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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Profissionais de saúde têm preconceito diante de pacientes com obesidade?

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

19/01/2022 04h00

Não são incomuns atitudes preconceituosas de profissionais de saúde diante de pessoas com sobrepeso e obesidade, o que podemos chamar viés de peso. Um exemplo disso é quando o profissional atribui todos os problemas de saúde do paciente ao seu peso —talvez você já tenha até passado por algo do tipo.

Por isso, um grupo de pesquisadores da Universidade de Curtin, na Austrália, realizou uma meta-análise (método que combina resultados de vários estudos independentes) sobre o comportamento de profissionais de saúde diante de pacientes com excesso de peso.

A pesquisa foi publicada na revista Obesity em setembro 2021, analisou 41 estudos e mostrou que a maioria dos médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e fisiologistas do exercício apresentam atitudes preconceituosas implícitas e explícitas diante de pacientes com sobrepeso e obesidade.

Atitudes preconceituosas e viés de peso não ajudam o tratamento da obesidade

Como sabemos, o sobrepeso e a obesidade estão associados a um aumento no risco de problemas cardiometabólicos, como doenças do coração, diabetes, cânceres e problemas na tireoide.

Além dos efeitos fisiopatológicos, estudos têm mostrado que muitas pessoas com excesso de peso experimentam estigma de peso, associado a um aumento de depressão, ansiedade, estresse, uso de substâncias tóxicas (como álcool), baixa autoestima e até suicídio.

O estigma são estereótipos e percepções negativas sobre alguém devido ao seu peso. Um exemplo é a visão de que as pessoas gordas são preguiçosas, incompetentes, gulosas, sem força de vontade e pouco motivadas para melhorar a saúde. Ele pode surgir do viés de peso, que são atitudes negativas dirigidas a essas pessoas. Quando um médico, ou outro profissional, gasta menos tempo atendendo pacientes com obesidade em comparação com pessoas sem excesso de peso, temos um viés.

Essas ideias preconceituosas surgem de todos os âmbitos da sociedade, incluindo os serviços de saúde, de modo que pessoas com sobrepeso e obesidade relatam vivenciar o estigma por parte dos profissionais de saúde.

É claro que a maioria dos profissionais demonstra um compromisso com a prestação de cuidados e não discrimina intencionalmente seus clientes. No entanto, cada vez mais as pesquisas mostram que uma proporção de profissionais de saúde tem atitudes preconceituosas, até mesmo inconscientemente, diante de pessoas que vivem com sobrepeso ou obesidade. Isso pode estar associado a uma menor adesão ao tratamento e à fuga dos serviços de saúde, atrasando a intervenção médica e gerando impactos negativos na saúde do paciente.

Apesar de se saber da existência do viés de peso entre os profissionais e das consequências disso, os estudos são limitados e não está clara qual a extensão do viés de peso nas diferentes profissões de saúde.

Diante disso, os pesquisadores resolveram realizar uma revisão sistemática e uma meta-análise para responder à seguinte pergunta: qual é a extensão do viés de peso entre os profissionais de saúde?

Estudo é limitado, mas mostra que maioria de profissionais de saúde demonstra viés de peso

Eles realizaram uma pesquisa em diversas bases de dados eletrônicas, usando termos relevantes (por exemplo, viés de peso, estigma, obesidade) para identificar artigos publicados sobre viés de peso em profissionais de saúde.

Um total de 5.908 títulos e resumos de artigos foram sistematicamente selecionados a partir das bases de dados. Desses, 41 estudos, incluindo 12.818 participantes adultos, preencheram os critérios de inclusão para a revisão sistemática, e 17 desses estudos forneceram dados suficientes para meta-análises. Eles foram publicados entre 1989 e 2020, indicando que o viés de peso tem sido relatado na literatura científica há mais de três décadas.

Os estudos utilizaram diversos métodos, como Escala de Fobia de Gordura, Escala de Atitudes Antigordura e Escala de Atitudes em relação à Obesidade e às pessoas com Obesidade.

Dentre os artigos avaliados:

  • 7 examinaram a extensão do viés de peso em equipes multidisciplinares de saúde;
  • 12 em enfermeiros;
  • 12 em médicos,
  • 5 em nutricionistas;
  • 3 em fisioterapeutas;
  • 1 em psicólogos.

Os resultados mostraram que os médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e fisiologistas do exercício mantêm atitudes implícitas e/ou explícitas de viés de peso em relação às pessoas com obesidade.

No entanto, como indicam os autores do artigo, o estudo apresenta algumas limitações. As pesquisas utilizam métodos heterogêneos para medir o viés de peso em profissionais de saúde, o que prejudica a confiabilidade da literatura.

Desse modo, trata-se de uma tendência, e não de uma constatação objetiva, que aponta para a necessidade de que as pesquisas futuras desenvolvam questionários e outras medidas válidas e confiáveis para estudar o viés de peso em profissionais de saúde e nos ambientes de saúde.

Pesquisas e intervenções para evitar o viés de peso

Os pesquisadores consideram necessária a realização de mais e melhores pesquisas sobre o tema do viés de peso entre profissionais de saúde, como também que a partir disso sejam exploradas possíveis intervenções para atuar sobre esse problema psicossocial que afeta a saúde de muitas pessoas. Eles mesmos apontam algumas ações com base nos artigos analisados.

Por exemplo, melhorar o conhecimento dos profissionais de saúde sobre a obesidade, muitas vezes vista como uma escolha de estilo de vida, quando na verdade se trata de uma condição de saúde. E adotar uma terminologia mais neutra em relação ao peso durante as consultas, pois os pacientes com sobrepeso ou obesidade relatam preferir termos como "peso não saudável" em vez de "obeso" ao serem consultados com os profissionais.

Essas medidas, entre outras, como pedir permissão para falar sobre o peso do paciente (assunto tão delicado para muitos), bem como oferecer um ambiente acolhedor e capaz de atender pessoas de todos os tamanhos (com cadeiras sem braços e equipamentos adequados) podem contribuir para reduzir o viés de peso e os sentimentos de estigmatização nos serviços de saúde.

Além disso, pesquisas e documentos que abordam o viés e o estigma de peso têm chamado atenção e se difundido cada vez mais, como o Guia Canadense, que considera que o peso não define obesidade, além de uma declaração de consenso, publicada na The Lancet, que apresenta princípios para falar sobre o peso.

Tudo isso indica avanços que podem contribuir para um novo olhar sobre obesidade e, consequentemente, para um cuidado mais humanizado, centrado no paciente e no respeito a ele.

Sophie Deram