PUBLICIDADE

Topo

Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estudo avalia se multivitamínicos têm relação com maior risco de câncer

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

23/03/2022 04h00

Os suplementos multivitamínicos são muito utilizados por pessoas no mundo todo e, particularmente, pelos norte-americanos. Por isso, um grupo de pesquisadores do National Cancer Institute de Bethesda, nos Estados Unidos, resolveu investigar a relação dos multivitamínicos com o risco de desenvolver câncer.

Eles acompanharam 489.640 participantes com idade entre 50 e 71 anos por um período de mais de 15 anos. Os resultados foram publicados na revista The Journal of Nutrition e sugerem que o consumo diário de suplementos multivitamínicos pode ter ligação com um maior risco de alguns tipos de câncer.

Suplementos multivitamínicos previnem câncer?

Os suplementos multivitamínicos referem-se a uma combinação não apenas de vitaminas, como também de minerais. Eles são encontrados em forma de cápsulas, comprimidos, comprimidos efervescentes, pós, líquidos, gomas.

As vitaminas são micronutrientes essenciais para a saúde, atuando na regulação de diversas funções no nosso corpo, como crescimento, digestão e processos neurológicos. Elas podem ser hidrossolúveis, por dissolverem-se em água, como as vitaminas do complexo B e a vitamina C, ou lipossolúveis, que são as vitaminas A, D, E e K, solúveis em gorduras.

Assim como as vitaminas, os minerais são essenciais para uma vida saudável e também precisamos deles em pequenas quantidades. Entre esses elementos inorgânicos temos ferro, cálcio, magnésio, zinco, selênio, potássio.

De forma geral, podemos obter todos esses nutrientes tendo uma boa alimentação. Mas em alguns casos envolvendo problemas de saúde e certas condições, é necessária suplementação nutricional, sob supervisão médica. Por exemplo:

  • A vitamina B12 deve ser suplementada por quem decide ter uma alimentação vegana, já que essa vitamina só é encontrada em quantidades significativas nos alimentos de origem animal.
  • As gestantes são orientadas a receberem suplemento de ácido fólico, vitamina que age prevenindo defeitos no tubo neural dos fetos.
  • Idosos podem necessitar de suplementação de cálcio e vitamina D para manter a saúde dos ossos nesse ciclo de vida.
  • Pessoas de todas as idades que sofrem com a desnutrição podem necessitar de suplementação nutricional. Aqui no Brasil as deficiências de vitamina A, ferro e ácido fólico são muito comuns, de modo que existem programas de saúde pública visando, entre outras ações, a suplementação nutricional.
  • É possível que atletas de alto rendimento não consigam por meio da alimentação todos os nutrientes necessários para a sua saúde, recorrendo aos suplementos.

No entanto, temos visto que as pessoas tomam suplementos nutricionais indiscriminadamente, para compensar maus hábitos alimentares e reduzir o risco de doenças crônicas.

Dados de um estudo mostram que o uso de suplementos multivitamínicos ou vitamínicos entre adultos nos Estados Unidos chegou a 57,6% entre 2017 e 2018.

Também acredita-se que os suplementos multivitamínicos podem prevenir o desenvolvimento de câncer, o que ainda não é bem descrito pela ciência.

Multivitamínicos podem ter ligação com o desenvolvimento de alguns tipos de câncer e reduzir o risco de câncer colorretal

Diante disso, os pesquisadores do National Cancer Institute de Bethesda resolveram avaliar a associação entre o uso de multivitamínicos e o risco de desenvolver câncer.

Eles avaliaram dados de participantes de um estudo de coorte (American Association of Retired Persons - AARP) inscritos entre 1995 e 1998, dos quais 40% eram mulheres.

Para identificar a incidência da doença foram utilizados 11 registros estaduais de câncer e o uso de multivitamínicos foi avaliado por um questionário.

Para estimar o risco de câncer, os pesquisadores tiveram o cuidado de fazer o ajuste para possíveis fatores de confusão, como idade, IMC (Índice de Massa Corporal), hábito de fumar, atividade física, índice de alimentação saudável e uso de suplementos vitamínicos e minerais (compostos por um único nutriente).

Os pesquisadores observaram um risco geral 2% maior de desenvolver câncer em homens (mas não em mulheres) que consumiram um ou mais multivitamínicos diariamente, comparando com quem não usou.

Além disso, encontraram maiores riscos de câncer de próstata (4%), pulmão (7%) e leucemia (26%). Tomar mais de um multivitamínico diariamente também apresentou associação com risco de câncer de orofaringe nas mulheres (53%).

Por outro lado, o risco de câncer colorretal foi reduzido em 18% tanto entre homens quanto entre mulheres.

Em vez de suplementos multivitamínicos, tenha uma alimentação saudável

Os pesquisadores concluíram, apesar das limitações do estudo e da necessidade de mais pesquisas serem realizadas, que um efeito protetor do câncer decorrente do uso diário de suplementos multivitamínicos parece limitado. Com exceção do câncer colorretal, foram observados riscos aumentados para câncer de próstata, de pulmão, leucemia e de orofaringe.

Isso também pode ser um alerta para o uso indiscriminado de suplementos nutricionais. Não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil, as pessoas apostam muito nas cápsulas, acreditando que são imprescindíveis para terem mais saúde.

Não é de se estranhar, pois damos grande importância aos nutrientes que obtemos dos alimentos. É comum acreditar que se eles fazem tão bem na comida, ingeri-los isolados será ainda melhor. No entanto, como podemos ver, os suplementos não necessariamente vão potencializar os efeitos dos nutrientes, podendo, na verdade, serem prejudiciais, além de caros e dispensáveis.

Não tenha os suplementos como milagrosos na proteção contra doenças. Ainda que em determinados casos sejam indicados, diariamente não parecem ser desejáveis e em excesso podem gerar efeitos adversos.

Portanto, só use suplementos nutricionais com acompanhamento médico, escolhendo profissionais especializados e competentes que poderão fazer uma análise abrangente da sua saúde e avaliar a real necessidade de prescrever suplementação.

Lembre-se que comer bem é o melhor para a sua saúde, como também para o seu bolso. Uma alimentação saudável pode fornecer todos os nutrientes, vitaminas e minerais que o nosso corpo necessita para funcionar adequadamente e nos proporcionar bem-estar.

Em vez de suplementos nutricionais, coma com prazer, não pule refeições, tenha horários regulares para se alimentar, ouça seus sinais de fome e saciedade, consuma mais comida fresca e caseira, tenha uma alimentação diversificada (com alimentos de todos os grupos alimentares) e faça as pazes com a comida e com o corpo!

Bon appétit!

Sophie Deram