PUBLICIDADE

Topo

Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que seu bebê está comendo? Fique atento aos industrializados

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do VivaBem

20/10/2021 04h00

Um estudo publicado na revista científica Nutrients buscou fornecer uma visão geral do conteúdo de energia e nutrientes dos alimentos para bebês lançados no mercado europeu, bem como do grau de processamento, encontrando altas proporções de alimentos com açúcares adicionados ou que são ultraprocessados.

Analisando alimentos para bebês

Os pesquisadores usaram o Banco de Dados Global de Novos Produtos da empresa Mintel para obter uma visão geral dos alimentos para bebês lançados ou relançados nos mercados europeus entre março de 2017 e março de 2021 em 24 Estados-Membros da União Europeia, Noruega, Suíça e Reino Unido.

Os alimentos foram classificados em sete categorias: cereais infantis; biscoitos e bolachas; sucos e bebidas; produtos de frutas, sobremesas e iogurtes; lanches; refeições e pratos salgados; e outros alimentos para bebês.

Para cada um dos alimentos, foram obtidas informações quanto ao conteúdo nutricional, lista de ingredientes, sabores, presença de alérgenos e declarações de posicionamento.

Inicialmente, 4649 produtos foram identificados na categoria "alimentos para bebês", tendo sido excluídos leites e fórmulas infantis, de modo que, efetivamente, 3427 alimentos foram incluídos na análise.

Os pesquisadores coletaram dados de informações nutricionais referentes a calorias, proteínas, gorduras totais, gorduras saturadas, carboidratos, açúcares totais, fibras e sódio.

O termo "perfil nutricional" foi usado para se referir ao conteúdo geral dos alimentos quanto a esses nutrientes. Aqueles com maior teor de energia ou nutrientes de interesse (gorduras, açúcares totais e sódio) foram referidos como alimentos com um "perfil nutricional menos desejável".

Para avaliar o uso de ingredientes contribuintes com o açúcar, eles examinaram a lista de ingredientes dos produtos incluídos na análise final e identificaram quais deles continham açúcares adicionados, açúcares livres, purês e pós de frutas e vegetais, uma vez que a transformação do alimento em purê quebra as paredes celulares de frutas e verduras criando açúcares livres prontamente disponíveis.

Além disso, utilizaram a lista de ingredientes para categorizar os alimentos com base no sistema de classificação NOVA da seguinte forma: minimamente processados, processados e ultraprocessados.

Alimentos cuja lista de ingredientes incluía apenas alimentos não processados, como frutas e verduras, foram classificados como minimamente processados. Aqueles com ingredientes culinários, como sal, açúcar e gorduras, foram classificados como processados. E quando a lista de ingredientes continha aditivos, cuja função era realçar o sabor, cor ou textura (aromatizantes, corantes e emulsificantes) o alimento foi classificado como ultraprocessado.

Os pesquisadores também extraíram informações sobre a presença de declarações de posicionamento de nutrientes ("baixo em", "sem adição", "alto em", "fortificado com", etc.). Uma variável "sem ingrediente artificial" foi criada para incluir qualquer produto que contivesse pelo menos uma declaração sobre ser livre de "aditivos artificiais", "corantes artificiais", "aromatizantes artificiais" ou "conservantes artificiais".

Alimentos para bebês comercializados não parecem adequados para essa fase da vida

Quanto aos resultados:

A maioria dos alimentos para bebês (75,8%) enquadraram-se na categoria "produtos de fruta, sobremesas e iogurtes", "refeições e pratos salgados" e "cereais" para bebês.
No total, 38,5% dos produtos continham pelo menos um ingrediente açucarado.
Cerca de 10% dos produtos listavam um açúcar adicionado.
Quase 25% dos produtos tinham açúcar livre.
Aproximadamente 20% dos produtos apresentaram purês de frutas e vegetais e pós como ingrediente.
Metade dos produtos tinha uma declaração de posicionamento "sem adição de açúcares". No entanto, entre estes, quase 35% tinham açúcar livre, purês de frutas e vegetais e pós como ingredientes adicionados.

Em relação à classificação do processamento, 46,3% dos produtos eram minimamente processados, 24,5% processados sem ingrediente artificial", no entanto, entre estes, 31,4% eram ultraprocessados.
A análise mostrou que, dentro de cada categoria de alimentos, produtos com açúcares como ingrediente adicionado tinham um perfil nutricional menos desejável em comparação com aqueles que não tinham ingredientes que contribuíam para aumentar o teor de açúcar.

Os resultados para o nível de processamento foram semelhantes. Na maioria das categorias de alimentos, os alimentos ultraprocessados os minimamente processados

De acordo com os pesquisadores, os resultados encontrados são semelhantes a pesquisas de outros lugares do mundo, incluindo o Brasil.

Qual o problema em oferecer alimentos para bebês ultraprocessados e com açúcares?

O aleitamento materno exclusivo é a forma preferencial e recomendada de nutrição para bebês nos primeiros 6 meses de vida. Após o sexto mês, eles devem iniciar uma introdução alimentar baseada em alimentos que incluem de preferência comida fresca, variada, sem açúcares, nem sal (que pode ser adicionado à comida em pequenas quantidades a partir de 1 ano de idade) e nem aditivos alimentares.

E mesmo após os 2 anos de idade, quando a criança já pode comer praticamente tudo, é importante que sal, gorduras e açúcares sejam consumidos com muita moderação.

No entanto, nas últimas décadas, alimentos e bebidas ultraprocessados tornaram-se amplamente disponíveis no mundo todo. Trazem a vantagem de serem práticos e convenientes para uma sociedade que está sempre reclamando da falta de tempo, mas geralmente apresentam alta densidade energética e quantidades excessivas de açúcares, gorduras e sódio.

Seu consumo na infância tem sido associado a um maior risco de desenvolver doenças crônicas e excesso de peso, ainda que os fatores causais ainda não sejam conhecidos.

Se é importante que o adulto coma melhor, ou seja, tenha uma alimentação variada, com alimentos de todos os grupos alimentares e tendo como base a comida fresca e caseira, quando se trata de bebês e crianças, a qualidade da alimentação torna-se ainda mais importante, pois nesta fase da vida elas estão formando seus hábitos.

Oferecer às crianças alimentos frescos, caseiros e variados desde cedo estabelece as bases para o desenvolvimento de suas preferências alimentares e para a adoção de bons hábitos alimentares durante a adolescência e a idade adulta.

A adoção de padrões alimentares ricos em alimentos com açúcares como ingredientes adicionados ou ricos em ultraprocessados pode afetar as preferências alimentares das crianças e aumentar sua predileção ao longo da vida por alimentos hiperpalatáveis que são ricos em açúcares, gorduras ou sódio. Por isso a importância de reduzir o consumo dos ultraprocessados.

No entanto, outro problema que o estudo apresenta diz respeito ao fato de sermos, de certa forma, enganados pela indústria quando ela oferece um alimento ultraprocessado, mas o rotula como "sem ingrediente artificial", ou "sem adição de açúcar", apesar de apresentarem açúcares livres.

Assim, percebemos que a alimentação apresenta uma vertente política, que vai muito além da nossa responsabilidade individual e escolhas alimentares. Por isso, são necessárias regras de rotulagem difíceis de serem burladas pela indústria, políticas públicas que permitam um maior acesso (físico e financeiro) à comida fresca e menos processada, menor oferta de alimentos ultraprocessados, e que as empresas sejam pressionadas a fornecerem alimentos industrializados de melhor qualidade.

Individualmente, no entanto, é preciso buscar comer melhor e oferecer uma boa alimentação aos pequenos, sem proibir os alimentos processados ou, até mesmo, os ultraprocessados, mas reduzindo seu consumo na alimentação infantil e de toda a família. E claro, sempre dizendo não às dietas restritivas para crianças e cultivando desde a infância uma boa relação com a comida e com o corpo.

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL