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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Obesidade em pets está aumentando, e não apenas por causa da covid-19

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

28/07/2021 04h00

Desde o início da pandemia da covid-19 há quem tenha adotado o hábito de cozinhar mais e se a alimentar melhor, mas muita gente também relata estar descontando suas emoções na comida (o chamado comer ou fome emocional), desejando alimentos mais recompensadores (como aqueles ricos em açúcares), comendo exageradamente e, diante desse momento delicado, não é de se estranhar que algumas pessoas tenham ganhado peso.

Curiosamente, esse ganho de peso também foi percebido nos animais de estimação. É o que mostram os dados do Banfield Pet Hospital. Essa rede norte-americana pioneira em cuidados veterinários preocupou-se quanto ao modo como a pandemia impacta a saúde dos pets e realizou uma pesquisa, mostrando um aumento de 108% de cães e de 114% de gatos diagnosticados com sobrepeso e obesidade nos últimos 10 anos, indicando que o problema já estava presente antes da pandemia.

Cresce o número de cães e gatos com excesso de peso

O Banfield Pet Hospital tem um sistema eletrônico de registro de saúde veterinária que confirma as suspeitas de ganho de peso entre cães e gatos de estimação durante a pandemia. No entanto, os dados mostram, na verdade, que mesmo antes da quarentena esses animais já vinham sendo diagnosticados com sobrepeso e obesidade.

Os registros de saúde de milhões de animais de estimação atendidos pela clínica foram analisados. Os dados mostraram que em 2011, 16% dos cães foram diagnosticados com sobrepeso e obesidade, enquanto em 2020 esse número saltou para 34%, sendo verificado um aumento de 108%. Entre os gatos o aumento foi ainda maior. Em 2011, 18% dos gatos estavam com excesso de peso e em 2020, 38%, observando-se um aumento de 114%.

Analisando o período de março de 2020 a dezembro de 2020, quando já vivenciávamos a pandemia, observou-se que o número de cães com excesso de peso aumentou 2,3%, sendo o maior aumento dos últimos 10 anos.

Riscos do sobrepeso e da obesidade para os pets

A partir dos dados coletados em 2020, o Banfield Pet Hospital também percebeu que, em comparação com os animais de estimação sem excesso de peso, os cães e gatos diagnosticados com sobrepeso e obesidade apresentaram maior probabilidade de apresentar outras doenças.

De acordo com a pesquisa, os cães com excesso de peso têm quase 4 vezes mais risco de apresentar problemas de pele, como infecções; os gatos, 7 vezes mais.

Quanto ao risco de sofrerem com diabetes e hipotireoidismo, os cães apresentam uma ameaça 4 vezes maior e os gatos, 5 vezes.

Particularmente, os cães com excesso de peso têm 3 vezes mais risco de apresentarem problemas ortopédicos, de mobilidade e lesões ósseas e articulares. Mais de 150 mil deles são diagnosticados com artrite (inflamação nas articulações) a cada ano.

Enquanto os gatos com sobrepeso ou obesidade parecem ter 4 vezes mais risco de apresentarem problemas urinários, como cálculos renais.

Além disso, um cão ou um gato com excesso de peso tem um risco de 2 a 4 vezes maior de ter problemas respiratórios, entre eles asma e bronquite.

Quais as explicações para o aumento de peso entre pets?

Ainda não temos uma resposta definitiva para o aumento do excesso de peso entre animais de estimação. Vale lembrar que existem inúmeros fatores que podem afetar o peso dos animais, do mesmo modo que percebemos entre os seres humanos.

Mas para tentar entender melhor essa situação, o Banfield Pet Hospital entrevistou 1.000 tutores de pets nos Estados Unidos.

Em primeiro lugar, 1 a cada 10 entrevistados discordaram da afirmação de que existem hoje em dia mais animais de estimação acima do peso do que 10 anos atrás. De acordo com a rede de hospital veterinário responsável pela pesquisa, esse resultado aponta para a necessidade de conscientização dos tutores.

Entre os tutores com animais de estimação com sobrepeso e obesidade, 95% disseram se preocupar com os riscos do excesso de peso, mas 93% enfrentam obstáculos para manter um peso saudável do gato ou do cão.

Entre os motivos relatados:

  • 46% afirmaram ceder quando o pet implora por comida;
  • 30% não sabe as melhores estratégias para perda de peso do animal de estimação;
  • 29% relataram problemas para levar o pet para se exercitar, devido aos seus próprios problemas de saúde e mobilidade;
  • 26% afirmaram não ter tempo suficiente para levar o seu animal de estimação para se movimentar;
  • 23% não prestam muita atenção à alimentação do pet.

Além disso, 41% afirmaram adiar uma visita ao médico veterinário para evitar falar sobre o peso do animal. Isso é muito interessante, já que muitas pessoas que sofrem com a obesidade evitam buscar profissionais de saúde por se sentirem estigmatizados, o que acaba atrasando o tratamento de diversos problemas de saúde.

Pet com excesso de peso é reflexo do comportamento alimentar dos tutores?

As pessoas vivem diversos dilemas quanto à alimentação. Estão sempre em busca do melhor alimento para a saúde, a fórmula milagrosa para emagrecer, cortando carboidratos, retirando o glúten e entrando no ciclo vicioso das dietas restritivas. Assim, o ato de comer, tão frequente do nosso dia a dia, pode acabar gerando muita ansiedade e angústia. Pois não sabemos o que comer, e vale lembrar que somos o que comemos.

Toda essa relação conturbada com a comida, a restrição alimentar, a grande oferta de alimentos ultraprocessados (aqueles atrativos e difíceis de parar de comer pela sua combinação de gorduras, carboidratos e presença de aditivos alimentares) e o baixo consumo de comida fresca podem contribuir para a obesidade.

Que as pessoas passam por esses problemas com a alimentação e peso nós já sabemos há um bom tempo. E por isso mesmo não é de se estranhar que os animais de estimação possam estar sofrendo as consequências das mesmas questões alimentares que nos afetam.

Acredito que estamos muito desconectados com a comida e o corpo, de modo que o nosso comportamento alimentar pode acabar refletindo na alimentação dos animais de estimação.

Do mesmo modo que a indústria de alimentos está enchendo o mercado de alimentos ultraprocessados (muitos deles oferecidos aos pets pelos próprios tutores), light, diet, "naturais", sem glúten, sem lactose, os produtores de rações para animais também enchem as prateleiras com rações vegana, light, low carb, enriquecidas com vitaminas e minerais e muitas delas também com aditivos alimentares.

Acredito que o melhor caminho é buscar uma relação de paz com a comida e o corpo, comendo de tudo (mas não tudo!), respeitando a fome e consumindo mais comida fresca e caseira.

Acredito que assim é possível ter mais saúde, qualidade de vida e contribuir para um peso saudável (ou seja, não aquele peso ideal calculado a partir do IMC, mas sim aquele peso que nos faz sentir bem e com saúde quando adotamos um estilo de vida saudável); e assim também influenciar a saúde e o comportamento daqueles que temos por perto, incluindo os nossos pets!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL