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Covid-19: vacinas podem curar a covid longa? Estudos apontam que, para alguns, sim

Levantamento feito no Reino Unido sobre impacto da vacinação nos efeitos da covid longa mostrou que 57% dos participantes apresentaram uma melhora geral dos sintomas após serem imunizados - Getty Images
Levantamento feito no Reino Unido sobre impacto da vacinação nos efeitos da covid longa mostrou que 57% dos participantes apresentaram uma melhora geral dos sintomas após serem imunizados Imagem: Getty Images

Cristiane Martins - De Londres para a BBC News Brasil

08/06/2021 09h21

Levantamento feito no Reino Unido sobre impacto da vacinação nos efeitos da covid longa mostrou que 57% dos participantes apresentaram uma melhora geral dos sintomas após serem imunizados. Mas cientistas ainda tentam entender quais são os mecanismos e os efeitos concretos das vacinas em pacientes com covid longa.

Um mês depois de contrair covid-19, a trabalhadora autônoma Mara Gogolla, 49, passou a sentir dores que começavam e acabavam em uma parte do corpo e surgiam em outra, vista embaçada, sudorese noturna, vertigem, falta de ar e uma fadiga que a impedia até de subir escadas.

"E após sete meses com muitas dores e diversos sintomas, porque a cada dia aparecia um novo, acordei sem dor alguma. Antes quando eu caminhava um quarteirão, eu parava, sem brincadeira, mais de cinco vezes para tomar fôlego. Agora eu não paro mais. Também não tenho mais falta de ar", conta à BBC News Brasil.

Mas como tudo mudou de uma hora para outra? A explicação mais provável até agora, que ainda precisa ser comprovada, é o impacto da primeira dose da vacina AstraZeneca-Oxford que ela tomou uma semana antes de os sintomas associados à covid-19 longa desaparecerem.

Por um lado, diversos cientistas ainda tentam entender quais são os sintomas da covid longa, que grupos sociais são mais atingidos e os mecanismos por trás dessa condição. De outro, pesquisadores se debruçam sobre possíveis tratamentos ou mesmo a cura.

E é aí que a vacina entra na história.

Um levantamento feito sobre o impacto da vacinação nos efeitos da covid longa mostrou que 57% dos participantes apresentaram uma melhora geral dos sintomas após serem imunizados. Esse estudo, que não foi revisado por outros cientistas, é o mais amplo até agora sobre o assunto. Ele foi liderado pelo grupo de apoio britânico LongCovidSOS e contou com a colaboração das universidades de Exeter e Kent, no Reino Unido.

O governo britânico estimou em março de 2021 que 1,1 milhão de pessoas enfrentaram pelo menos 1 dos mais de 50 efeitos persistentes da covid-19 no país, onde hoje 59% dos 67 milhões de habitantes receberam pelo menos uma dose da vacina.

Ainda não está claro se a melhora de vacinados que tinham covid longa ocorreu diretamente por causa da vacina, pela progressão natural da doença ou por fatores psicológicos, por exemplo. E para além de levantamentos coletivos e relatos individuais, cientistas tentam descobrir as verdadeiras explicações por trás disso.

É o caso da imunologista Akiko Iwasaki, da Universidade Medicina de Yale (Estados Unidos), que vem se dedicando a estudos sobre o impacto do sistema imunológico em relação à covid-19 e atualmente, na mais recente linha de pesquisa de seu grupo, investiga o efeito das vacinas em pacientes com a covid longa ou a síndrome pós-covid, que até pouco tempo era vista por autoridades, cientistas, pacientes e seus familiares como uma "doença psicossomática", ou seja, problemas de saúde oriundos de questões psicológicas, emocionais.

Ela e outros cientistas estudam pelo menos três possíveis explicações. "Nossa (principal) hipótese é de que a covid longa é causada por uma infecção viral persistente e/ou doença autoimune", diz Iwasaki à BBC News Brasil.

Ou seja, a primeira hipótese aponta que haveria um reservatório de coronavírus em algum lugar do corpo que continua afetando o paciente sem ser detectado por exames.

Na segunda, o combate ao coronavírus desencadeou um mecanismo autoimune no qual o sistema de defesa ataca o próprio corpo.

A terceira fala em fragmentos do coronavírus continuariam no corpo como "fantasmas virais" que estimulam o sistema imunológico e provocam inflamação constante.

Para os cientistas, provavelmente não haverá uma explicação ou solução única para todos os atingidos por um problema de saúde tão complexo.

Entenda abaixo quem são os mais atingidos pela covid longa, como as vacinas podem funcionar como tratamento para algumas delas e o que tem sido feito para diagnosticar e reabilitar pacientes em países como Brasil.

