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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desregular o relógio biológico pode aumentar risco de obesidade e diabetes

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

23/12/2021 04h00

Um estudo publicado na revista Science Advances, realizado com camundongos, apresenta evidências dos efeitos negativos da dessincronização entre o relógio biológico interno e os ritmos externos do ambiente sobre o risco de obesidade e diabetes.

Dessincronização do relógio biológico e doenças crônicas

O relógio biológico, ou ritmos circadianos, permite que os organismos sincronizem os processos internos com o ambiente, garantindo seu equilíbrio e adaptação.

Esses ritmos circadianos existem em todos os seres vivos. São eles que ajudam as flores a desabrochar na hora certa, evitam que certos animais saiam de seus abrigos em momentos de maior exposição a predadores e indicam a estação do ano que se aproxima para que se saiba a hora de migrar ou hibernar.

Quanto aos seres humanos, o relógio biológico coordena os processos mentais e físicos. Por exemplo, o sistema digestivo produz mais enzimas no horário típico das refeições e com o cair da noite são produzidos hormônios que preparam nosso corpo para dormir.

Já sabemos que a perturbação do relógio biológico, como acontece no trabalho noturno e em empregos com períodos de descanso irregulares, pode estar associada a doenças crônicas por uma discordância entre os relógios internos e os ciclos do ambiente.

Diante disso, Mitchell A. Lazar, do Instituto de Diabetes, Obesidade e Metabolismo da Universidade da Pensilvânia (EUA), e sua equipe de pesquisadores desenvolveram um estudo com camundongos para explorar a teoria da dessincronização dos relógios biológicos e trazer possíveis explicações para esse fenômeno.

Os camundongos apresentam relógios biológicos com funcionamento de aproximadamente 24 horas e durante esse período muitos genes e receptores são ativados e reprimidos para coordenar os comportamentos, relógios periféricos e funções fisiológicas para manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio do organismo.

Entre esses receptores temos a proteína REV-ERB. Vários estudos in vitro mostram que esses receptores não são necessários para desempenhar a função do relógio biológico central, mas trabalham como um importante fator secundário na estabilização do relógio e regulação de genes.

Dessa forma, para investigar se a dessincronização circadiana realmente tem relação com o desenvolvimento de obesidade e diabetes, os pesquisadores removeram certas moléculas da proteína REV-ERB das células dos cérebros dos camundongos com o intuito de alterar o ciclo interno deles. Isso fez com que os relógios corporais dos camundongos funcionassem em ciclos de 21 horas, três horas a menos que o funcionamento normal, o que foi determinado ao rastrear o padrão de sono e vigília dos animais.

Efeitos da dessincronização do relógio biológico

Alguns dos camundongos com ciclo reduzido de 21 horas foram mantidos em um ciclo de 24 horas, sendo expostos a 12 horas de luz e 12 horas de escuro, ou seja, o relógio biológico interno foi colocado em desacordo com o ciclo do ambiente externo.

Os resultados mostraram que esses animais, ao receberem uma alimentação regular, foram capazes de manter o peso. No entanto, ao consumirem uma alimentação com excesso de gorduras e açúcares, ganharam mais peso e tiveram maior risco de desenvolver distúrbios metabólicos, como diabetes e esteatose hepática (gordura no fígado).

Por exemplo, a glicemia em jejum apresentou-se aumentada e a tolerância à glicose foi diminuída nos camundongos sem REV-ERB e expostos a um ciclo de 24 horas, em comparação com os camundongos do grupo controle.

Além disso, os camundongos que ainda tinham a proteína REV-ERB, mas receberam uma alimentação rica em gorduras e açúcares não apresentaram resultados tão negativos.

Assim, os pesquisadores sugerem que o relógio biológico interno dos ratos sem REV-ERB, por estarem dessincronizados com o ciclo de 24 horas, geraram o estresse metabólico do organismo.

O mais interessante é que ao ajustarem o ciclo externo para coincidir com o relógio interno, de modo que os camundongos foram expostos a "dias" de 21 horas, com 10 horas e meia de luz e 10 horas e meia de escuro, os animais com relógios alterados não foram mais tão suscetíveis aos efeitos negativos de uma alimentação com excesso de gorduras e açúcares.

Isso parece estar de acordo com a teoria da dessincronização, pois ao alinhar o relógio biológico interno com o ciclo diário externo, o metabolismo passou a funcionar dentro da normalidade e de forma saudável.

Sincronize seu dia com seu relógio biológico

Essa pesquisa foi realizada em modelo animal e mais estudos são necessários para comprová-la. De qualquer forma, nos traz evidências importantes para entender porque trabalhar tarde da noite ou ter horários irregulares para as atividades do dia a dia pode ter associação com o desenvolvimento de distúrbios metabólicos.

Essas descobertas também podem contribuir para encontrarmos estratégias e ajustar as tarefas diárias de pessoas que parecem ser bastante prejudicadas com um ritmo de vida em desacordo com os ritmos biológicos.

Também percebo que essa pesquisa pode contribuir para termos uma visão mais ampla da nutrição. De um modo geral, as pessoas estão muito preocupadas com os nutrientes, com o que comer e buscam alimentos da moda com a promessa de ganhos em saúde, anos de vida a mais e perda de peso. Nossas escolhas alimentares são, realmente, muito importantes para a nossa saúde. Comer mais comida fresca e caseira e reduzir os ultraprocessados pode contribuir bastante com a nossa saúde.

Mas não podemos nos esquecer do "como" comemos, ou seja, da nossa relação com a comida e com o corpo, nem do "quando" comemos, o que está inteiramente ligado aos nossos ritmos de vida.

Por exemplo, já recebi pessoas em meu consultório que estavam com o sono totalmente desregulado. Trabalhar a alimentação sem que isso fosse antes melhorado, provavelmente, não traria bons resultados.

Precisamos pensar na nossa alimentação como algo que está em interconexão com todas as instâncias da nossa vida e não apenas com os nutrientes que ingerimos. Realizar as refeições em horários regulares, dormir bem e em momentos adequados, evitar exposição à luz tarde da noite são atitudes que podem contribuir bastante com a nossa saúde e qualidade de vida (tanto quanto nossas escolhas alimentares).

Porém, também não podemos esquecer que essas medidas podem ser muito desafiadoras diante da sociedade em que vivemos e da realidade de cada um e, portanto, precisamos de uma mudança que vá além do individual.

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL