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Turbine seu cérebro

Dicas para usar melhor a sua mente


Turbine seu cérebro

Como inspirar seu cérebro para ter mais momentos Aha! no seu dia a dia

Denis Freitas/VivaBem
Imagem: Denis Freitas/VivaBem

Cristina Almeida

Colaboração para o VivaBem

21/10/2019 04h00

Ser criativo é uma tendência para gerar ou reconhecer ideias, alternativas ou possibilidades que podem ser úteis para solucionar problemas e comunicar-se. Considerada uma função mental complexa, a criatividade depende de um pensamento elaborado, e se relaciona a fatores endógenos e exógenos, entre eles, a genética, o ambiente, a educação, além de traços da personalidade, emoções etc.

Mas não pense que esta é uma habilidade restrita aos gênios. Todos possuem um aparato neurocognitivo que lhes permite ter inspirações e novas ideias. Basta que estejamos inseridos em um determinado ambiente para que uma "mecânica" sensorial que captura os sinais desse contexto possa funcionar. O cérebro, então, processa e armazena informações por meio de uma ampla rede de conexões entre suas diversas áreas, que será mais ou menos ativada, a depender do tipo de estímulo ao qual nos expomos.

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    O que a ciência já sabe

    O que a ciência sabe até hoje é que ao menos três redes neurais estão associadas ao processo de gerar novas ideias: Rede de controle executivo – é aquela que controla nossos pensamentos, emoções e comportamentos, regula os impulsos, analisa, planeja, julga, toma decisões, pondera ganhos e perdas. Está vinculada ao funcionamento mais anterior do córtex pré-frontal; Rede de saliência – regula a percepção das emoções e dos sentimentos, do som, da luz, tamanho e posição dos estímulos ambientais, além do sistema de recompensa com impacto sobre as nossas buscas e motivações. Relaciona-se à ínsula, ao córtex somatossensorial e ao córtex cingulado anterior; Rede de modo padrão – permite o desempenho de comportamentos de forma automática, espontânea, quase como se o pensamento estivesse em outro lugar. Dirigir conversando com alguém, escutando música ou imaginando coisas são exemplos dessa ação. Está associada à regiões mediais do córtex pré-frontal, ao córtex cingulado posterior e ao giro angular.

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    Cada pessoa é única

    Pessoas criativas apresentam um processamento diferenciado dessas conexões, e conseguem intercalar diversos sistemas que se complementam nesse trabalho. Quanto mais sincronizado esse network funcionar, maior será a chance de nos sentirmos inspirados. O importante é saber que cada indivíduo fará isso a seu próprio modo porque a criatividade terá como gatilhos os estímulos gerados pela combinação ou predominância de alguma daquelas redes. Para determinadas pessoas, o emergir de novas ideias dependerá mais da rede executiva – como ler um livro; para outras, isso se liga mais à rede de saliência onde as experiências sensoriais são as que prevalecem. Entre estes, contemplar a natureza, por exemplo, pode ser uma boa fonte de inspiração. “Não é à toa que temos dificuldade de encontrar respostas sobre os caminhos que levam ao aumento da criatividade no âmbito da inovação, educação, desenvolvimento pessoal e profissional. Este é um processamento complexo”, explica a neurocientista Keitiline Viacava, fundadora e diretora da DM.Lab (Decision Making Lab). “Não há uma receita simples que funcione para todos”, conclui. Apesar das particularidades de cada pessoa, algumas estratégias parecem ser benéficas quando se busca uma luz para ter novas ideias ou estimular a criatividade. E isso pode ser feito em qualquer tempo ou idade. Confira:

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    Construa ambientes psicologicamente seguros

    Todo ser humano busca aprovação, acolhimento, segurança. Para ser mais criativo, a primeira coisa a ser feita é estar ou criar um contexto no qual as pessoas se sintam bem. Trabalhar ou viver em um ambiente hostil, em meio à desconfiança e o julgamento reduz a inspiração, a criatividade e as novas ideias. Mas como isso pode ser feito? É necessário ter um compromisso com a maior abertura para a diversidade, estimulando a integração, autenticidade e respeito entre as pessoas, especialmente nos grupos de trabalho e aprendizagem.

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    Durma melhor

    A qualidade do sono está relacionada ao bem-estar físico e mental e é muito importante para o bom funcionamento das funções cognitivas e a emergência da criatividade. Um estudo da Universidade de Baylor (Estados Unidos) observou a quantidade e o padrão do sono de jovens designers. Aqueles que dormiam poucas horas ou tinham o descanso fragmentado durante a noite apresentaram um sensível declínio na habilidade de gerar novas ideias. O indicado é dormir, ao menos, 7 horas a cada noite, colocando em prática todas as estratégias de higiene do sono.