A dimensão da covid longa e de possíveis tratamentos

Há diversos obstáculos para estudar o tema da covid longa. Um dos principais deles é a dificuldade de diagnóstico. Como o acesso aos testes demorou ou nunca foi democratizado em diversos países, a exemplo do Brasil, muitas pessoas que podem ter sido infectadas não tiveram o diagnóstico confirmado da covid-19. Então, como medir o tamanho do problema?

Além disso, o fato de a covid longa ser uma condição com efeitos e durações diferentes de uma pessoa para outra, o eventual tratamento acaba sendo variado. Uma característica marcante dessa condição de saúde é a troca de informações e experiências entre pacientes de forma dispersa ou em grupos de apoio, por exemplo. Ainda se tenta entender o que está acontecendo.

Na pesquisa do grupo britânico LongCovidSOS, os dez sintomas mais comuns da covid longa são fadiga, confusão mental, falta de ar, dores musculares, dor no peito, insônia, sintomas gastrointestinais, tosse persistente, perda de olfato e lesões na pele.

Com essa quantidade de sintomas diferentes, que tipo de especialidade médica deveria se buscar? Para alguns pesquisadores ou especialistas, um dos caminhos pode ser a abordagem multidisciplinar. Ao se deparar com um paciente com tantos sinais, um médico clínico geral, por exemplo, pode encaminhar uma abordagem que associa um neurologista, um pneumologista e um gastroenterologista enquanto um fisioterapeuta atua na reabilitação motora e respiratória. E isso é só um dos exemplos.

Um estudo publicado na revista científica Nature em abril deste ano apontou a covid longa como o próximo grande fardo do sistema de saúde dos EUA. Na Hungria, uma universidade abriu um ambulatório pioneiro voltado a acompanhar e tratar crianças com covid longa.

No Brasil, o Ministério da Saúde lançou o projeto piloto chamado "Reabilitação pós-Covid-19", que levou a um aumento de 26% na evolução motora e funcional de pacientes com síndrome pós-covid. Ao longo de dois meses, há participação de médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, enfermeiros, fonoaudiólogos, assistentes sociais e especialistas em gestão hospitalar. Há um número crescente de ambulatórios voltados à covid-19 no país.

Só que a ampliação dos programas de vacinação ao redor do mundo e o compartilhamento de experiências pessoais acabaram apontando um outro caminho relativamente mais "simples" para a recuperação de parte dessas pessoas com covid longa: as vacinas.

O que pode explicar os casos de melhora pós-vacina?

Quando o corpo humano é infectado por vírus e bactérias, na maioria das vezes ele utiliza recursos da resposta imunológica inata para tentar eliminá-lo. Após vencer o invasor nessa batalha, o passo seguinte é se reequilibrar. O problema é que, no caso da covid-19, por exemplo, o processo não segue esse roteiro para algumas pessoas.

O estudo em andamento sob liderança de Akiko Iwasaki, da Universidade Yale, considera três hipóteses.

1. Reservatório viral

A princípio, uma das explicações para a covid longa é a que pode haver um reservatório de coronavírus em algum lugar do corpo (a princípio em uma área do nariz que não é alcançada pelos cotonetes dos exames) que continua afetando o paciente. Os efeitos positivos da vacina podem confirmar essa hipótese porque a imunização induzirá respostas do sistema de defesa do corpo contra o coronavírus que continua se replicando.

2. "Fantasma viral"

Uma segunda explicação é a presença de fragmentos do coronavírus (RNA e proteínas) que permanecem no corpo mesmo depois da infecção. Esses pedaços agiriam como "fantasmas virais" que não são infecciosos, mas continuam estimulando o sistema imunológico e provocando uma inflamação constante. Cientistas tentam entender também se há fatores genéticos que favorecem essa situação e têm coletado amostras de DNA de pacientes para tentar esclarecer essas dúvidas.

3. Resposta autoimune induzida pela infecção

Uma terceira explicação é a autoimunidade. Ou seja, o sistema imunológico, responsável pela defesa do corpo, não consegue distinguir invasores como vírus e bactérias das células saudáveis do próprio corpo. Assim, acaba gerando autoanticorpos que atacam e destroem o tecido saudável e causam inflamação e dor, danificando praticamente qualquer parte do corpo, segundo o Ministério da Saúde. Nesse caso, o tratamento passaria por impedir que células autorreativas fiquem ativas, tanto durante a infecção quanto na fase de covid longa.

"Nossa hipótese é de que a covid longa é causada por uma infecção viral persistente e/ou doença autoimune. Nesses casos, as vacinas podem melhorar a condição de alguns pacientes com covid persistente ao induzir respostas robustas de anticorpos para eliminar o reservatório viral, ou desativar células autorreativas, pelo menos por algum período de tempo.", explica Iwasaki.

