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Blog da Sophie Deram

Segundo estudo, nem toda perda de peso é benéfica

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

16/12/2020 04h00

O diabetes tipo 2 é uma doença crônica que tem aumentado no mundo todo. Seu crescimento está associado ao excesso de peso e a um risco maior de desenvolver doenças cardiovasculares, como infarto e insuficiência cardíaca.

O tratamento do diabetes tipo 2, como também das doenças cardiovasculares em geral, envolve mudanças no estilo de vida, o que inclui melhorias na alimentação e a prática de atividade física. Pode envolver também um tratamento medicamentoso.

No entanto, na maioria dos casos, as intervenções acabam mais focadas na perda de peso em si. É quase como um imperativo médico que faz coro com toda a sociedade: "Você precisa perder peso". Mas será que simplesmente emagrecer contribui para a melhora desses problemas de saúde?

O estudo Look Ahead (Action for Health in Diabetes) mostrou que não necessariamente. Seus resultados concluíram que nem toda perda de peso é benéfica para pessoas com o diabetes tipo 2 e que apresentam risco maior de desenvolver doenças cardiovasculares.

Sobre a perda de peso no estudo Look Ahead

O Look Ahead é um estudo que avaliou os efeitos de uma intervenção no estilo de vida, com foco na perda de peso e aumento da atividade física, em comparação à oferta de apoio e educação a 5145 adultos que sofriam com diabetes tipo 2 e que tinham sobrepeso e obesidade.

Essas mesmas pessoas foram avaliadas quanto à massa gorda (a gordura corporal), massa magra (que inclui, além dos músculos, ossos, tecidos moles e vísceras) e circunferência da cintura, que identifica a presença de obesidade central ou visceral (com a gordura concentrada entre os órgãos) e sugere risco para desenvolver doenças do coração.

Os voluntários foram avaliados quanto a essas variáveis no início do estudo e quatro anos depois. Além disso, foram acompanhados quanto à saúde cardiovascular por 12 anos.

De acordo com os achados da pesquisa, 257 pessoas desenvolveram insuficiência cardíaca no período do acompanhamento. Os pesquisadores mostraram que: o risco de desenvolver insuficiência cardíaca foi reduzido com a redução da massa gorda e da circunferência da cintura; e uma redução de 10% na gordura corporal levou a uma diminuição de 22% no risco de hospitalização por insuficiência cardíaca.

Por outro lado, uma redução da massa magra, apesar de levar a uma perda de peso, não teve impacto sobre a diminuição do risco de insuficiência cardíaca.

Vários mecanismos podem explicar esses resultados, como um efeito direto da perda de massa gorda e gordura central na estrutura e função do coração, como também na modulação cardíaca. Isso também pode ter relação com mudanças na inflamação, adipocinas (moléculas secretadas pelo tecido adiposo que podem funcionar como hormônios) e vias neuro-hormonais que podem ser ativadas com a redução na massa gorda e contribuir para a saúde do coração.

Em conjunto, os resultados do estudo sugerem que a perda de massa gorda e gordura central podem ser alvos modificáveis

O que podemos aprender sobre perda de peso com o estudo

De acordo com os autores, mais estudos que corroborem com seus achados são necessários, mas os resultados têm implicações importantes.

Eles mostram que os efeitos benéficos da perda de peso variam entre os diferentes componentes da composição corporal, como a massa gorda e massa magra. Com isso, temos alguns ensinamentos:

  1. IMC (Índice de Massa Corporal) nem sempre é o melhor parâmetro. Ainda que o IMC seja um método barato e rápido, não necessariamente é o melhor método para avaliar a saúde. Ele está mais focado no peso e não vai considerar os elementos da composição corporal, ou seja, não vai diferenciar entre massa gorda e massa magra, e isso tem relação com as nossas respostas cárdio metabólicas. Depósitos específicos de gordura, como a adiposidade visceral ou central, serão particularmente prejudiciais para a saúde cardiovascular, mas não são identificados pelo IMC.
  2. Perda de peso por si só não é o melhor caminho. O Look Ahead mostra que simplesmente perder peso não trará benefícios para a nossa saúde. Por isso, não vale a pena fazer dietas restritivas, que em geral promovem perda de peso rápida, seguida de efeito sanfona e com risco de perda de massa magra, o que não é desejável para a saúde do coração.
  3. A gordura não é vilã. Por fim, é bom esclarecer que, a perda de gordura corporal é benéfica, mas isso não quer dizer que é necessário excluir toda a gordura do corpo. O tecido adiposo é muito importante para desenvolver diversas funções no nosso corpo. Por isso, lembre-se dos resultados: uma redução de 10% na massa gorda diminuiu em mais que o dobro o risco de desenvolver insuficiência cardíaca.

Mais foco na saúde e menos foco no peso

Já falei aqui sobre a necessidade de um novo olhar sobre obesidade e acredito que essa outra forma de cuidar estende-se para as doenças do coração e o diabetes tipo 2 que estão associadas com o excesso de peso.

Como já disse anteriormente, para o tratamento desses problemas, os profissionais de saúde costumam recomendar a perda de peso. No entanto, vimos que nem toda perda de peso é benéfica.

Por isso, o melhor a se fazer é tirar o peso do peso e buscar um aconselhamento para os pacientes que seja sustentável (que possa acontecer por muito tempo), possível (nem sempre podemos fazer o ideal, mas sempre podemos fazer algo. Pequenas mudanças podem ser muito benéficas. Não precisa de toda essa cobrança por uma perda rápida de peso, ou por uma alimentação ou estilo de vida perfeitos), e adequada para cada pessoa (que considere as particularidades de cada um, seus desejos e anseios).

Por isso, em vez de focar na perda de peso à qualquer custo de saúde, é interessante focar em:

  1. Comer melhor: isso diz respeito a um melhor comportamento alimentar e a consumir alimentos de todos os grupos alimentares, dando preferência à comida fresca e caseira. Pode comer de tudo, mas não tudo.
  2. Ser ativo: praticar atividade física contribui, e muito, para a melhora da saúde, pode auxiliar na perda de gordura corporal e é uma forma de ter mais bem-estar e qualidade de vida. Escolher uma atividade que proporcione prazer para você irá contribuir para que tenha mais constância na prática de exercícios e possa usufruir melhor dos seus benefícios.
  3. Cuidar da sua saúde como um todo: a saúde é um emaranhado físico, mental e social. Por isso, não adianta cuidar apenas de uma parte e deixar as outras de lado. Dê atenção também à qualidade de seu sono e à sua saúde mental, aprendendo a lidar com o estresse, e inserindo momentos de lazer na sua rotina. E claro, procure ajuda de profissionais de saúde quando necessário.

Bon appétit!

Sophie Deram