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    Faça uma playlist só com músicas alegres

    De há muito se conhece o efeito benéfico da música para a saúde cognitiva, mas não se sabia qual era o seu papel na criatividade. Um estudo experimental feito pelo Instituto de Ciência Comportamental da Universidade de Radboud (Holanda), comparou o impacto de diferentes repertórios clássicos para o estímulo de novas ideais. O maior nível de respostas positivas nesse sentido ocorreu no grupo de pessoas que ouviram músicas alegres, o que levou os pesquisadores a concluírem que esta poderia ser uma ferramenta facilitadora da cognição criativa. A dica é selecionar algumas músicas clássicas (sem vocal) que tenham acordes que remetam à alegria e ao entusiasmo. Habitue-se a ouvi-las todos os dias ou em tempos de baixa inspiração.

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    Esteja aberto para o novo

    A mente humana é incrivelmente adaptativa e está sempre em processo de mudança. Por isso, uma das formas de estimular a criatividade é expor-se a novos desafios. Essa é a sugestão de Leonardo Naves Maia, psicoterapeuta cognitivo comportamental e diretor da CEV Educacional – Serviço de Saúde Mental. A ideia é investir em atividades e técnicas que desafiem a evoluam a inteligência criativa. E isso é possível por meio do aprendizado de um instrumento musical ou algum novo talento artístico. Jogos criativos são boas alternativas nesse sentido. Contar histórias, games de RPG, jogos de mímica (como o Imagem&Ação), são exemplos.

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    Considere fazer terapia

    Todos conhecem os benefícios do autoconhecimento e da boa saúde mental para o maior aproveitamento das capacidades cognitivas. Uma das estratégias terapêuticas mais úteis para aqueles que se sentem bloqueados em sua criatividade é a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC). Baseada em evidências científicas, ela tem a neurociência como aliada e promove a ampliação de repertórios neurais e socais por meio de estímulos e desenvolvimento de capacidades. O objetivo é que as pessoas tenham respostas inovadoras e encontrem soluções criativas diante de seus desafios. A Psicologia Positiva também pode ser útil. A prática se baseia em quatro pilares: satisfação, propósito, engajamento e relacionamentos – e visa identificar e desenvolver o melhor de cada pessoa para que ela possa viver e explorar suas potencialidades da forma mais plena possível.

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    Saia da rotina

    Muita gente se sente mais à vontade quando cumpre roteiros muito bem estabelecidos. Qualquer mudança nesse esquema pode gerar ansiedade e angústia. Contudo, para um bom número de indivíduos é justamente a quebra da monotonia que desencadeia boas ideias e soluções criativas. Uma das explicações para isso é que se expor a novas experiências ou novos ambientes, conhecer lugares e pessoas promove uma cascata de eventos neurais que levam à liberação de dopamina por meio do sistema de recompensa do cérebro. A consequência natural é a sensação de bem-estar e o estímulo da criatividade. “Não dá para ser criativo quando nos dedicamos a atividades que consideramos monótonas”, fala o psicólogo Marco Callegaro, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do ICTC. No dia a dia, podemos mudar pequenas coisas na agenda para encaixar uma caminhada no parque, ou mesmo ir ao cinema no meio da semana, só para variar. Vale até mudar o itinerário da ida e da volta para o trabalho.

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    Vá para o chuveiro (ou para a cama)

    A criatividade e a inspiração dependem de várias conexões neurais, mas o seu inconsciente também tem um papel nesse processo. Por isso, uma das estratégias para se inspirar é simplesmente deixar de pensar que você precisa ser mais criativo. A ordem é relaxar e deixar de lado a ruminação consciente. Isso significa que você precisa dar um tempo para que as novas ideias se manifestem. Quando desistimos de forçar a criatividade, e nos dedicamos a outras práticas, o insight acontece. Como fazer isso? Basta entrar em estado de relaxamento. Pode ser por meio de técnicas de meditação, do sono e até mesmo um longo banho. Ao fazer isso, permitimos que o cérebro trabalhe no “piloto automático”, ou seja, o inconsciente entra em ação, realiza novas conexões, aumentando a chance de o momento Aha! acontecer. Além disso, assim como no estado meditativo, as ondas alfas entram em ação, abrindo as portas da criatividade.

Fonte: Keitiline Viacava, fundadora e diretora do Decision Making Lab, doutora em Psicologia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e pós-doutora em Neurociência Cognitiva pelo Departamento de Neurologia Universidade de Georgetown (Estados Unidos); Marco Callegaro, psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC); Leonardo Naves Maia, psicoterapeuta cognitivo comportamental, diretor da CEV Educacional – Serviço de Saúde Mental (AL) e membro da FBTC (Federação Brasileira de Terapias Cognitivas). Revisão técnica: Keitiline Viacava. Referências: Roger E. Beatya, Yoed N. Kenettb et alli. Robust prediction of individual creative ability from brain functional connectivity. PNAS. 2018; Elise King , Mericyn Daunis et alli. Sleep in Studio Based Courses: Outcomes for Creativity Task Performance. J Int Desig. 2017; Simone M. Ritter ET. Alli. Happy creativity: Listening to happy music facilitates divergent thinking. Plos One. 2017; Scott Barry Kaufman. Positive Psychology and Creativity. The Forum. University of Pennsylvania. Wharton. 2016.

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