Segundo ela, "se alguém tem covid longa de característica autoimune, a vacina pode ajudar a induzir as citocinas que atenuam os efeitos tóxicos de células autorreativas. Por exemplo, interferons do tipo 1 podem agir sobre as células T autorreativas para encerrar a produção de citocinas tóxicas".

Os interferons de tipo 1 são glicoproteínas produzidas numa célula invadida por um vírus, por exemplo. Essas substâncias são liberadas para fora da célula como um chamado para outras células de que um combate deve ter início contra o invasor. Mas às vezes o próprio corpo pode agir contra eles, como os autoanticorpos, que se ligam aos interferons e os "retiram" da corrente sanguínea antes que possam alertar o resto do corpo sobre a invasão.

Por outro lado, as citocinas ganharam notoriedade durante a pandemia de coronavírus por causa da "tempestade de citocinas", nome dado a essas substâncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que num quadro de reação exagerada pode acabar atacando partes vitais do corpo e levando à morte. Ou seja, o sistema de defesa do corpo acaba sendo mais danoso que o próprio invasor.

Para entender o papel de todas essas substâncias no contexto de covid longa e vacinação, a equipe liderada por Iwasaki vai coletar amostras de sangue e saliva antes e depois da vacinação de pessoas com mais de 18 anos, que ainda não foram vacinadas e que apresentam sintomas persistentes da covid-19 há mais de dois meses. Os pesquisadores vão monitorar perfis imunológicos (anticorpos, citocinas, fenótipos, células T) e vão comparar alterações imunológicas e de sintomas. Eles esperam que essas análises tragam respostas para o que causa a covid longa e quais tratamentos são eficazes para a condição. Ainda não há previsão para a publicação dos resultados.

Quais os resultados obtidos até agora com vacinas contra covid longa?

O amplo levantamento da LongCovidSOS envolveu quase 900 pessoas. Há diversas limitações do ponto de vista metodológico, porque os dados foram colhidos de pacientes que informaram as condições que enfrentavam e o que passaram a sentir (ou não) depois de tomarem uma ou duas doses de vacina contra covid.

A ampla maioria dos relatos é de mulheres (mais de 80%), brancas (91%) e com idades de 31 a 65 anos. Isso não significa necessariamente que esse grupo seja o mais atingido por essa condição, mas sim o que teve mais acesso à pesquisa, ao diagnóstico ou a informações sobre o tema, por exemplo. O levantamento também aborda vacinas de diferentes fabricantes, e as mesmas limitações metodológicas impedem conclusões sobre um imunizante ser eventualmente "mais eficiente" que outro.

Mais de 70% dos participantes da pesquisa vivenciavam antes do estudo sintomas persistentes por pelo menos nove meses. De início, parte delas ficou insegura em ser vacinada porque há estímulo à resposta imunológica, e elas temiam que a condição piorasse ou desencadeasse mais sequelas. Segundo o levantamento, 7% dos participantes relataram piora dos sintomas e 57% disseram ter melhorado de maneira geral.

Segundo o levantamento, houve melhora nos registros dos dez principais sintomas nos três graus (leves, moderados e severos).

Outros dois estudos com pacientes que foram hospitalizados com coronavírus no Reino Unido, um dos países com mais pesquisa em torno da covid longa, também apontaram melhora de uma parte das pessoas que foram vacinadas. Pesquisadores de ambos os estudos defendem análises aprofundadas sobre o real impacto da vacinação.

A professora Jucilene Alves de Morais, de 47 anos, moradora de São Geraldo do Araguaia, no Pará, não participou desse estudo no Reino Unido, mas relatou algo parecido à BBC News Brasil, uma melhora depois de receber a primeira dose da vacina contra covid. Por um ano, ela enfrentou efeitos associados à covid-19 longa, com mal estar, fraqueza e cansaço que iam e viam como se ela estivesse enfrentando uma gripe atrás da outra.

"Essas coisas que sentia no pós-covid acabaram. Meus filhos também ficaram muito felizes do quanto melhorei após tomar a 1° dose. Agora estou ansiosa para a próxima dose." No levantamento do LongCovidSOS, apenas 130 dos quase 900 participantes tinham recebido a segunda dose de uma das vacinas (AstraZeneca-Oxford, Moderna ou Pfizer). Não havia, portanto, quantidade suficiente para permitir grandes conclusões, mas em linhas gerais aqueles que receberam as doses relataram uma melhora ainda maior.

Como relata Morais, a covid longa impacta também quem convive com aqueles atingidos pela condição de saúde.

Uma pesquisa feita pelas Universidade de Cardiff e Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, e publicada na revista científica British Medical Journal, envolveu 735 parceiros e familiares desses pacientes. Segundo ela, 93,6% deles afirmaram se sentir preocupados, 81,7% se sentiam frustrados, 78,4% julgavam-se tristes, 83,3% tiveram as atividades familiares impactadas, 68,9% constataram impacto no sono e 68,1%, na vida sexual.

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