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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que pode acontecer se só comermos ultraprocessados?

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

04/08/2021 04h00

Os alimentos ultraprocessados não são vilões. É possível consumi-los no contexto de uma alimentação saudável. No entanto, ingeri-los em excesso ou torná-los a base da nossa alimentação pode ser problemático. Alguns estudos mostram sua contribuição para as doenças crônicas não transmissíveis e obesidade e indicam mecanismos para seus efeitos.

Diante disso, Chris Van Tulleken, médico britânico e apresentador do programa de televisão "What are we feeding our kids?", no qual investiga se os alimentos ultraprocessados estão causando obesidade em crianças, realizou um experimento consigo mesmo. Para isso, ele aumentou de 30% para 80% seu consumo usual de alimentos ultraprocessados durante um mês.

O experimento de Chris para investigar os efeitos dos ultraprocessados

De forma semelhante a Morgan Spurlock, que se alimentou por um mês apenas de comidas produzidas pelo McDonald's e relatou a experiência no "Super Size Me: a Dieta do Palhaço", Chris aderiu por um mês a uma alimentação baseada em alimentos ultraprocessados, muitos deles de alta densidade energética (nuggets de frango, lasanha congelada, cereais matinais, pizzas prontas), e outros comercializados como alimentos saudáveis (lanches de baixa caloria, pães, cereais, biscoitos).

Ele contou com a ajuda da professora Rachel Batterham, especialista em obesidade, diabetes e endrocrinologia do Univesity College London Hospital. Ela registrou peso e composição corporal, testou níveis de hormônios intestinais que sinalizam para o cérebro quando estamos com fome e saciados (como grelina e leptina) e fez uma ressonância magnética do seu cérebro.

Possíveis efeitos de consumir ultraprocessados demais

Chris contou sua experiência no Daily Mail Online. Ele deveria comer livremente, mas não estava tentando comer demais, apenas comia sempre que sentia fome, o que era cada vez mais frequente. No primeiro dia sua refeição foi nuggets de frango, sua comida preferida da infância, mas raramente consumida quando adulto. Agora, com liberdade para consumi-la, ingeria metade das calorias do seu dia em poucos minutos.

De acordo com seu relato, sentiu-se 10 anos mais velho e apresentou diversos efeitos na sua saúde, como dormir mal, azia, ansiedade, sensação de infelicidade, baixa libido e hemorroidas devido à prisão de ventre. Nas quatro semanas do experimento ele também ganhou peso: 6,5 kg no total, sendo 3 kg de gordura.

Gosto de dizer que alimentação equilibrada começa na cabeça e o experimento de Chris corrobora com essa ideia. Os resultados da ressonância magnética mostraram um cérebro "hiperconectado", ou seja, com mais conexões do que antes, mas estas estavam mais concentradas nas áreas de recompensa, que conduzem a comportamentos automáticos e repetitivos. Chris explica que desse modo seu cérebro se preparou para procurar ultraprocessados. E mesmo ao interromper a alimentação ultraprocessada, as imagens cerebrais mostraram que essas conexões seguiam funcionando.

Essa é uma possível explicação para o fato de ser tão difícil parar de comer ultraprocessados. Mas o que geraria esse efeito no cérebro? Pesquisadores mostram que é a combinação de nutrientes, principalmente gorduras e carboidratos, que os tornam muito gratificantes. Sem falar no sal e aditivos alimentares. Talvez por isso também Chris relate que comer era algo que fazia meio sem sentir.

Além disso, foi observado um aumento de 30% nos hormônios da fome e uma diminuição igualmente significativa nos hormônios da saciedade.

Estudo com ultraprocessados inspirou experimento

O experimento que Chris realizou em si próprio é bem parecido com uma pesquisa experimental publicada na revista Cell Metabolism e liderada por Kevin D. Hall, do Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais, Bethesda, Maryland, nos Estados Unidos.

A pesquisa tinha como objetivo investigar se os alimentos ultraprocessados afetam a ingestão de energia. Para isso, contou com a participação de 20 voluntários adultos que foram admitidos no hospital NIH Clinical Center, onde receberam, aleatoriamente, uma alimentação rica em alimentos ultraprocessados ou uma alimentação não processada, por 14 dias, seguidas de uma alimentação alternativa pelo mesmo período de tempo.

Cada tipo de alimentação foi planejado para oferecer a mesma combinação de calorias, açúcares, gorduras, proteínas e fibras.

Os voluntários eram apresentados a três refeições diárias e, assim como Chris, deveriam consumir os alimentos livremente.

Os pesquisadores observaram que a maior ingestão energética média aconteceu no grupo que recebeu a alimentação ultraprocessada, com cerca de 500 calorias por dia a mais que a alimentação não processada e um aumento na ingestão de carboidratos, gorduras, mas não de proteínas.

As mudanças de peso corporal foram correlacionadas com as diferenças da ingestão de energia e do tipo de alimentos consumidos. O grupo da alimentação ultraprocessada ganhou cerca de 900 g, enquanto o grupo da alimentação não processada perdeu aproximadamente o mesmo.

Sem tirar a importância dos resultados encontrados, vale lembrar que o estudo foi realizado com uma pequena amostra de pessoas e apresenta diversas limitações, apontando para a necessidade de que mais pesquisas sobre o tema sejam desenvolvidas.

A solução é eliminar os ultraprocessados?

Esse experimento de Chris, ainda que não científico, é muito interessante, pois aponta que ter uma alimentação saudável não é só uma responsabilidade pessoal.

Dessa forma, não acredito que a solução seja eliminar a todo custo os alimentos ultraprocessados. Inclusive, tudo o que é proibido parece ser mais gostoso. Se você já fez uma dieta restritiva, sentiu na pele os efeitos de se proibir de comer algo e sabe do que estou falando.

Individualmente, acredito ser muito importante comer melhor e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados. Ou seja, eles não devem ser a base da alimentação, mas também não precisam estar banidos dela e vistos como vilões.

Mas também percebo que são necessárias mudanças mais profundas e coletivas no nosso ambiente alimentar, para que a decisão individual de diminuir o consumo de ultraprocessados possa realmente ser concretizada.

Ou seja, devem existir políticas públicas para aumentar a oferta de alimentos in natura e, assim, reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados. Se estes não devem ser a base da alimentação, também não devem ser os mais ofertados. Concorda?

Além de ofertar mais comida de qualidade, ela precisa ser acessível. Você já deve ter reparado que muitos alimentos ultraprocessados conseguem ter um preço bastante competitivo quando comparados aos alimentos in natura. Dar subsídios aos alimentos saudáveis e taxar os alimentos ultraprocessados é uma sugestão que poderia ajudar muito nisso. Outras ações envolvem a regulação da publicidade dos ultraprocessados, extremamente atraentes e presentes nos grandes veículos de comunicação.

Também há muitas coisas que podemos fazer individualmente, mas com medidas desse tipo sendo adotadas fica mais fácil fazer boas escolhas alimentares, aderir a bons hábitos alimentares e ficar em paz com a comida!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL