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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

5 razões para não ter medo das gorduras

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

14/04/2021 04h00

Vivemos em uma sociedade gordofóbica, ou seja, que não gosta e até mesmo tem medo da gordura, esteja ela no corpo ou na comida.

Dessa forma, as gorduras são vistas como vilãs, associadas à obesidade e a doenças do coração. Mas elas não merecem essa má reputação, pois são muito importantes para a nossa saúde. A seguir você encontra cinco razões para não ter medo das gorduras.

1. As gorduras constituem as membranas das células e atuam na produção de hormônios

As gorduras desempenham diversas funções importantes para o nosso organismo. Uma delas é constituir as estruturas das membranas celulares a partir dos fosfolipídios e do colesterol, este último também precursor da vitamina D e de hormônios esteroides (como o estrógeno e a progesterona). Ou seja, precisamos de gorduras na nossa alimentação!

2. Contribuem para a absorção de vitaminas

Existem as vitaminas solúveis em água, como a vitamina C e as do complexo B, que são eliminadas facilmente quando ingeridas em excesso, e as vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, solúveis em gorduras, ou seja, que necessitam de gorduras para serem melhor absorvidas pelo organismo e serem armazenadas no tecido adiposo e no fígado.

Essas vitaminas têm funções importantíssimas. A vitamina A atua na nossa imunidade e na visão; a vitamina D (hoje considerada um hormônio) tem funções endócrinas e regula o metabolismo do cálcio e do fósforo, sendo importante na mineralização óssea; a vitamina E é um importante antioxidante; a vitamina K tem um papel na coagulação do sangue.

Se a alimentação é "zero gordura", essas atividades muito provavelmente ficarão prejudicadas. Será como ter um carro com o tanque cheio, mas sem alguém que possa dirigi-lo.

3. São boas fontes de energia, mas por si só não fazem você engordar

As gorduras contêm muita energia e por isso foram demonizadas. Enquanto 1 grama de carboidratos ou de proteínas fornece 4 kcal, a mesma quantidade de gordura fornece 9 kcal. Talvez por isso muita gente, inclusive profissionais de saúde, pense que a gordura é mesmo uma vilã e que precisamos evitar a qualquer custo.

Mas, na verdade, todas essas calorias tornam a gordura uma fonte de energia eficiente e a forma de armazenamento energético mais importante no corpo. Elas podem ser armazenadas na forma de triglicerídeos e utilizadas quando necessário.

Por si só, a gordura também não faz você ganhar peso. Se você parar para pensar, mesmo que muito energéticas, usamos as fontes de gorduras, como azeite de oliva ou manteiga, para cozinhar ou temperar os alimentos, em quantidades moderadas.

O problema é quando temos excesso de gordura e ela passa a ser armazenada em grandes quantidades, podendo contribuir para problemas de saúde.

4. Podem ajudar na saúde do cérebro

Estudos mostram uma associação entre o consumo de alimentos ricos em gorduras, como nozes, peixes e azeite de oliva, e um menor risco de desenvolver a doença de Alzheimer, depressão e perda de memória.

Entre as explicações para esses efeitos, os estudiosos apontam a capacidade de as gorduras presentes nesses alimentos atenuarem inflamações, o que também é importante para prevenir doenças cardiovasculares.

5. Tornam os alimentos mais saborosos e aumentam a saciedade

As gorduras também tornam os alimentos mais gostosos. Basta perceber como uma salada fica muito mais agradável ao ser regada com azeite de oliva, o mesmo acontece quando passamos manteiga no pão.

A indústria faz uso dessa propriedade das gorduras para tornar os alimentos ultraprocessados mais palatáveis e pode acabar nos fazendo comer em excesso. Mas quando utilizadas em quantidade moderadas, para dar sabor aos alimentos, as gorduras contribuem muito para uma alimentação prazerosa e, como sabemos, prazer também é saúde.

Consuma gorduras de melhor qualidade, e não menos gorduras

Com essas cinco razões para não ter medo das gorduras, quero dizer que você não deve cortar da alimentação esse nutriente tão importante para o desenvolvimento de funções indispensáveis no nosso organismo.

Também não estou dizendo que deve exagerar nas gorduras. Mas não precisa focar tanto na quantidade de gordura que você consome, e sim na qualidade delas e dos alimentos.

Para isso, considere a existência de quatro tipos de gorduras:

Gorduras saturadas: presentes em alimentos de origem animal como manteiga, carnes vermelhas, laticínios, mas também em alimentos de origem vegetal, como óleo de coco, dendê e manteiga de cacau. Nas últimas décadas fala-se muito em reduzir o consumo dessas gorduras, pois em excesso podem elevar os níveis de LDL no sangue (responsável por levar o colesterol do fígado para os tecidos) e aumentar o risco de doenças do coração. Hoje, essas recomendações são questionadas, pois diminuir muito esse tipo de gordura pode nos fazer consumir carboidratos em grandes quantidades. Dessa forma, em vez de cortar as saturadas, o melhor é consumi-las sem exagerar.

Gorduras trans: também podem aumentar o colesterol LDL e diminuir o colesterol HDL (responsável por levar o excesso de colesterol dos tecidos para o fígado). Esse tipo de gordura pode estar presente nas carnes e nos laticínios de animais ruminantes, como bovinos, formando-se naturalmente pela ação de bactérias envolvidas na digestão desses animais. Porém, as gorduras trans também são encontradas abundantemente nos alimentos industrializados, como a margarina. Nesse caso, óleos vegetais passam por um processo industrial com adição de hidrogênio às suas moléculas (hidrogenação), tornando-os sólidos à temperatura ambiente. O consumo desse tipo de gordura deve ser reduzido ao máximo, sendo importante estar de olho nos rótulos dos alimentos. Muitos países já proibiram a indústria alimentícia de usá-los.

Colesterol: está presente em alimentos de origem animal, como leite e derivados, ovos, carnes, aves e frutos do mar. Apesar de antigamente se falar muito para ter cuidado com ele, hoje sabemos que o colesterol da alimentação não tem muita influência na concentração de colesterol sanguíneo, nem no desenvolvimento de doenças do coração. Pode comer ovo, sim!

Gorduras insaturadas: são de dois tipos, os poli-insaturados, representados pelas séries ômega 3, ômega 6 (presentes em óleos vegetais, como óleo de soja e canola) os monoinsaturados, o ômega 9 (presente no azeite de oliva, óleo de canola, abacate, castanhas, nozes e amêndoas). Todos eles são conhecidos por apresentarem benefícios na prevenção de doenças do coração, reduzindo LDL e aumentando o HDL. A consumir com moderação, sempre!

Conhecendo os tipos de gordura fica mais fácil ter uma alimentação de melhor qualidade. Reduza os alimentos ultraprocessados e gorduras como margarina e gordura vegetal hidrogenada, que contêm gorduras trans.

Ao mesmo tempo, busque alimentos in natura como nozes, sementes, frutas, vegetais, cereais, carnes, peixes, leite e laticínios, ovos e boas opções de gorduras (como azeite de oliva, óleos vegetais e manteiga) para cozinhar mais comida fresca e caseira e estar em paz com a comida!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL