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Osteoporose, demência, câncer: veja os riscos do uso abusivo do omeprazol

O uso abusivo ou desnecessário da medicação resulta em mais efeitos prejudiciais do que benéficos. - iStock
O uso abusivo ou desnecessário da medicação resulta em mais efeitos prejudiciais do que benéficos. Imagem: iStock

Wivian Maranhão

Colaboração para o UOL VivaBem

02/06/2019 04h00

Resumo da notícia

  • O remédio está na categoria dos protetores estomacais e é indicado no tratamento de refluxo, gastrite e úlcera.
  • Ele altera a acidez gástrica e pode interferir na absorção de vitaminas e minerais dos alimentos ingeridos.
  • Mais de um estudo científico já apontou a relação do consumo com o risco de câncer de estômago.

Difícil encontrar alguém que nunca tenha tomado omeprazol. Lançado no Brasil no começo dos anos 1990 com a indicação de diminuir a quantidade de ácido clorídrico produzido pelo estômago e tratar, entre outras patologias, gastrite, refluxo e úlceras, o fármaco logo ganhou a preferência da classe médica por aliar eficácia e menos efeitos colaterais em comparação com os medicamentos prescritos até então.

O que não se podia prever, no entanto, era que o remédio seria empregado com doses de exagero e irresponsabilidade. "A dieta predominante dos brasileiros, que privilegia alimentos processados, açúcar e álcool, combinada com hábitos como tabagismo e sedentarismo, tem provocado estragos na saúde da população", observa o gastrocirurgião Marcos Belotto, do Hospital Sírio Libanês.

A obesidade é apenas um reflexo desse cenário, e as estatísticas confirmam que cerca de 50% dos obesos têm refluxo e gastrite, o que dá a ideia de uma multidão como potencial consumidora do medicamento. "Em vez de adotar hábitos mais saudáveis a fim de se livrar dos problemas de saúde, uma parcela grande desses pacientes prefere recorrer a essa categoria de protetores estomacais - além do omeprazol, lansoprazol, pantoprazol, rabeprazol, esomeprazol e dexlansoprazol são drogas que conferem alívio imediato para os desconfortos", diz o médico.

Resultado: os riscos da automedicação (facilitada porque a compra do medicamento dispensa prescrição médica) não são poucos e devem ser considerados com seriedade. Acompanhe:

A absorção de vitaminas e minerais fica prejudicada

Como ponto de partida, é importante entender o papel do ácido clorídrico no estômago. Além de inibir a chegada de bactérias ao intestino, ele interfere diretamente na produção da vitamina B12, nutriente essencial para o equilíbrio de várias funções do corpo humano e do sistema nervoso.

A principal fonte da B12 são os alimentos de origem animal. Para absorvê-la, porém, o aparelho digestivo precisa contar com um ambiente minimamente ácido no estômago. O uso crônico ou desnecessário do omeprazol pode reduzir drasticamente essa acidez gástrica, deixando o organismo suscetível a diferentes patologias.

Segundo Schlioma Zaterka, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia, existem evidências de que o uso prolongado de omeprazol pode, ainda, levar à diminuição da taxa de magnésio no organismo. Ele ressalta que o FDA (entidade que tem papel semelhante à Anvisa nos Estados Unidos) inclusive exige que seja colocada um alerta na bula do medicamento para esse potencial efeito adverso. Problemas musculares como contraturas, formigamento e câimbras, além de gripes frequentes e até problemas no coração sinalizam carência de magnésio no indivíduo.

O sistema nervoso corre perigo

A vitamina B12 é necessária para o desenvolvimento das funções do sistema nervoso. Sem ela, uma espécie de capa protetora dos nervos sofre um intenso desgaste, o que resulta em danos para o cérebro no longo prazo.

A deficiência da vitamina B12, estimulada pelo uso do omeprazol, em alguns casos pode desencadear demência. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores de uma divisão do Oakland Medical Center, na Califórnia. Foram comparados 25.956 pacientes com deficiência de vitamina B12 com outros 184.199 indivíduos que apresentavam taxas normais do nutriente. Em ambos os grupos foram administrados protetores estomacais e o resultado apontou risco aumentado de deficiência de vitamina B12. Mais: doses maiores que um comprimido e meio ao dia foram mais fortemente associadas à deficiência do nutriente do que doses inferiores a ¾ de comprimido ao dia. Ainda na conclusão do estudo, os pesquisadores ressaltam que os riscos e benefícios do uso dessa medicação devem ser sempre considerados no momento da prescrição médica.

Há evidências de relação com câncer de estômago

Já a constatação de que o consumo regular do omeprazol está relacionado com o risco de câncer no estômago foi apontado numa pesquisa realizada em 2017 pela Universidade de Hong Kong juntamente com a University College London. O estudo mostrou que o uso semanal do protetor estomacal por um período de um ano aumenta 2,4 vezes o perigo de desenvolver a doença. Por sua vez, aqueles pacientes que fizeram o uso diário do fármaco apresentaram um aumento de 4,55 nas chances de ter câncer.

Esse não foi o primeiro estudo a relacionar o uso do omeprazol ao câncer de estômago. Em 2009, uma pesquisa baseada nos cuidados de saúde da população de North Jutland, no litoral da Dinamarca, foi publicada no British Journal of Cancer. Embora o resultado apontasse a associação entre o remédio e a doença, destacava também a necessidade de uma investigação mais aprofundada.

Anemia e osteoporose à vista

A vitamina B12 também é protagonista na produção de glóbulos vermelhos do sangue. Sua deficiência compromete a quantidade dessas células na circulação, desencadeando anemia. Cansaço, tontura, dor de cabeça, desmaios e falta de ar são os sintomas mais comuns da doença.

O uso contínuo do protetor estomacal altera o ph do estômago e leva à redução da capacidade de absorção de nutrientes. "O risco ocorre especialmente em pacientes com idade acima de 60 anos", completa o Marcos Belotto. Com isso, a retirada de cálcio dos alimentos fica prejudicada, o que cria um ambiente favorável para osteopenia e osteoporose.

Interação com outros medicamentos

O anticoagulante clopidogrel, muito utilizado por pacientes com problemas cardíacos, é um exemplo de droga que pode ter a ação alterada na presença de omeprazol. Esse é mais um caso em que o FDA exigiu que o efeito fosse descrito na bula do protetor estomacal. "Antifúngicos (cetoconazol) são menos absorvidos pelo organismo quando usados concomitantemente com o omeprazol. Já o medicamento digoxina, largamente indicado para quadros de insuficiência cardíaca, tem sua ação ampliada", aponta Zaterka.

O especialista, que coordenou o estudo do omeprazol em 1991, na ocasião da chegada do medicamento ao Brasil, destaca a eficácia do protetor estomacal, embora sinalize a existência de um inibidor de ácido mais potente e completo no mercado. Trata-se do vonoprazan, comercializado com sucesso desde 2015 no Japão. "Esse fármaco de última geração induz um efeito de supressão ácida para mais de 24 horas após a administração de 20 mg. Muito provavelmente, levará uns três anos para entrar no mercado nacional", finaliza.

A conclusão que se pode tirar mediante às reações adversas do omeprazol é: sem orientação, ele pode trazer mais efeitos prejudiciais do que benéficos. Porém, não há motivos para interromper o consumo, desde que seja feito com controle de um profissional da saúde.

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