PUBLICIDADE

Topo

Blog da Sophie Deram

Dados da pesquisa do IBGE mostram aumento de obesidade no Brasil

iStock
Imagem: iStock
Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

28/10/2020 04h00

A PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) coletou dados de 2019 que confirmam o aumento da prevalência de obesidade em adultos brasileiros. As informações foram publicadas no dia 21 de outubro deste ano e alertam para a necessidade de procurar soluções para o aumento do excesso de peso no Brasil.

O que é a Pesquisa Nacional de Saúde?

A PNS é uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em conjunto com o Ministério da Saúde.

Essa é apenas uma das pesquisas do IBGE que produzem informações de interesse para a área da saúde. Entre 1998 e 2008, o levantamento de dados sobre esse tema era realizado com intervalos regulares de cinco anos, mas como parte de outra pesquisa, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

Com o objetivo de avaliar as questões de saúde de forma mais ampla, a PNS foi editada em 2013, separadamente da PNAD, e deveria ser realizada novamente em 2018. Como não foi possível, foi adiada para 2019.

A PNS realiza coleta de informações com base em três eixos principais: desempenho do sistema nacional de saúde, condições de saúde da população e doenças crônicas não transmissíveis e seus fatores de risco.

Em seu segundo volume estão incluídos dados antropométricos, como o IMC (Índice de Massa Corporal), escolhidos para definir os padrões de excesso de peso da população brasileira. É sobre essas informações da pesquisa do IBGE que irei falar aqui com você.

A prevalência de obesidade aumentou e é maior entre as mulheres

De acordo com os dados da pesquisa do IBGE, a PNS, 96 milhões de pessoas, ou, mais especificamente, 60,3% da população adulta do Brasil, apresentam IMC maior que 25 kg/m², sendo classificadas com excesso de peso.

As maiores prevalências encontram-se entre o sexo feminino: 62,6% das mulheres estão com sobrepeso e 57,5% dos homens. Ainda que maior entre as mulheres, o documento mostra que desde 2002 as prevalências de excesso de peso para adultos com mais de 20 anos têm aumentado em ambos os sexos.

Considerando apenas a obesidade, os dados mais que dobraram nesse intervalo. Na POF de 2002-2003 (outra pesquisa do IBGE), 9,6% dos homens e 14,5% das mulheres conviviam com obesidade —esses números subiram para 22,8% e 30,2%, respectivamente.

Também se observa que essas prevalências aumentam com a idade. Enquanto 10,7% das pessoas entre 18 e 24 anos foram classificadas com obesidade, entre 25 e 39 anos esse percentual sobe para 23,7% e para 34,4%, na faixa etária de 40 a 59 anos.

Pesquisa do IBGE permite refletir sobre o fracasso do tratamento da obesidade

Esses dados da PNS mostram que, apesar dos esforços e investimentos para prevenir e tratar a obesidade, os números só crescem. Na verdade, isso não acontece apenas no Brasil, mas no mundo todo. Isso nos permite refletir sobre os motivos desse fracasso.

É preciso lembrar que a obesidade é uma condição de saúde muito complexa e ninguém consegue trazer uma solução simples e fácil para isso. Porém, experiências e pesquisas têm mostrado algumas falhas que vêm sendo cometidas no cuidado da obesidade.

Uma delas é presumir que para resolver o problema é só "fechar a boca e malhar", ou seja, comer menos e se exercitar mais. Não tenho dúvidas de que a alimentação e a atividade física contribuem bastante para a nossa saúde. No entanto, achar que é simplesmente restringindo a alimentação e se exercitando mais que vamos resolver a obesidade é muito reducionista. Esse pensamento desconsidera que questões genéticas, ambientais, psicológicas e fisiológicas estão relacionadas a essa condição de saúde.

Além disso, fazer dietas restritivas pode atrapalhar muito mais do que ajudar no tratamento da obesidade. Isso acontece porque, quando restringimos a alimentação, nosso corpo entende que estamos passando por um momento de privação e passa a trabalhar pela nossa sobrevivência. Para isso, ele aumenta o apetite e reduz o metabolismo, e quando, inevitavelmente, voltamos a comer normal, é comum acontecer o reganho de peso, também chamado de efeito sanfona.

Outra coisa que contribui para a obesidade mais do que podemos imaginar é o estigma e o preconceito dirigido àqueles que apresentam excesso de peso. É muito comum que essas pessoas sejam vistas como preguiçosas, gulosas e sem força de vontade.

Toda a sociedade, inclusive os profissionais de saúde e a própria pessoa que convive com a obesidade, pode ter essa atitude preconceituosa. Isso gera muita culpa e faz com que a pessoa não se sinta à vontade para procurar tratamento adequado. Também pode contribuir para a procura de dietas restritivas e remédios para emagrecer por conta própria, que trazem consequências negativas para a saúde física e mental, e envolvem o risco de desenvolver transtornos alimentares.

O que pode ser feito no tratamento da obesidade?

A pesquisa do IBGE permite uma reflexão sobre o fracasso no tratamento da obesidade. Mas diante desses dados, o que pode ser feito?

Proponho um novo olhar sobre a obesidade. Não se trata de uma fórmula mágica, mas atitudes que podem contribuir com o cuidado da condição com respeito e sem estigma. Abaixo, você pode conferir 7 dicas para isso.

1. Foco na saúde

A maioria dos tratamentos para a obesidade estão focados na perda de peso, mas muito mais importante que o número na balança é a nossa saúde. Por isso, sugiro esquecer as preocupações somente com o peso e o corpo, e investir em um estilo de vida mais saudável.

2. Não faça dietas restritivas

A curto prazo, fazer dieta até pode funcionar para a perda de peso, mas não é uma prática sustentável e traz consequências negativas para a saúde. O reganho de peso e a alteração do nosso metabolismo são algumas delas.

3. Coma melhor e não menos

Se restringir não é a solução, adote uma alimentação mais caseira, variada, com alimentos de todos os grupos alimentares. Ela proporcionará para você todos os nutrientes que o seu corpo necessita.

4. Ouça seus sinais de fome e saciedade

Em vez de seguir recomendações de porções e quantidades de alimentos, conecte-se com o seu corpo. Ou seja, preste atenção aos sinais internos, coma respeitando a sua fome e finalize a refeição quando sentir-se satisfeito.

5. Faça as pazes com a comida e o corpo

Não há porque classificar os alimentos em "bons" e "ruins". Nenhum deles, por si só, será responsável pelo ganho de peso, como também não existe nenhum alimento milagroso. Deixe as crenças de lado e se permita comer com prazer e sem culpa.

6. Cozinhe mais

Nos últimos tempos, temos cozinhado cada vez menos e consumido mais alimentos industrializados. No entanto, cozinhar pode nos aproximar da comida e contribuir para aumentar o consumo de alimentos in natura recomendados pelo Guia Alimentar Brasileiro. Sem falar que é possível meditar enquanto cozinha, o que traz muitos benefícios para a nossa saúde.

7. Todos precisam participar

Pessoas com obesidade, a sociedade, profissionais de saúde, educadores, governantes e a indústria alimentícia devem estar envolvidos no tratamento da obesidade, pois, como já disse, essa condição é multifatorial e pode atingir a todos.

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL