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200 tumores e um AVC não foram suficientes para brecar Verônica Hipólito

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Thamires Andrade

Do VivaBem, em São Paulo

03/04/2018 04h00

Quem vê Verônica Hipólito, velocista brasileira que ganhou duas medalhas nos Jogos Paraolímpicos do Rio, participando de um treino funcional em pleno parque do Ibirapuera (SP) não imagina que ela superou mais de 200 tumores e dá uma aula de resiliência.

Na hora de relembrar tudo que enfrentou até se tornar uma das melhores corredoras do mundo em provas de 100 m, 200 m e 400 m rasos, a atleta não se esquece de mencionar e agradecer os pais, que nunca deixaram que ela esmorecesse.

Desde que se entende por gente a prática esportiva esteve presente na sua vida e, de novo, pela influência dos pais. "Brinco que nasci fazendo esporte. Meus pais sempre acreditaram na prática esportiva como uma ferramenta de inclusão social", conta a atleta, que chegou a treinar natação, ginástica olímpica e rítmica e até tênis de mesa.

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Aos 10 anos, Verônica se apaixonou pelo judô. Mas aos 13 ela foi obrigada a deixar a luta de lado. Durante um exame de rotina, descobriu um tumor no cérebro que precisava ser removido com urgência. "Foi tudo muito rápido. Mas me mantive muito positiva. Só pensava quando voltaria aos treinos de judô", relembra.

O choque veio quando recebeu do médico a notícia de que nunca mais poderia praticar esportes de contato. "Achei que era brincadeira. Mas ele explicou que eu estava proibida de sofrer impacto do quadril para cima. Fiquei arrasada".

Sem vontade de praticar qualquer outra atividade liberada pelo médico, Verônica contou muito com a ajuda da família para não desistir dos treinos. Corredor amador, o pai a chamou para participar de uma prova. “Perguntei o horário e ele disse 8 h da manhã. Respondi que não iria de jeito nenhum. Fui contra minha vontade, mas assim que comecei a correr vi que era isso que queria fazer”, fala.

Os primeiros passos

Verônica lembra que não tinha muito talento para correr, porém, se esforçava bastante. Ela teve dificuldade para conseguir entrar em uma equipe, mas o problema nem era seu desempenho, e sim o fato de ter feito a cirurgia na cabeça. “Os técnicos ficavam com medo. E quando consegui entrar no grupo de alto rendimento, tive um AVC, que paralisou todo o lado direito do meu corpo.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
A recuperação da atleta não foi de uma hora para a outra. Ela ficou uma semana de cama e um bom tempo sem andar. “Não queria muleta, nem andador. Ia me escorando nas pessoas e nos objetos”, conta.

Ela fez fono, fisioterapia e se dedicou bastante para recuperar os movimentos. “Repetia todos os exercícios em casa várias vezes. No começo, tropeçava no meu próprio pé. Mas sempre acreditei e me esforcei muito para realizar minhas atividades sozinhas. Hoje, ninguém diz que sofri um AVC, mas fiquei com sequelas. Ainda preciso fazer fisio e fono. Todo dia eu me esforço”, diz.

Sempre tive pensamento positivo. Pensava que ia passar tudo e quem não botava fé ia ver. Tive mais uma oportunidade de mostrar o quanto sou capaz

O esporte paraolímpico

Ansiosa para retornar às pistas, Verônica decidiu que usaria o atletismo na reabilitação, e voltou a treinar na equipe de alto rendimento. “Fui progredindo porque meu treinador não tinha pena de mim e não me tratava como frágil ou coitada. Mas, apesar de todo o progresso, não conseguia fazer alguns movimentos. Não mexia os braços do jeito certo, cansava rápido e sofria muitas lesões”, conta.

Foi quando o treinador de Verônica explicou que ela estava treinando no lugar errado, pois era uma atleta paraolímpica. A partir daí ela fez uma série de exames que comprovavam que certos músculos não reagiam como deveriam. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Passei a entender o que eu tinha e comecei a ver que havia várias pessoas iguais a mim. Por isso a importância do movimento paraolímpico estar cada vez mais forte”

"Garota prodígio"

Na competição de estreia, Verônica conquistou o primeiro lugar. Na segunda, bateu o recorde das Américas. Na terceira, conseguiu índice para o Mundial. “Me olhavam como uma promessa. Ninguém lembrava de tudo que aconteceu comigo. Na minha quarta prova, cheguei à final e virei campeã mundial. E ainda bati o recorde!”, relembra.

Verônica tinha apenas 17 quando se tornou a melhor do mundo nos 200 m, categoria T38, e começou a ser chamada de "Garota prodígio".No ano seguinte, ela descobriu que o tumor na cabeça voltou, mas poderia ser controlado com remédio e seguiu treinando firme. Em 2014, ganhou todas as competições que participou, mas, em 2015, viu seu desempenho diminuir. Tive anemia profunda e os médicos começaram a investigar o que estava acontecendo. Descobriram mais de 200 tumores no intestino grosso”

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
A atleta precisou ser submetida a uma cirurgia que retirou mais de 90% do intestino grosso logo depois do Parapan de Toronto, em 2015, onde conquistou três ouros e uma prata.

“A recuperação foi bem dolorida. Minha barriga afundou. Só tenho 5 cm de intestino grosso e, por isso, precisei mudar alguns hábitos alimentares. Depois da cirurgia, não podia ter alimentação de atleta. Mas falei ao médico que continuaria treinando. Foi um processo dolorido até me adaptar completamente. Comia de tudo, mas ia parar no hospital: inchada e com dor. Foram três meses assim. Mas estava disposta a fazer tudo ao meu alcance para voltar a correr”, relembra.

Verônica voltou a treinar ainda debilitada e depois de cinco meses garantiu sua vaga na Paraolimpíada do Rio de Janeiro, onde conquistou a medalha de prata nos 100 m e a de bronze nos 200 m. No entanto, as surpresas após a competição não foram boas. “Meu tumor na cabeça cresceu. Precisei operar e a recuperação foi ainda mais difícil. Minha cabeça doía muito. Tiveram que quebrar o nariz para retirar o tumor. Ainda corri o risco de ficar sem enxergar”, conta.

Quando foi liberada para treinar, ela só tinha duas semanas para conseguir o índice para o Mundial de Atletismo de Londres 2017. Apesar de não ter garantido a vaga, se orgulha de ter dado seu melhor na prova.

Uma das bandeiras de Verônica é mostrar a todos que a paraolimpíada não é caridade e que os atletas do movimento servem como inspiração para quem tem ou não deficiência. Todos se dedicam, mas não queremos mostrar apenas superação. Qualquer um, à sua medida, se supera diariamente. A ideia é inspirar as pessoas e a inclusão deve ser feita assim. O Brasil tem mais de 24 milhões de deficientes e a maioria dos que conheço estão no esporte. Onde está o resto?”

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