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Para que serve a dopamina? Saiba como a substância do 'vício' é produzida

Dopamina é um neurotransmissor; entenda para que serve e como age Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

15/04/2022 04h00

Várias funções do nosso corpo são controladas por sinais elétricos e químicos trocados entre as células que compõem o sistema nervoso central (SNC). Para garantir que esses sinais cheguem ao seu destino, essas células dependem do trabalho de mensageiros: os neurotransmissores. Um deles é a dopamina, cujas funções determinam como você se movimenta, aprende etc.

A falta de dopamina pode levar a doenças relacionadas ao movimento como o Parkinson. Como a substância está vinculada ao sistema de recompensa e reforço do cérebro, sua falta também parece aumentar o risco de vulnerabilidade ao consumo abusivo de drogas como a cocaína, o álcool, bem como a compulsão por compras e jogos, entre outros.

Descoberto em 1958, o neurotransmissor rendeu um prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina ao farmacologista sueco Arvid Carlsson porque, a partir de suas pesquisas sobre a ação da dopamina nos movimentos, foi possível desenvolver medicamentos para o tratamento do Parkinson. A seguir, tiramos as dúvidas mais comuns sobre a dopamina.

Dopamina: para que serve, como é produzida e mais

Para que serve a dopamina?

O neurotransmissor está relacionado a diferentes funções do organismo de humanos e animas. Veja as principais:

  • Movimento
  • Memória
  • Motivação
  • Recompensa
  • Cognição
  • Atenção
  • Inibição da liberação de prolactina (hormônio que estimula a produção de leite)
  • Sono
  • Humor
  • Aprendizado
  • Processamento da dor
  • Defesas do corpo
  • Função cardíaca
  • Movimentação intestinal

Como a dopamina é produzida?

A dopamina é um neurotransmissor da família das catecolaminas. Ela é produzida naturalmente pelo corpo, principalmente pelos neurônios dopaminérgicos, ou seja, aqueles cujos neurotransmissores principais são a dopamina.

Esses neurônios podem ser encontrados em diferentes áreas do cérebro, mas duas delas têm maior importância nesse processo: a substância nigra (ou negra) —relacionada aos movimentos e à fala— e a área tegmental ventral —vinculada aos sistemas de recompensa (prazer ou satisfação) e repetição (ou reforço).

A dopamina é sintetizada a partir de um aminoácido chamado tirosina, é armazenada em pequenas vesículas nos terminais de neurônios e liberada na fenda sináptica (o encontro entre neurônios) para, assim, permitir a comunicação entre neurônios. A explicação é de Marcelo Marinho, neurologista do Huol-UFRN (Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal de Rio Grande do Norte).

O que acontece quando há baixo nível de dopamina?

O seu organismo é capaz de regular naturalmente a produção de neurotransmissores, mantendo seus níveis equilibrados para que eles atuem em suas funções.

O desequilíbrio desse mecanismo, ou seja, a deficiência, excesso ou a ausência da produção de dopamina pelos neurônios dopaminérgicos está relacionado a algumas doenças. Veja problemas que podem ocorrer com a falta de dopamina:

  • Parkinson
  • Vulnerabilidade a vícios por meio do mecanismo de dependência (todas as drogas de abuso e alguns comportamentos, como jogos e compras, aumentam temporariamente os níveis de dopamina no cérebro, estimulando a sensação de prazer)
  • Anedonia (perda da capacidade de sentir prazer, sintoma comum na depressão)
  • Declínio da capacidade cognitiva (memória, atenção, capacidade de resolver problemas)
  • Aumento da liberação de prolactina (levando à ginecomastia, caracterizada pelo crescimento das mamas em homens)

O que pode acontecer quando há altos níveis de dopamina no corpo?

A presença de um nível alto de dopamina no corpo está ligada a doenças e transtornos como:

  • Esquizofrenia
  • Psicoses
  • TDAH
  • Ansiedade, fobia social
  • Transtorno bipolar

Possíveis sintomas do desequilíbrio de dopamina

Os sintomas podem variar a depender do tipo de desequilíbrio. Um exemplo é o Parkinson. Sabe-se que essa enfermidade decorre da morte de neurônios dopaminérgicos da substância nigra —uma das encarregadas da produção da dopamina. Neste caso, os sintomas mais comuns serão a lentidão dos movimentos, tremores, dificuldade em iniciar o movimento, rigidez, problemas com a fala, depressão, entre outros.

Considerando as demais possíveis doenças relacionadas, poderão ser também observadas as situações abaixo descritas, que são apenas alguns exemplos das possíveis manifestações:

  • Perda do equilíbrio
  • Dificuldade para engolir
  • Perda ou ganho de peso
  • Problemas para dormir
  • Dificuldade em manter o foco
  • Baixa energia
  • Cansaço
  • Pensamentos suicidas
  • Mudanças frequentes de humor
  • Alucinações
  • Agitação
  • Ansiedade

Dá para saber o nível de dopamina no corpo?

