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Victor Machado

Vício em açúcar existe mesmo?

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Victor Machado

Victor Machado é nutricionista, pós-Graduado em nutrição esportiva e em nutrição Comportamental. Atua com foco em comportamento alimentar e é o idealizador da marca Nutrição Sincera, que tem como objetivo passar informações sobre saúde, alimentação e bem-estar por meio do humor.

Colunista do UOL

01/02/2021 04h00

Tem sido muito comum influenciadores digitais divulgarem informações assustadoras referentes ao açúcar. Falando que esse nutriente é considerado um veneno para a nossa saúde, além de ser uma substância que vicia 16 vezes mais que a cocaína. Mas será que isso é verdade?

A ideia desse texto não é dizer que todo influenciador digital divulga mentiras e faz terrorismo alimentar, até porque nem todas as pessoas agem de má-fé na internet, e muitas vezes a intenção é boa. Mas é importante dizer que não devemos ignorar o que a ciência diz sobre o assunto. Assim, podemos ser mais críticos na hora de tirar conclusões.

Muitos influenciadores dizem que têm ou já tiveram algum transtorno diagnosticado como compulsão alimentar, exageros com doces e que já trataram diversas pessoas com seus "projetos de vida saudável".

É comum pessoas que têm alguma patologia ou transtorno irem em busca de conhecimento para entender o que acontece com elas mesmas. Isso não quer dizer que automaticamente estamos aptos a resolver os problemas dos outros. É o mesmo que ter uma TV em casa: se ela quebrar, você consegue consertar? Portanto, ter uma TV em casa não necessariamente nos torna especialistas em consertá-la, caso ela quebre. O mesmo acontece com os transtornos alimentares, a menos que tenhamos alguma formação específica no assunto.

Mas o que é um vicio?

É uma compulsão causada pela repetição de ações que pode causar consequências negativas para o indivíduo fisicamente, mentalmente, socialmente ou no seu bem-estar financeiro. De acordo com o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o transtorno de compulsão alimentar consiste em uma ingestão excessiva de alimentos em um espaço curto de tempo com uma sensação de perda de controle.

Sendo assim, vício é diferente de compulsão alimentar.

Os influenciadores têm mostrado imagens de um estudo feito em ratos com a ativação de uma mesma região do cérebro com o consumo de cocaína e açúcar.

Porém é importante entender que essa área do cérebro é o sistema de recompensas, que é ativado quando comemos açúcar, fazemos sexo, abraçamos. O corpo é baseado no sistema de recompensa para que não fiquemos apáticos e consigamos reagir sobre a vida.

No artigo, é mostrado que os ratos preferem pelo açúcar.

Se o artigo for lido até o final, vamos observar que os autores dizem que a recompensa do açúcar no sistema nervoso central acontece mais rápido, cerca de 2 segundos. Já o pico de recompensa da cocaína acontece em 60 segundos. O rato, então, escolhe pelo que dá a recompensa mais rápido.

No mesmo estudo ensinaram os ratos que, se eles esperassem mais, teriam os mesmos efeitos recompensatórios inerentes da cocaína e, dessa forma, os animais passaram a escolher cocaína. O artigo mostra que ratos são bons modelos para recompensa. Lembrando que entre ratos e humanos existe um abismo.

O erro de comparar cocaína com açúcar começa com as suas fórmulas químicas que são diferentes. Enquanto uma se trata de uma droga sintética, o outro é um nutriente presente na nossa cultura alimentar.

Outro fato é que dependente químico tem um padrão de buscar pelo objeto de satisfação sem medir esforços, mesmo que corra um risco de vida para isso. Você já viu alguma pessoa com compulsão alimentar vender a geladeira para comprar açúcar? Essa pessoa come açúcar direto do saco? Será que uma pessoa com compulsão alimentar se submeteria a um risco de vida para comer uma rosquinha?

O dependente químico já perde essa seletividade e não tem noção do risco de vida que pode correr. Uma pessoa com compulsão alimentar pode ir na confeitaria 24 horas, mas se disserem que na frente da confeitaria está acontecendo um tiroteio, essa pessoa não vai correr risco de vida.

Portanto, sugerir que drogas ilícitas e açúcar tenham o mesmo efeito só porque elas brilham a mesma região em um exame neurológico é um equívoco. Isso não tem nada a ver com vício. Só porque abraçamos alguém e isso nos faz bem, não quer dizer que estamos viciados em abraços.

Dizer que o açúcar vicia é resumir uma questão complexa e banalizar a ciência. E divulgar informações exageradas não ajuda as pessoas em nada. Para lidar com açúcar, o segredo está em permitir que esse alimento exista em sua vida, abolir a demonização dos alimentos, reduzir o sentimento a culpa e, assim, com o tempo, aprender a dizer não quando necessário. Com moderação e sem terrorismo nutricional é possível viver em paz com a comida.