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Victor Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Acredite: dá para inserir os doces em uma rotina saudável; entenda como

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Victor Machado

Victor Machado é nutricionista, pós-Graduado em nutrição esportiva e em nutrição Comportamental. Atua com foco em comportamento alimentar e é o idealizador da marca Nutrição Sincera, que tem como objetivo passar informações sobre saúde, alimentação e bem-estar por meio do humor.

Colunista do UOL

31/05/2021 04h00

Desde o início do século 21 os doces têm sido motivo de atenção na saúde da população brasileira, pois foi nessa época que passaram a observar que uma das causas do desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, hipertensão e obesidade tinham mais relação com o excesso de consumo de açúcar do que com o consumo de gordura.

Não que o excesso de gordura não venha a causar problemas de saúde, mas percebeu-se que era alarmante a atenção que deveria ser dada aos produtos industrializados com grandes quantidades de açúcares.

Fato que gerou também uma necessidade de mais educação nutricional para a população aprender a identificar alimentos açucarados de tal forma que fossem evitados no dia a dia.

Surgiram até propostas como a Pirâmide Nutricional em que o açúcar aparecia no topo da pirâmide, indicando que seu consumo deveria apresentar o menor percentual de uma dieta equilibrada.

Produtos diet, light e zero também foram estratégias da indústria para ofertar alimentos sem a presença de açúcar em sua composição. Dessa forma, muitos passaram a enxergar o açúcar como um alimento proibido que nunca deve ser consumido.

Por isso o açúcar acabou se tornando um vilão para as pessoas e muitos optaram pela exclusão total do seu consumo. Vamos refletir sobre as consequências dessa questão.

Entendemos que o açúcar, quando consumido em excesso, tem a capacidade de inflamar o intestino e desencadear outros problemas de saúde, como falta de disposição, piora do sono, acúmulo de gordura no fígado e aumento da oleosidade da pele.

Porém é necessário entender o que acontece para que esse consumo de açúcar acabe sendo exagerado em algumas ocasiões. Alguns profissionais defendem que o açúcar tem o poder de viciar o organismo mais do que a cocaína.

Comparar açúcar com cocaína é um erro já que suas fórmulas químicas são diferentes.

Outro ponto é que a dependência química tem uma característica de busca pela substância de satisfação em que não são medidos esforços mesmo que o usuário corra risco de vida para isso.

Perceba que não é comum uma pessoa com compulsão alimentar vender a televisão para comprar açúcar. Provavelmente pessoas com distúrbios alimentares não se submeteriam a um risco de morte para comer um brigadeiro.

Sugerir que drogas ilícitas e açúcar "viciam" da mesma forma, só porque elas "brilham" a mesma região do cérebro em um exame neurológico é um equívoco.

Essa região do cérebro brilha da mesma forma quando abraçamos alguém e isso não quer dizer que estamos viciados em abraços.

Dizer que o açúcar vicia é resumir uma questão complexa e banalizar a ciência.

No aspecto fisiológico, o exagero ocorre, pois o açúcar é muito palatável e, muitas vezes, quem consome em excesso não percebe a velocidade que está comendo e não consegue perceber a sensação de satisfação com esse alimento.

Muito disso ocorre também por aspectos emocionais como a sensação de fracasso por comer um alimento em que muitos fazem terrorismo por seu consumo.

Outra questão é que, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), o consumo recomendado é de 35 g de açúcar por dia, mas os brasileiros chegam a comer 80 g por dia. Porém, para muitos que lutam contra o consumo de açúcar, ou até mesmo lutam com a balança, não é tão simples conseguir consumir apenas "um quadradinho de chocolate" por dia.

Quero dizer que para aprender a lidar com o consumo de açúcar, primeiro é importante permitir que esse alimento exista em sua vida, caso ele seja importante para você. Após isso, preste atenção no porquê desse consumo e esteja presente de verdade no momento em que estiver comendo.

Comer açúcar com a sensação de fracasso, derrota e de proibição não vai ajudar a lidar com esse alimento e muitas vezes os exageros ocorrem por essa sensação de descontrole.

Comer com calma, entendendo quais as sensações esse alimento traz para você te ajuda a consumir quantidades que saturem os receptores do açúcar e assim você atinge a saciedade. Repare que se trata de comer o suficiente, e não apenas comer "pouco".

Trabalhando com essa permissão incondicional para comer, o alimento deixa de ser demonizado, a culpa é reduzida e você abre espaço na sua mente para aprender a comer com moderação e em paz com a comida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL