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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ácidos graxos podem ajudar na saúde de pessoas com transtorno bipolar

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

15/12/2021 04h00

Uma pesquisa da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA) sugere que o consumo de ácidos graxos (compostos dos óleos e gorduras) pode reduzir as mudanças de humor no transtorno bipolar.

Sobre os transtornos bipolares

Os transtornos bipolares (também chamados transtornos afetivos bipolares) são transtornos mentais, que apesar de serem doenças crônicas, também apresentam períodos remissivos.

Cerca de 140 milhões de pessoas no mundo todo convivem com transtornos bipolares, sendo a 17ª causa de anos de vida vividos com incapacidades.

Quem sofre com esse problema de saúde mental experimenta estados de humor cíclicos, com períodos de euforia anormalmente elevados ou deprimidos. Sentir dores também é bastante comum.

Durante os episódios agudos, regiões cerebrais responsáveis pela regulação das emoções ficam hipoativas, levando a manifestações maníacas (autoestima inflada, pouca necessidade de sono, pensamentos acelerados, falar excessivamente, gastar em excesso) ou depressivas (falta de interesse pelas atividades do dia a dia, humor depressivo, ganho ou perda de peso, aumento ou diminuição do apetite, perda de energia, culpa, dificuldade de concentração).

O tratamento consiste em psicoterapia e medicamentos. No entanto, vários estudos têm mostrado que mesmo em tratamento muitas pessoas com transtornos bipolares apresentam sintomas e instabilidade no humor, o que prediz recaídas com necessidade de aumentar a dose dos fármacos, ao mesmo tempo em que muitos pacientes experimentam efeitos adversos relacionados aos medicamentos.

Com a intenção de ajudar aqueles que sofrem com os transtornos bipolares, controlando melhor os sintomas e as recaídas, os pesquisadores do estudo tiveram como objetivo avaliar intervenções na alimentação que poderiam contribuir com a diminuição das variações de humor.

Eles estudaram especificamente os ácidos graxos poli-insaturados (os famosos ômega 3 e ômega 6), pois esses ácidos graxos constituem aproximadamente 35% das gorduras do cérebro, modulam as sinapses, têm papel importante no estresse oxidativo e na inflamação, além de papel na geração de compostos indutores de dor. Além disso, existem pesquisas mostrando que o consumo desses ácidos graxos podem estar relacionados a uma menor prevalência de transtornos bipolares.

Alimentação com mais ômega 3 e menos ômega 6

Diante disso, os pesquisadores procuraram investigar se a diminuição do ômega 6 da alimentação e um maior consumo de ômega 3 poderiam ser eficazes como um tratamento adjuvante para os transtornos bipolares.

Eles levantaram a hipótese de que mudar o tipo e a quantidade desses ácidos graxos poderia gerar metabólitos com finalidades específicas, podendo reduzir a dor ou a inflamação.

Os pesquisadores definiram uma alimentação a ser seguida em conjunto com o tratamento medicamentoso pelos 82 participantes, que tinham de 20 a 75 anos, sendo a maioria mulheres.

Alguns participantes fizeram parte do grupo controle e outros do grupo experimental. A alimentação do grupo experimental apresentou uma redução nos ácidos graxos ômega 6, presentes em carnes vermelhas, ovos e certos óleos vegetais, e aumento dos ácidos graxos ômega 3, abundantes em sementes de linhaça e peixes como atum e salmão.

Os participantes receberam alimentos estrategicamente selecionados ou formulados para atender às quantidades de nutrientes desejadas e seu conteúdo energético não deveria induzir a perda de peso.

Para que os participantes não soubessem de qual grupo faziam parte, receberam planos de refeições específicos com instruções sobre como preparar os alimentos, bem como óleos sem rótulos e alimentos selecionados com ou sem determinados tipos de gorduras.

Essas pessoas tiveram aconselhamento nutricional e aderiram a essa alimentação por um período de 12 semanas.

Duas vezes ao dia eles respondiam a pesquisas sobre humor, dor e outros sintomas e foram submetidos a exames de sangue para avaliar como os ácidos graxos e a alimentação estavam afetando-os.

Ácidos graxos podem ajudar no tratamento adjuvante dos transtornos bipolares

De acordo com o estudo, a alimentação melhorou a variação de humor nos pacientes com transtorno bipolar.

Foi percebida uma redução na variação de humor, na falta de energia e na irritabilidade do grupo que recebeu a alimentação diferenciada em relação ao grupo controle.

Os pesquisadores esclarecem que essa alimentação é segura, mas ainda não é possível recomendá-la para os pacientes que sofrem com os transtornos bipolares, pois são necessários estudos de acompanhamento, bem como tornar as recomendações facilmente aplicáveis no dia a dia das pessoas.

Também cabe lembrar que os pesquisadores não pretendem que essas recomendações sejam um tratamento para pessoas com transtornos bipolares que estão sofrendo com episódios maníacos ou depressivos, mas sim uma maneira a mais de ajudá-los a ter mais qualidade de vida e gerenciar melhor seus sintomas a longo prazo, incluindo a dor.

Além disso, ainda que seja muito interessante que o estudo utilize duas intervenções alimentares com aconselhamento nutricional e fornecimento de alimentos para ambas, ele apresenta como uma de suas limitações o tamanho pequeno da amostra. Por isso, é importante replicar a metodologia em um estudo maior. A amostra também era predominantemente feminina e a pesquisa não foi desenhada para apresentar diferenças entre os gêneros, o que pode ser avaliado em pesquisas posteriores.

Pode comer gordura, seja para os transtornos bipolares, seja para a saúde em geral

Por fim, acho muito interessante esse estudo por mostrar essa interligação entre a nossa alimentação, o nosso corpo e a nossa mente.

Na verdade, tudo parece estar em conexão. Apesar de falarmos em saúde física e saúde mental, elas não estão separadas, são duas instâncias de uma mesma coisa, a nossa saúde.

Utilizamos a alimentação para prevenir e tratar pressão alta, diabetes, doenças inflamatórias intestinais e muitas outras, mas o que comemos também parece ter uma importância enorme para os transtornos mentais, como os transtornos bipolares.

E veja só, o estudo está focado em nutrientes, os ácidos graxos, componentes das gorduras, mas em nenhum momento se fala em "cortá-las", e sim em ajustar as proporções entre tipos diferentes de ácidos graxos. Além disso, esse ajuste é avaliado na alimentação.

Dessa forma, este é mais um indício de que gordura pode comer, pois são importantes para o desempenho de diversas funções no nosso organismo e podem até ajudar no tratamento de problemas de saúde mental, como vimos no estudo.

Por isso, não demonize as gorduras, tenha uma boa alimentação, coma de tudo (mas não tudo!) e sempre cultive uma relação de paz com a comida e com o corpo!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL