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Asiáticos parecem menos vulneráveis à covid, mas a ciência não sabe por que

3.jun.2020 - Estudantes usam máscara para se proteger do coronavírus enquanto caminham pela estação Kamata em Tóquio, no Japão - James Matsumoto/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
3.jun.2020 - Estudantes usam máscara para se proteger do coronavírus enquanto caminham pela estação Kamata em Tóquio, no Japão Imagem: James Matsumoto/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Martin Fritz (de Tóquio)

11/06/2020 15h18Atualizada em 11/06/2020 15h20

"Mindo" — uma palavra em japonês que pode ser traduzida como "nível superior cultural". É assim que o ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, um nacionalista convicto de 79 anos, responde à questão de por que o país tem relativamente poucas vítimas de covid-19.

A estação de TV TBS, por sua vez, especula que a língua japonesa é menos propensa à geração de gotículas de saliva, potenciais transmissoras do vírus, por ter menos das chamadas consoantes plosivas, pronunciadas pela expiração do ar.

Muitos japoneses também estão convencidos de que sua boa alimentação os mantém mais protegidos contra o coronavírus.

Todas essas teorias não explicam por que as taxas de infecção e morte são relativamente baixas não apenas no Japão, mas em toda a Ásia.

A China relatou três mortes por milhão de habitantes, e o Japão sete. O Paquistão registrou seis, e Coreia do Sul e Indonésia, cinco. Taiwan, Vietnã, Camboja e Mongólia não têm registro de mortes. Como comparação: a Alemanha registrou 100 mortes por milhão de habitantes, os EUA quase 300, e Reino Unido, Itália e Espanha mais de 500.

Os diferentes números de teste e métodos de contagem por si só não fornecem justificativa suficiente para esta grande lacuna. Por exemplo, a Coreia do Sul testou seus cidadãos em massa em estacionamentos, enquanto o Japão por muito tempo só testava pacientes com quatro dias de febre e pessoas que tiveram contato com infectados.

Outros costumes em muitos países asiáticos, como cumprimentar e dizer adeus sem apertar a mão, também não podem ser tratados como fator decisivo no caso de um vírus transmitido pelo ar. A ciência agora se concentra em outras diferenças entre Ocidente e Oriente, a fim de melhor conter o vírus globalmente.

Mais infeccioso por mutação

Por exemplo, pesquisadores do Instituto Japonês de Doenças Infecciosas descobriram que o vírus Sars-CoV-2 sofreu modificações genéticas em sua distribuição regional. As primeiras infecções no Japão e no cruzeiro marítimo "Diamond Princess" no porto de Yokohama foram claramente derivadas do coronavírus de Wuhan, na China.

Mas a segunda onda de infecção no Japão, a partir de abril, foi devido a um vírus que entrou no país com viajantes vindos da Europa. Uma pesquisa da Universidade de Cambridge confirmou este resultado. Uma equipe de pesquisa americana do Laboratório Nacional de Los Alamos estuda a possibilidade de que uma mutação poderia ter tornado o vírus mais contagioso na Europa e na América.

Em meio à discussão, o professor Tatsuhiko Kodama, médico da renomada Universidade de Tóquio, chamou a atenção para os estudos do Instituto La Jolla de Imunologia da Universidade da Califórnia. De acordo com esses estudos, muitas pessoas na Ásia Oriental aparentemente possuem anticorpos eficazes contra o novo coronavírus. Segundo o especialista, muitos vírus influenza e corona do passado tiveram origem no sul da China e causavam resfriados virais nos países vizinhos.

"Portanto, seu sangue contém glóbulos brancos que podem combater vírus relacionados, como o Sars-CoV-2", afirma Kodama. A resposta imunológica não é perfeita, comenta ele, mas o corpo dessas pessoas pode lidar com uma certa quantidade de um tipo similar de vírus.

Tasuku Honjo, prêmio Nobel de Medicina, pensa de forma semelhante. As pessoas na Ásia, afirma ele, são muito diferentes das ocidentais no que se refere a genes que controlam a resposta do sistema imunológico a um vírus.

Isso não quer dizer, alerta o médico Kodama, que o povo da Ásia Oriental está seguro. Um vírus mutante pode ser tão mortal para a população do Extremo Oriente quanto da Europa.

O fator obesidade

Outra explicação popular no Japão para as diferenças entre Oriente e Ocidente é menos convincente. Diz que as pessoas do leste asiático estão mais bem protegidas contra a tuberculose por causa da vacinação compulsória, que geralmente fortalece o sistema imunológico contra vírus em geral, enquanto a chamada vacina BCG é apenas voluntária em muitos nos países ocidentais.

Mas desbanca essa tese o fato de as taxas de vacinação BCG na França serem tão altas quanto no Japão, enquanto as taxas de mortalidade francesas para o covid-19 serem muito mais altas.

A afirmação do ministro das Finanças nacionalista japonês de que o Japão é "culturalmente superior" ao Ocidente se refere provavelmente não só ao uso voluntário generalizado de máscaras, mas também ao nível geralmente mais elevado de saúde pública.

Apenas 4% dos japoneses e 5% dos sul-coreanos são obesos. De acordo com dados da OMS, esta taxa é superior a 20% na Europa Ocidental e mais de 36% nos EUA. Mas não há evidências científicas até o momento para uma correlação direta entre a taxa de mortalidade por Sars-CoV-2 e a alta obesidade.