PUBLICIDADE

Topo

Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulheres idosas que comem sozinhas têm maior risco de problemas no coração

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

01/12/2021 04h00

Estudo publicado na revista Menopause sugere que mulheres mais velhas que realizam suas refeições sozinhas têm maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares (DCV). Os pesquisadores mostram as consequências negativas da solidão para a alimentação e dão possíveis explicações.

Mulheres, DCV e comer sozinho

As mulheres, à medida que envelhecem, apresentam maior risco de desenvolverem doenças cardiovasculares. Parte disso devido à diminuição dos níveis do hormônio estrogênio que regula a função vascular.

No entanto, outras causas e questões estão envolvidas com o risco de doenças do coração, como o hábito de comer sozinho, bastante esquecido nas pesquisas científicas. Há relatos de que ao realizar as refeições solitariamente, a tendência é comer mais rapidamente, o que pode estar associado à obesidade, pressão alta e dislipidemias e, consequentemente, ao maior risco de síndrome metabólica e doenças cardiovasculares.

Comer sozinho também parece afetar a saúde mental e pode ser um fator de risco para depressão, que também está associada às doenças do coração.

Ao mesmo tempo, vemos em nossa sociedade que cada vez mais as pessoas comem sozinhas, inclusive porque, hoje em dia, é comum famílias compostas por uma única pessoa. Mas também encontramos facilidades como o uso de aplicativos de entrega de alimentos, além dos protocolos de distanciamento social preconizados para o controle da pandemia da covid-19.

Levando isso em consideração, os pesquisadores de universidades da Coreia do Sul resolveram investigar as diferenças de comportamentos de saúde, estado nutricional e probabilidade de desenvolver doenças do coração em mulheres idosas com e sem acompanhantes.

Estudando o risco de DCV em mulheres que comem sozinhas

O estudo utilizou dados do KNHANES 2016, o Exame Nacional de Saúde e Nutrição da Coreia, e contou com a participação de 590 mulheres na menopausa com mais de 65 anos.

Foram comparados comportamentos de saúde e estado nutricional de mulheres que comem sozinhas aos daquelas que comem em companhia, e a relação disso com as doenças cardiovasculares.

As participantes foram divididas em dois grupos. Aquelas que realizavam mais de duas refeições por dia solitariamente foram consideradas do grupo "comer sozinha" e as que faziam mais de duas refeições por dia na companhia de outras pessoas foram designadas para o grupo "comer junto".

Percebeu-se que as mulheres que comiam sozinhas tinham menos consciência dos rótulos nutricionais, utilizavam-nos com menor frequência e eram menos impactadas pelas informações contidas neles do que aquelas que comiam em companhia. Aquelas que comiam sozinhas também tiveram uma menor ingestão de energia, carboidratos, fibra alimentar, sódio e potássio.

Além disso, a probabilidade de ter angina (um tipo de dor no peito causada pela redução do fluxo sanguíneo para o coração, sintoma relacionado a doença arterial coronariana) foi 2,58 vezes maior no grupo de mulheres que comiam sozinhas.

Com isso, os pesquisadores concluíram que as mulheres que comiam sozinhas tinham menos conhecimento nutricional e ingestão alimentar insuficiente, além de maior probabilidade de ter doenças cardiovasculares. Com isso, consideram necessário rastrear as doenças cardiovasculares e pensar em uma educação alimentar e nutricional específica para esse público.

Como comer mais junto?

Apesar de comer junto ser muito importante para a nossa saúde e nossa vida em geral, encontramos diversas dificuldades para praticar a refeição em companhia. O que fazer para transpô-las?

O Guia Alimentar para a População Brasileira, por exemplo, tem um capítulo inteiro só sobre isso e nos dá três recomendações: comer com regularidade e atenção, comer em ambientes apropriados e, sempre que possível, comer em (boa) companhia. Mas além disso, outras dicas podem ser seguidas. Confira-as abaixo:

  • Comer com regularidade e atenção: tenha horários regulares para fazer suas refeições e quando chegar o momento, coma com tranquilidade, saboreando a comida sem realizar outras atividades ao mesmo tempo, como ficar no celular ou resolver pendências do trabalho;
  • Comer em ambientes apropriados: torne o ambiente da refeição confortável. Isso contribui para comer com mais prazer e ter uma refeição tranquila. Arrume a mesa, deixe o lugar limpo e se quiser pode até colocar uma música ambiente para deixar tudo mais agradável;
  • Comer em companhia sempre que possível: nem sempre dá para comer em família, pois os familiares geralmente apresentam diferentes atividades e horários, sendo complicado reunir todo mundo para uma refeição em comum. Além disso, como já disse, muita gente mora sozinha. Nesses casos, como comer em companhia? Você pode reunir-se com amigos próximos e colegas de trabalho e aproveitar o momento com eles. E quando não for uma opção estar perto daqueles de que gosta, como na necessidade de distanciamento social, é possível fazer uso da tecnologia. Experimente fazer uma chamada de vídeo durante o almoço ou jantar e partilhar uma refeição com quem está distante;
  • Dividir as tarefas domésticas: quando tornou-se comum a mulher entrar no mercado de trabalho, passamos a comer mais sozinhos, pois a tarefa de cozinhar, considerada feminina, precisou ser delegada também aos restaurantes e produtos industrializados. Perdemos muito com isso, pois cozinhar nos dá autonomia e permite que tenhamos mais consciência do que comemos. Para mudar um pouco essa situação, é importante que o ato de cozinhar e as atividades associadas (limpar, fazer compras, lavar louça, cortar e lavar legumes e verduras) sejam redistribuídas, pois todos, homens ou mulheres, podem cozinhar e se beneficiar disso;
  • Ter boas companhias e ser uma boa companhia à mesa: além de bom para a saúde, comer junto pode ser muito prazeroso. Mas é importante que tenhamos boas companhias no momento das refeições. Nada de fiscais de prato por perto, muito menos de fiscalizar o que o outro está comendo. Comer junto não deve ser espaço para falar sobre dietas restritivas, e comentários sobre o prato ou sobre o corpo do outro pode ser bem indigesto e gerar culpa. Cada um tem liberdade para comer o que quer e na quantidade que deseja e deve fazê-lo. Ouça seus sinais de fome e saciedade, comendo quando sentir que o corpo necessita de combustível e parando de comer quando perceber que está saciado e aproveite a refeição.

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL