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Ela tem gêmeos autistas: "Esperei 5 anos para um deles me chamar de mamãe"

"Demorou cinco anos para que o Guilherme me chamasse de mãe. Sonhei com esse momento e agora espero poder escutar o mesmo de Vinicius", diz Kelly Almeida - Arquivo pessoal
"Demorou cinco anos para que o Guilherme me chamasse de mãe. Sonhei com esse momento e agora espero poder escutar o mesmo de Vinicius", diz Kelly Almeida Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL VivaBem

17/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Após quase uma década tentando engravidar, a youtuber Kelly Almeida, 39, fez uma fertilização in vitro e teve os gêmeos Guilherme e Vinicius
  • Quase ao mesmo tempo, ela descobriu que Vinicius tinha autismo e que engravidou de forma natural do terceiro filho, o Rafael
  • Durante a gestação de Rafael, Kelly soube que Guilherme também era autista
  • A seguir, ela conta sua história e como Rafael ajuda na terapia dos gêmeos

"Assim que eu e o André nos casamos, comecei a tentar engravidar, mas não conseguia devido a alguns problemas de saúde: tinha endometriose, dois miomas, uma trompa era completamente obstruída, e a outra parcial. Foram oito anos de tentativas até que resolvemos fazer a fertilização in vitro e eu fiquei grávida de gêmeos.

Tive uma gestação de risco por causa do crescimento dos miomas no meu útero junto com os bebês. Ao longo da gravidez, o médico constatou que o Vinicius não estava crescendo e nem ganhando peso. Com 30 semanas, fiz um ultrassom, o bebê não se mexia e o coraçãozinho dele estava fraco. Precisei fazer um parto de emergência senão ele ia morrer. Os gêmeos nasceram prematuros de sete meses no dia 08 de novembro de 2013, e ficaram internados 42 dias.

Aos poucos, eles foram melhorando, mas, com um ano e meio, percebi alguns comportamentos esquisitos. O Guilherme ficava em pé, girando e olhando para a mão. Quando eu o chamava, ele não respondia. Ele era um bebê irritado e chorava bastante, aparentemente sem motivo. Tanto ele quanto o Vinicius tinham atraso motor: não conseguiam segurar uma fruta ou a mamadeira e não sabiam comer sozinhos. Além disso, não falavam nada, só balbuciavam. A diferença entre eles é que o Vinicius interagia um pouco melhor com as pessoas e respondia aos meus estímulos. Eu ficava angustiada de vê-los se comportando daquela maneira. Não conseguia estabelecer uma rotina em casa, dentro do normal para crianças da idade deles.

Familiares me responsabilizavam por atraso do meu filho

gemeos autistas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Fiquei abalada ao saber que os gêmeos eram autistas. Mas também fiquei decidida a viver em função dos meninos e proporcionar o melhor para eles", afirma Kelly
Imagem: Arquivo pessoal
Eu achava que meus filhos eram assim por terem nascido prematuros. Uma tia, que é cuidadora em uma escola, notou esses sinais do Guilherme e me mandou uma reportagem que explica o que é autismo. Não fazia ideia do que era esse transtorno. Na hora que li, fiquei em choque pois vi que as características batiam com as das crianças.

Inicialmente, desconfiei que o Guilherme poderia ter essa condição. Pesquisei sobre o assunto na internet e procurei ajuda médica. Ele começou a passar no neurologista e a fazer fonoaudiologia. Somente um ano e meio depois, quando estava com três anos de idade, uma psiquiatra deu o diagnóstico de autismo em grau moderado. Fiquei aliviada porque parte da minha família dizia que ele tinha esse atraso por eu não estimulá-lo o suficiente.

Com o diagnóstico, pude mostrar que não era culpada por Guilherme ser daquele jeito, além de justificar que tudo o que a pessoas achavam estranho no meu filho era por ele ser autista

Um tempo depois de receber essa notícia, fui surpreendida pela gravidez do Rafael. Nem imaginava que eu poderia engravidar de forma natural. Fiquei feliz, mas, durante a gestação dele, descobri que o Vinicius também era autista. Após levar o Gui para uma avaliação com o psicólogo e contar sobre o histórico dos meninos, ele me alertou que eu deveria prestar atenção no Vini porque certamente ele teria um retardo mental. Chorei demais.

Como mãe, eu sabia que tinha algo errado com ele, só não queria acreditar e aceitar que fosse autismo. Estava deixando para lá, mas depois dessa conversa, busquei auxílio. Ele começou a fazer tratamento multidisciplinar e foi diagnosticado com autismo e deficiência intelectual com 3 anos e 5 meses de idade.

Fui do luto à luta

Fiquei abalada em saber que meus gêmeos eram autistas. No início, era trabalhoso cuidar deles, pela preocupação por não falarem e não comerem direito. Fui do luto à luta. Receber esses diagnósticos foi como se tivesse perdido meus filhos. Todos aqueles planos que tinha sonhado e idealizado para eles morreram. Mas, com o diagnóstico e a nova realidade, tinha ganhado outras duas crianças.

Estava decidida a viver em função dos meninos e a proporcionar o melhor para eles terem autonomia

Passados alguns meses, o Rafael nasceu, no dia 07 de maio de 2017. Escolhi esse nome por que significa 'Deus traz a cura'. Creio que ele veio com a missão de me ajudar a cuidar dos meus dois anjinhos azuis, como os autistas são carinhosamente chamados.

O Rafa é a melhor terapia para os gêmeos porque ele os estimula, não deixa os meninos parados no mundinho fechado deles. Ele coloca o Gui e o Vini para correr, brincar, interagir, os abraça e os beija. Os dois se desenvolveram bastante com o nascimento do irmão.

Hoje, com cinco anos, os gêmeos frequentam uma escola regular e fazem fono, terapia ocupacional, integração sensorial e acompanhamento com a pedagoga.

É gratificante ver o desenvolvimento deles, cada progresso é um milagre

O Vinicius não usa mais fralda e já entende e atende alguns comandos, como pegar a bola, a chupeta. Ele aponta quando quer alguma coisa ou indica quando está com fome. Já o Gui apresentou evolução na fala, consegue juntar duas palavras. Ele está mais calmo e tranquilo.

Ao criar dois filhos autistas, eu me tornei uma pessoa mais paciente e empática. Tenho crescido como ser humano e aprendido a valorizar a simplicidade da vida. Demorou cinco anos até um deles, o Guilherme, me chamar de mamãe pela primeira vez, durante um passeio no shopping. Eu sentia necessidade de ouvir isso, sonhei com esse momento. Agora estou na expectativa de escutar o Vinicius.

Não gosto do autismo por ser uma condição que traz limitações aos meus filhos, mas com passinho de formiga, amor e paciência, tenho fé de que ainda vamos alcançar muitos frutos. Amo e aceito meus gêmeos do jeitinho que eles são".

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