Até o momento não existe um teste laboratorial capaz de avaliar os níveis de dopamina no corpo. No entanto, de forma secundária, a atividade das áreas cerebrais nas quais ela é produzida poderia ser observada por meio de exames de neuroimagem, como a tomografia de emissão de pósitrons.

Saiba como são tratadas as deficiências de dopamina

De acordo com Felipe Villela Gomes, professor do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo), o tratamento dependerá da causa do desequilíbrio da dopamina.

No Parkinson, por exemplo, que decorre da perda progressiva de neurônios dopaminérgicos, a estratégia terapêutica mais utilizada se baseia no uso da levodopa, um fármaco capaz de se converter em dopamina, para compensar a falta da dopamina produzida pelo organismo.

"Já na esquizofrenia, quando há um excesso da liberação de dopamina, o tratamento se dá por meio de substâncias que bloqueiam os seus efeitos, em geral, os antipsicóticos. Todos eles atuam por meio do antagonismo dos receptores dopaminérgicos, isto é, eles vão competir por essa dopamina aumentada, e tal competição tem como consequência a redução do efeito da dopamina aumentada no cérebro, controlando, principalmente, os sintomas psicóticos", conclui o especialista.

Qual é o papel da alimentação na dopamina?

Uma revisão de estudos sobre dieta e neurotransmissores, publicado pelo periódico Nutrients, concluiu que, embora os alimentos sejam fontes naturais de substâncias com efeitos sobre o SNC, como a acetilcolina, o glutamato, o ácido gama-aminobutírico (Gaba) e aminas essenciais à vida (biogênicas) como a dopamina, entre outros, existe pouca informação sobre a relação entre esses itens e o efetivo benefício clínico do seu consumo.

De todo modo, a dopamina pode ser encontrada em menor ou maior concentração nos seguintes itens: banana (sobretudo na casca), abacate, laranja, tomate, berinjela, espinafre, ervilha e feijão.

Assim, para garantir o bom funcionamento do cérebro, a regra geral é adotar hábitos de vida saudáveis, o que inclui dieta variada em frutas, legumes, verduras, grãos e castanhas, água em abundância, além de proteínas de qualidade (carne, frango, ovo, peixes), bem como a prática regular de atividade física.

Qual a diferença entre dopamina e serotonina?

Ambos são neurotransmissores, e a maior diferença entre eles é que a serotonina possui um papel mais relevante no controle das emoções —e ainda tem maior relação com doenças como depressão e ansiedade.

Outra diferença reside no local de produção da serotonina, que se concentra 90% no intestino: os demais 10%, têm origem no sistema nervoso central. Entre as funções da serotonina está a regulação do funcionamento cardiovascular, sistema endócrino, sono, apetite, temperatura do corpo e contração muscular.

O que é jejum de dopamina?

De acordo com o Health Blog, da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA), o jejum de dopamina foi um método elaborado pelo psiquiatra Cameron Sepah, da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA). O objetivo dele era ajudar as pessoas a se protegerem do domínio dos estímulos não saudáveis decorrentes da vida atual: mensagens de texto, notificações, alertas de som e toques variados do celular.

Baseando-se em fundamentos da terapia cognitivo comportamental, ele elaborou uma prática com potencial de evitar comportamentos compulsivos que interferem no bem-estar da maioria das pessoas: o comer emocional, excesso de internet, games, jogos, compras, pornografia, busca incessante por novidades, experiências e drogas de abuso.

Explicando de forma simples, a receita de Sepah é promover um detox dessas atividades, permitindo ao cérebro fazer pausas de todos esses indutores de recompensa, evitando o seu "viciante bombardeio". Para o médico, esse break levaria à maior disponibilidade de tempo para o descanso, atividades mais naturais e triviais, o que teria como resultado o maior controle da própria vida.

Apesar disso, a técnica, ao que parece, foi mal-interpretada e logo se tornou uma ferramenta de produtividade no Vale do Silício (EUA), assim como fez as pessoas tratarem a dopamina como uma droga cuja tolerância devia ser controlada evitando-se sexo, masturbação, encontros sociais, alimentos. Tudo para que todas essas experiências se tornassem muito mais vívidas quando fossem retomadas.

O texto do Health Blog conclui que, sim, os níveis de dopamina podem aumentar em decorrência de algum tipo de estímulo a ele relacionado. No entanto, o corpo tem seu próprio sistema de autorregulação. "E esses níveis não baixam quando você evita atividades muito estimulantes; então, o 'jejum de dopamina' não poderia levar a esse efeito", diz.

Especialistas consultados

Felipe Villela Gomes, professor do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP; Marcelo Marinho, neurologista do Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol-UFRN), que integra a Rede Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

Referências: Briguglio, Matteo et al. "Dietary Neurotransmitters: A Narrative Review on Current Knowledge." Nutrients vol. 10,5 591. 10 May. 2018, doi:10.3390/nu10050591

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