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"Chorava do nada e não queria viver"; Aline venceu a depressão com um blog

Escrever sobre viagens, filmes e moda ajudou Aline a combater a tristeza - Arquivo pessoal
Escrever sobre viagens, filmes e moda ajudou Aline a combater a tristeza Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Paludeti

Do VivaBem, em São Paulo

29/04/2018 04h00

Quem assiste aos vídeos divertidos e bem-humorados de Aline Rezener, 32, no Instagram e no Youtube, nem imagina os momentos difíceis pelos quais ela passou. Aos 17 anos, a designer do Rio de Janeiro começou a sentir uma tristeza sem explicação, situação que surgiu junto com diversos problemas familiares. Tempos depois, veio o temido diagnóstico: depressão.

“Não sei se depressão é algo que você herda, mas minha mãe tem desde que me entendo por gente. Então, sempre convivi com essa doença”, explica Aline. “Você tem tudo para estar feliz e não consegue. Chora do nada, não quer falar com ninguém, não quer viver.

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Com a depressão veio também o diagnóstico de hipotireoidismo e 30 kg a mais na balança. Estar acima do peso dificultou ainda mais todos os desafios com os quais a moça tinha de lidar. “O fato de ter engordado sempre foi um problemão. Chegava em rodas de conversa na família e o papo se voltava a exercícios e dietas. Já não tinha mais vontade de estar nem com meus parentes.”

O prazer em escrever sobre o que gosta

Aline então começou a frequentar o psiquiatra e fazer terapia. Também passou a tomar medicamentos, que utiliza até hoje. Em certa oportunidade, a psiquiatra sugeriu que a designer escrevesse sobre assuntos que gostava para manter a cabeça com foco em outro lugar. E assim ela fez: criou um blog despretensioso, em que publicava textos sobre temas variados, como viagens, filmes, séries e moda.

A página foi batizada de Malucas e Piradas. A ideia do nome surgiu porque Aline diz que, quando as mulheres saem do ambiente profissional e familiar, em que são dedicadas e amorosas, e se encontram com as amigas para momentos de descontração, ficam meio “malucas e piradas” todas juntas.

O blog me fez ficar mais leve”, conta. Aos poucos, a página foi sendo vista, as redes sociais sendo curtidas e Aline começou a receber feedbacks positivos dos leitores, o que a ajudou no combate à doença.

Reencontro com a alegria na Terra da Magia 

Depois de uma viagem feliz a Orlando, Aline e o marido Hélio decidiram mudar para os EUA - Arquivo pessoal
Depois de uma viagem feliz a Orlando, Aline e o marido Hélio decidiram mudar para os EUA
Imagem: Arquivo pessoal
Em 2012, Aline e o marido, Hélio, fizeram a primeira viagem aos Estados Unidos, com destino à cidade de Orlando, toda devidamente documentada em um canal no Youtube. “Voltei encantada, e aquele brilho que tinha perdido, finalmente estava voltando”, diz.

A essa altura, Aline era coordenadora do setor de webdesign em uma agência de publicidade no Rio. “Estava vivendo no limite. Muitos dias eu ia chorando da Barra até a zona norte com meu marido no carro, que já não sabia mais como me ajudar”, relata.

Em 2014, o casal resolveu estudar inglês em Orlando e focou o blog e as redes sociais no turismo, principalmente nos EUA, dando dicas de onde ficar, comer e comprar sem gastar muito. O Malucas e Piradas foi crescendo e hoje já visitou cidades de nove estados americanos, e quer expandir ainda mais, chegando até a outros países.

Blog: a verdadeira terapia

Atualmente, Aline já acumula mais de 100 mil inscritos no Youtube, 60 mil no Facebook e mais de 66 mil seguidores no Instagram.

O blog foi a minha verdadeira terapia, ficava muito focada em escrever sobre o que queria e mergulhava de cabeça. Depois de postar, as pessoas conversavam comigo sobre o assunto, então estava interagindo e socializando muito. Mesmo com a depressão controlada, isso ainda é muito importante para mim”, explica Aline. “O canal foi um divisor de águas na minha vida. Até hoje eu tomo o antidepressivo, até porque depressão é uma coisa química, não vou parar nunca”.

Apesar de a vida ter melhorado nos Estados Unidos, Aline revela que estar no “lugar mais feliz do mundo”, terra dos parques da Disney em que tudo é mágico, nem sempre é tão alegre assim. Acostumado a ter muitos amigos no Brasil, o casal --junto há 15 anos -- se vê muito sozinho na Flórida e, por isso, se apoia mutuamente, sempre junto da fiel escudeira de quatro patas, Melinda. “O Hélio foi fundamental, me deu apoio nos piores momentos da minha doença. Ele é essencial no processo de enfrentamento da depressão”, explica.

“Faça por você”

Mesmo feliz, Aline ainda toma remédios e sabe que terá de lutar contra a depressão para sempre  - Arquivo pessoal
Mesmo feliz, Aline ainda toma remédios e sabe que terá de lutar contra a depressão para sempre
Imagem: Arquivo pessoal
Aline enfrenta a depressão há mais de 15 anos e, é claro, tem muitos altos e baixos. “Não penso mais em besteiras. Tenho tanta tarefa no Malucas e Piradas que não dá tempo de imaginar coisa errada, apenas de ter orgulho do canal que criei e de como ele me ajudou.”

Quando instada a dar um conselho para quem está na fase mais sombria da depressão, ela hesita: “Conselho para alguém com depressão é muito difícil. Se a mudança não partir da pessoa, não adianta”.

“Mas, o que ajudou para mim pode ajudar muita gente: encontre alguma coisa que faz bem a você e foque nisso. Invista seu tempo no que te faz feliz. Seja sair, seja caminhar e tomar um sorvete, seja assistir a um filme. Qualquer coisa que ocupe a sua cabeça."

Aline acha que incluir na rotina coisas que gosta é uma terapia. "Se fizer com mais constância, você perceberá que vai se sentir bem durante mais tempo. Ou, conseguirá ficar bem realizando também coisas da sua rotina, que não gosta tanto.”

O hobby é uma forma de motivar o prazer, estimulando a produção de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, responsáveis pela sensação de bem-estar e melhor do humor.

“Não há estudos científicos específicos que demonstram se um hobby evita ou não a depressão, ou permite que a pessoa tenha menos recaídas. De todo modo, essas atividades acabam sempre contribuindo um pouco, porque você tem uma diversificação daquilo que faz”, explica o professor Mário Louzã, psiquiatra e membro do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Tudo aquilo que a gente faz e que de alguma forma implica em estar ativo, seja fisicamente, seja intelectualmente, pode ajudar a diminuir o impacto da depressão”, completa o médico.

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