os olhos pareciam mais focados. Foi quando algo como um milagre aconteceu: Doris começou uma jornada lenta, porém consistente, de volta ao seu antigo eu. Nas semanas seguintes, havia quase que completamente restaurado as habilidades cognitivas. Passou a se alimentar sozinha e, com ajuda, a usar a cadeira sanitária em vez das fraldas que odiava.

Quando o inverno deu lugar à primavera, Doris passou a se sentar na cadeira de rodas no terraço do nosso quintal. Apesar da visão fraca, conseguia diferenciar as árvores e observar os pássaros que voavam por ali. Tínhamos longas conversas sobre a vida que levara. Mostrava mais alegria quando falava da infância. Mais velha de quatro irmãos, Doris nasceu na Polônia, onde ela e a mãe - minha avó - ficaram enquanto o pai veio para os Estados Unidos em busca de trabalho e oportunidade. Todos se reuniram nos Estados Unidos quando Doris tinha sete anos.

Doris começou a trabalhar assim que terminou o ensino médio. Trabalhava duro e era ambiciosa, o que a levou à função de executiva em uma empresa do mercado financeiro. Nunca se casou, dedicando-se totalmente ao trabalho. Quando se aposentou, aos 91 anos, passou a atuar como voluntária na Biblioteca Pública de Nova York.

Minha amizade com Doris começou anos atrás, quando me tornei um jovem adulto. Mais tarde, nossos filhos também desenvolveram relações próximas com ela, admirando sua força de caráter e sua perspectiva feminista esculpida nos anos 40, quando passou a ocupar as posições exclusivamente masculinas da empresa onde trabalhava. Ela nos inspirava a todos, narrando como caminhava para todos os lugares de Nova York: trabalho, voluntariado, ópera, museu.

Agora, morando conosco, Doris estava determinada a reconquistar a autonomia e a andar de forma independente de novo. Voltou à rotina de exercícios que seguiu durante anos, principalmente elevação das pernas, alongamento e automassagem.

Não demorou para se levantar da cadeira de rodas e caminhar com a ajuda de um andador. Tinha uma rotina disciplinada, contava seus passos e registrava os progressos. Então, voltava para a cadeira de rodas, de onde admirava as árvores do jardim. Ela se divertia quando o cachorro lambia seu sorvete e seu rosto. Deleitava-se com o despertar dos sentidos, pedindo para cheirar os lilases recém-florescidos.

A curiosidade intelectual de Doris também floresceu. Nós nos sentávamos no terraço para conversar todos os dias. Quando o tempo esfriava, nossos papos se mudavam para dentro de casa. Ela se manteve atualizada sobre o cenário político e sobre os investimentos que mantinha. Um pequeno grupo de parentes que a visitava em Nova York passou a visitá-la também em Nova Jersey.

Em dado momento, ela olhou para Amy e para mim e confidenciou: "Nunca pensei que a vida pudesse ser tão bonita."

Após 17 meses conosco, o sistema cognitivo de Doris novamente começou a se esvair.
Quando eu iniciava uma conversa sobre meu pai - seu irmão -, com quem ela sempre teve uma ligação especial e que falecera 15 anos antes, ela me olhava de forma vaga, indicando não saber de quem se tratava.

Foi então que me lembrei de uma anedota contada por ela e compartilhei: quando meu pai era recém-nascido, Doris o embalou nos braços enquanto a mãe se ocupava dos afazeres domésticos. "Ah, George, claro, meu irmãozinho", disse, com um sorriso de satisfação, revivendo uma lembrança de quase cem anos de idade.

Normalmente, levava um tempo para encontrar o estímulo correto, o portal para uma memória ofuscada pela idade e pela confusão. Mas, uma vez lá dentro, seus recursos mentais voltavam em plena forma.

Segue sendo um grande desafio para os cuidadores ajudar nossos idosos a experimentar uma vivência que, independentemente das restrições e dos limites ou de onde morem, tenha propósito e seja enriquecedora. Temos um vocabulário mais vasto para falar com nossos familiares idosos sobre sua saúde do que sobre seus sonhos.

E, mesmo assim, descobri que Doris prosperou quando foi capaz de fazer escolhas acerca de como passar seu tempo, manter o controle sobre sua história de vida e sentir que aqueles que a rodeavam respeitavam qualquer demonstração mínima de autonomia vinda dela.

No livro "Being Mortal", o dr. Atul Gawande nos lembra que ter um propósito é central para nossos anseios, e isso não cessa apenas por estarmos envelhecendo.

Cheguei à conclusão de que ter um propósito envolvia tornar dignos os desejos, os sentimentos, as memórias e até mesmo as aspirações de Doris. Na publicação científica "The Gerontologist", Melanie Mallers e seus colegas resumiram uma pesquisa apontando que "a falta de escolha e de autodeterminação pode levar a condições físicas ruins, baixo apoio social e depressão". A vontade de continuar pode enfraquecer quando o indivíduo se sente esvaziado do poder de tomar decisões sobre sua própria vida.

Uma das lições mais valiosas que aprendi é que a conquista é exequível mesmo para alguém de idade avançada. Uma história contada por Doris repetidas vezes nos últimos meses de vida me abriu os olhos para esse fato. Era sobre umas férias tiradas com a mãe nos anos 1950. A camareira do hotel entrou no quarto e parecia doente. Minha avó perguntou por que ela não tinha ficado em casa, ao que ela respondeu precisar do dinheiro. Após insistir que a camareira se deitasse em sua cama, minha avó limpou todos os quartos sob responsabilidade da funcionária.

A história era importante para Doris porque honrava a natureza altruísta da mãe. Mas também a atormentava, estimulando uma incerteza persistente sobre si mesma. Doris se achava incapaz de exercer a bondade como sua mãe.

Embora demonstrasse generosidade com tempo, conselhos e apoio financeiro, ela podia ser ríspida. Não tinha confiança nas maneiras mais gentis de abordar os demais, por meio do toque e de expressões amáveis. Por mais que a história ajudasse Doris a celebrar a memória da mãe, era um lembrete inquietante de que ela talvez tivesse falhado nesse quesito.

Então falamos sobre a generosidade, ao que ela se assemelha. Pode se apresentar de muitas formas, e a dela é tão valiosa quanto qualquer outra. No fim, ela foi graciosa de uma maneira que nunca pensei ser capaz. Ela falou da família como algo a ser celebrado e cultivado. Passou a ter a iniciativa de abraçar as pessoas em vez de permanecer dura quando abraçada.

Sua última palavra, ao passar da vida para a morte, uma transição de misericordiosa harmonia, foi "obrigada".

Amy e eu pensamos que Doris fosse passar pouquíssimo tempo morando conosco e a convidamos para ficar pensando em lhe dar algum conforto nos momentos finais. Mas acabou se transformando em uma experiência que nenhum de nós pôde antecipar, trazendo um novo significado para a vida dela, mesmo aos 106 anos.

Ela nos agradeceu por esse presente. Mas, ao aprender sobre a vida, o amor, o envelhecimento, o propósito e o poder da conexão, quem acabou ganhando o presente fomos todos nós.

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