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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


Cárie: menos açúcar e mais higiene oral previnem e até eliminam o risco

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

15/06/2021 04h00

Imagine uma enfermidade cuja prevenção requer práticas diárias simples, mas, mesmo assim, é considerada a condição mais prevalente do mundo, afetando quase metade da população global.

Estamos falando da doença cárie, que pode ter como consequência a desmineralização do dente ou da dentina, e evoluir para uma lesão em sua superfície conhecida popularmente apenas como "cárie".

Comum entre as crianças, principalmente na primeira infância, adolescentes e adultos, essa doença tem causa multifatorial, ou seja, ela decorre da combinação de fatores biológicos, comportamentais e psicossociais, e está predominantemente relacionada ao consumo de açúcar, assim como à inadequada higiene oral.

A ausência de tratamento pode levar à perda do dente, mas os especialistas garantem que tal quadro pode ser evitado por meio de visitas regulares ao dentista, além de cuidados como utilizar produtos que contenham flúor e adotar uma dieta equilibrada, limitando o consumo de alimentos ricos em carboidratos simples. Todas essas providências, juntas, reduzem e até eliminam as chances de uma lesão aparecer.

Entenda o que é a cárie

A sua boca possui um ecossistema formado por bactérias boas e ruins que convivem em perfeita harmonia. Algumas delas têm uma capacidade específica: ao metabolizar açúcares, elas produzem ácidos. Quando se juntam a determinados alimentos, esses micro-organismos formam uma película —o biofilme, também conhecido como placa bacteriana.

De acordo com Eduardo Karam Saltori, professor do curso de odontologia da PUC-PR, a doença cárie é o nome científico que se dá a esse processo. Quando não controlado, ocorre um desequilíbrio do pH bucal que pode levar à destruição da estrutura da superfície do dente (esmalte ou dentina).

O especialista acrescenta que o termo "cárie" é usado de forma popular para definir as lesões causadas por esse processo.

"Mas isso não é correto, assim como também não é certo contar cáries. Você pode contar as lesões, mas a doença é uma só", comenta. "Aliás, uma pessoa pode ter a doença cárie, e não apresentar lesão alguma", conclui.

Por que isso acontece?

A causa da doença cárie é multifatorial, mas ela é determinada pelo consumo de açúcar e mediada pelo biofilme. Além disso, a enfermidade é também influenciada pelos seguintes fatores:

  • Biológicos (saliva, pH da saliva, presença de biofilme)
  • Comportamentais (hábitos de higiene bucal)
  • Dieta (consumo excessivo de determinados alimentos como carboidratos simples)
  • Psicossociais (falta de acesso à educação em saúde ou cuidados orais, especialmente na população menos favorecida)
  • Componentes genéticos
  • Uso de alguns medicamentos (fármacos que reduzam a produção de saliva)

Quem precisa ficar mais atento?

Embora a doença cárie possa ser prevenida, algumas pessoas têm maiores chances de desenvolvê-la, seja por questões individuais, seja por determinadas condições bucais. Confira:

  • Crianças (especialmente na primeira infância)
  • Pessoas que têm dieta rica em carboidratos
  • Indivíduos com doenças crônicas, comorbidades, ou sob tratamento quimioterápico
  • Pessoas com necessidades especiais, cuja higiene bucal possa estar comprometida
  • Pacientes com alteração no fluxo salivar (devido ao uso de medicamentos, por exemplo)
  • Pessoas acamadas em leitos hospitalares
  • Idosos

Por que os pequenos precisam de maior atenção?

Os dentes de leite (temporários) possuem uma camada mais fina de esmalte do que os dentes definitivos. Isso significa que eles são mais suscetíveis às lesões. Daí a necessidade de criar, desde cedo, bons hábitos de higiene.

Para esse fim, os especialistas indicam que a primeira consulta com o dentista aconteça já durante a gestação para que a futura mãe possa receber orientações sobre as melhores formas de cuidar da saúde bucal do bebê.

Sugere-se, ainda, que a primeira visita do pequeno ocorra logo que os primeiros dentes apareçam —momento ideal para dar início à escovação com creme dental com flúor.

Pais ou responsáveis devem evitar oferecer mamadeiras com leite ou suco na hora da soneca, e mesmo antes de dormir, bem como chupeta com qualquer tipo de adoçante.

Aliás, a Aboped (Associação Brasileira de Odontopediatria), lançou, no início de 2021, uma campanha nacional denominada "Bebê Zero Açúcar. 100% Afeto".

O objetivo é reforçar a recomendação de evitar a oferta desse item até que o bebê complete 3 anos, o que também se relaciona à conscientização dos malefícios do consumo desse tipo de carboidrato entre as crianças —que não se limitam à saúde oral.

Saiba reconhecer os sintomas

Na fase inicial da doença, em geral, eles estão ausentes ou são imperceptíveis a olho nu.

"Em uma fase posterior, é comum observar-se uma mancha branca, que é a lesão inicial no esmalte dentário (camada externa do dente). Ela é indolor e pode ser paralisada", esclarece Luciana Reichert da Silva Assunção, professora do curso de odontologia da UFPR.

Estágios mais avançados, poderão apresentar as seguintes manifestações:

  • Dor
  • Sensibilidade a doces, calor ou frio
  • Manchas brancas ou marrons na superfície do dente
  • Cavitação (buraco)
  • Infecção local

Quando procurar o dentista?

Como a doença cárie é prevenível, pode não apresentar sintomas, e suas consequências afetam negativamente a qualidade de vida, os especialistas sugerem que as visitas ao dentista sejam regulares —no mínimo a cada 6 meses.

Para algumas pessoas mais suscetíveis, esse tempo deve ser ainda menor.

Como é feito o diagnóstico?

Durante a consulta odontológica, o cirurgião dentista ouvirá a sua queixa, fará o levantamento do seu histórico de saúde geral e oral e ainda realizará o exame bucal.

Este exame consiste em avaliar as superfícies dentárias, suas características, bem como a presença de sinais, atividade ou risco da doença cárie por meio da presença de biofilme e as áreas que o retêm.

Além disso, o profissional buscará identificar a presença de inflamação gengival, dentes restaurados ou perdidos. A explicação é de Juliana Feltrin-Souza, presidente da Aproped e professora de odontopediatria da UFPR.

"O profissional deve também estar atento a fatores de risco como dieta e higiene, e poderá realizar radiografias para analisar a profundidade das lesões ou as superfícies que não são facilmente identificadas no exame visual", acrescenta a especialista.

Como é feito o tratamento?

Ele dependerá da extensão, profundidade e atividade das lesões. A partir dessas condições, os dentistas poderão valer-se das seguintes estratégias terapêuticas:

  • Tratamento com flúor - com ação anticariogênica, ele ajuda a fortalecer o esmalte nas lesões iniciais (sem cavidades), e ainda protege o dente de novas lesões. O flúor pode ser aplicado no próprio consultório, ou ser utilizado por meio de outros produtos de higiene bucal.
  • Restauração - tem o objetivo de restaurar as superfícies dentárias destruídas por lesões de cárie. Podem ser utilizados vários materiais: amálgama, cerâmicos, resinas sintéticas ou metais preciosos. Os usados com mais frequência são as resinas e os cimentos de ionômero de vidro.
  • Coroa - trata-se de uma restauração que reconstrói grandes perdas de estrutura dentária; Tratamento de canal --indicado quando a lesão avançou até a polpa do dente, consiste no esvaziamento do local contaminado.
  • Extração - quando indicada, o dente é extraído e a prática é seguida por reabilitação por meio de prótese.

Quais são as possíveis complicações?

