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Vamos Falar Sobre o Luto?

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

7 dicas para ajudar adolescentes em luto

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Gisela Adissi

Gisela Adissi é uma das cofundadoras do "Vamos Falar Sobre o Luto?", plataforma que vem mudando a abordagem do tema no país desde 2015, para colaborar e levar a lutos mais saudáveis. Com 20 anos de experiência na temática luto, é cofundadora da Esfera Arquitetura do Cuidado, consultoria voltada para prevenção de processos de adoecimento mental no ambiente corporativo, e fundadora da Flow Death Care, consultoria de Inovação para o setor funeral e gestão de luto

Colunista do UOL

27/06/2022 04h00

Todos os anos, milhares de adolescentes vivenciam a morte de alguém que amam. Quando um dos pais, irmão, amigo ou parente morre, o adolescente sente a perda esmagadora de alguém que inclusive pode ter ajudado a moldar sua identidade. Esses sentimentos sobre a morte marcam sua subjetividade para sempre.

Adultos —sejam pais, sejam professores, sejam conselheiros, sejam amigos— podem oferecer ajuda durante esse período. Se forem abertos, honestos e amorosos, saberão conduzir essa experiência de maneira a fazer com que ela represente uma chance para os jovens de aprenderem sobre a alegria e a dor de cuidar profundamente do outro. Mas como ajudar?

1. Sem pressão: ninguém precisa ser super-herói

Adolescentes enlutados dão sinais de que estão mergulhados em sentimentos complexos, mas muitas vezes são pressionados a agir como se estivessem melhor do que realmente estão.

Quando um dos pais morre, muitos são instruídos a "serem fortes". Isso num momento em que, além da dor, surgem medos ligados à vida prática, como não saberem se sobreviverão sozinhos, muito menos se serão capazes de dar apoio a outras pessoas. Geralmente, espera-se que os jovens ajam como "crescidos" e apoiem outros membros da família, particularmente um pai sobrevivente e/ou irmãos e irmãs mais novos. Quando um adolescente sente a responsabilidade de "cuidar da família", ele não tem a oportunidade —ou a permissão— de chorar. Obviamente, esses conflitos dificultam o trabalho de luto.

2. Lembre-se: adolescentes não são adultos

Adolescentes não são mais crianças, mas também não são adultos. Com exceção da infância, nenhum período de desenvolvimento é tão cheio de mudanças quanto essa fase. O jovem inicia um processo de "separação" de seus pais - tanto do ponto de vista emocional quanto em relação a atividades do dia a dia, à medida que vão conquistando liberdades. A morte de um pai ou irmão pode ser uma experiência particularmente devastadora durante este período já difícil.

O adolescente enlutado é confrontado com a morte de um ente querido enquanto enfrenta pressões psicológicas, fisiológicas e acadêmicas. Embora possam começar a parecer "homens" ou "mulheres", os jovens ainda vão precisar do apoio consistente e compassivo enquanto fazem o "trabalho do luto", porque o desenvolvimento físico nem sempre é igual a maturidade emocional.

3. Entenda o efeito surpresa da morte

Um pai pode morrer de um ataque cardíaco súbito, um irmão ou irmã pode sofrer um acidente de carro ou um amigo pode cometer suicídio. A natureza dessas mortes não esperadas, súbitas, muitas vezes resulta em uma sensação prolongada e intensificada de irrealidade.

Sentir-se atordoado ou entorpecido quando alguém querido morre é muitas vezes parte da experiência inicial do adolescente em luto. Esse entorpecimento é um recurso de autoproteção —dar tempo para que as emoções sejam minimamente digeridas e possam acompanhar o que foi comunicado à mente. Esse sentimento ajuda a isolá-los da realidade da morte até que sejam mais capazes de tolerar aquilo no que não querem acreditar.

4. Certifique-se de que existe uma rede de suporte emocional

Muitas pessoas assumem que os adolescentes têm amigos e familiares que os apoiam e que estarão continuamente disponíveis. Presumimos que encontrarão conforto em seus colegas, mas, quando o assunto é morte, isso pode não ser verdade. Muitos adolescentes enlutados são recebidos com indiferença por amigos da mesma idade. A menos que esses amigos tenham experimentado o luto, eles se protegem de seu próprio sentimento de desamparo ignorando completamente o assunto da perda.

5. Acolher o sentimento de culpa

É normal que à medida que os adolescentes lutem por sua independência, ocorram conflitos de relacionamento com os membros da família. Criticar ou desvalorizar os pais nessa fase faz parte do processo de passagem da infância à vida adulta. Se um pai morre enquanto o adolescente o afasta emocional e fisicamente, muitas vezes surge o sentimento de culpa e de que ficou uma "pendência" a ser resolvida.

Uma morte em meio a essa fase de turbulência pode despertar nos jovens a necessidade de conversar especificamente sobre o remorso. É preciso ouvi-los e explicar que esse período de conflito é constitutivo da experiencia de crescer —todo mundo que já é adulto sabe disso porque viveu essa mesma experiência. "Conversar" com quem partiu, seja falando ou escrevendo, pode ser uma forma de extravasar o sentimento de culpa.

6. Saiba quando procurar ajuda especializada

Adolescentes em luto podem até se comportar de maneiras que parecem inadequadas ou assustadoras. Fique atento a:

- sintomas de depressão crônica, dificuldades para dormir, inquietação e baixa autoestima;
- queda na performance acadêmica ou indiferença às atividades relacionadas à escola;
- deterioração das relações com a família e amigos;
- comportamentos de risco, como abuso de drogas e álcool, brigas e experimentação sexual;
- negação da dor e comportamento maduro prematuro.

Para ajudar um adolescente que está passando por um luto particularmente difícil, explore todo o espectro de serviços de ajuda.

Os grupos de apoio são um recurso valioso. Em grupo, os adolescentes podem se conectar com outros jovens que sofreram uma perda e são permitidos e encorajados a contar suas histórias tanto e quantas vezes quiserem. Nesse contexto, a maioria encontra conforto e segurança para reconhecer o quanto a morte impactou sua vida.

Conselheiros escolares, grupos de jovens ligados a religiões, médicos e terapeutas representam caminhos de auxílio. É importante convidar o jovem para a tomada de decisão sobre procurar ou não ajuda externa - alguns deles podem precisar apenas de um pouco mais de tempo e atenção de adultos próximos. O importante é que você ajude o adolescente enlutado a encontrar saídas emocionais seguras.

7. Tudo se resume a uma palavra só: acolhimento

Às vezes, os adultos não querem falar sobre a morte, supondo que, ao fazê-lo, os jovens serão poupados da dor e da tristeza. No entanto, os adolescentes sofrem de qualquer maneira e geralmente precisam da confirmação por parte dos mais velhos de que não há problema em ficar triste e sentir uma infinidade de emoções quando alguém morre. Eles também podem precisar de ajuda para entender que a intensidade da dor que sentem agora não durará para sempre. Quando ignorados, podem sofrer mais por se sentirem isolados e sozinhos do que pela própria morte.

Lembre-se de que a morte de alguém amado é uma experiência devastadora. Como resultado, a vida do adolescente fica em reconstrução. Considere o significado da perda e seja gentil e compassivo em todos os seus esforços de ajuda.

O luto é complexo. Vai variar de adolescente para adolescente. Mas o ponto de partida para quem quer ajudar é um só: pare, ouça, escute.

Para os adultos atenciosos, o desafio é claro: os adolescentes não escolhem entre o luto e o não luto; os adultos, por outro lado, têm uma escolha - ajudar ou não ajudar os adolescentes a lidar com a dor.