Uma vez que a lesão de cárie avança, sem o devido tratamento, ela pode ter como consequência o comprometimento das funções bucais, como a perfeita mastigação, além de perda da qualidade de vida. Veja outros exemplos:

  • Fratura
  • Dor
  • Dificuldade para falar
  • Nódulo ou cisto
  • Pulpite (infecção da pulpa, a camada mais profunda do dente)
  • Abcesso (com risco de propagação da infecção nos tecidos ao redor do dente e que causa inchaço no local)
  • Perda dentária (a remoção é necessária para estancar o foco da infecção)
  • Necessidade de reabilitação - prótese ou implantes
  • Maior necessidade de tratamento ortodôntico futuro

Cintia Regina Tornisiello Katz, professora da disciplina de odontopediatria da UFPE, fala que é preciso ter especial cuidado com os abcessos, inclusive em crianças, porque eles requerem intervenção imediata.

"Caso as bactérias invadam as cadeias ganglionares do pescoço, ou mesmo a área superior da cabeça, elas podem causar uma infecção generalizada (sepse) ou um abcesso cerebral, conforme o local da lesão. Muitas vezes, é preciso internação imediata para aplicação de antibiótico venoso", esclarece a especialista.

Dicas de prevenção

A melhor forma de ficar longe das lesões de cárie é evitar seus principais fatores desencadeantes, que são o consumo de açúcar adicionado (principalmente o branco) e o biofilme. Para alcançar esse objetivo, coloque em prática as seguintes medidas:

  • Visite seu dentista regularmente, mesmo que não apresente sintomas. Esse acompanhamento é essencial para o controle dos hábitos de higiene oral e manutenção da saúde da boca. O ideal seria fazer isso a cada 6 meses.
  • Peça ao seu dentista uma orientação personalizada sobre como fazer a limpeza bucal, inclusive para os bebês. A repetição de erros básicos pode abrir caminho para a contaminação.
  • Prefira escovas convencionais macias, e use fio ou fita dental diariamente.
  • Escove os dentes dos seus filhos duas vezes ao dia com escova macia, de tamanho compatível com a criança. Use fio dental e pasta de dente com flúor. Fique atento à quantidade de pasta. Para crianças até 3 anos, ela deve corresponder ao tamanho de um grão de arroz.
  • Supervisione a escovação dentária de crianças maiores. Incentive-os a usar diariamente o fio dental e a pasta de dente com flúor.
  • Consulte o seu dentista sobre o uso de enxaguatório bucal por crianças e adolescentes --principalmente os que contêm álcool ou flúor em sua composição, e não devem ser engolidos. A depender da idade dos pequenos, isso pode acontecer. A orientação é evitar usá-lo sem orientação profissional.
  • Alimente-se corretamente. Uma dieta rica em vegetais, frutas e gorduras saudáveis (presentes em oleaginosas, peixes ricos em ômega 3, azeite de oliva e abacate, por exemplo), contribui para manter o organismo protegido. Controle o consumo de alimentos ácidos (sólidos ou líquidos).
  • Afaste-se do cigarro.

Fontes: Cintia Regina Tornisiello Katz, professora adjunta de odontopediatria da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco); Eduardo Karam Saltori, doutor em pdontologia e professor do curso de odontologia da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Juliana Feltrin-Souza, presidente da Aproped (Associação Paranaense de Odontopediatria) e professora da disciplina de odontopediatria do curso de odontologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná); Luciana Reichert da Silva Assunção, professora da disciplina de odontopediatria do curso de odontologia da UFPR. Revisão técnica: Juliana Feltrin-Souza e Eduardo Karam Saltori.

Referências: CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo); ACFF (Alliance for a Cavity Free Future); Declaração de Bangkok da IAPD (sigla em Inglês para Associação Internacional de Odontopediatria) ; Rathee M, Sapra A. Dental Caries. [Updated 2021 Mar 12]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2021 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK551699/.

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