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Jejum intermitente funciona mesmo? Estudo sugere que não

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

14/10/2020 04h00

O jejum intermitente ganhou muita atenção como uma estratégia que promete perda de peso. Aqueles que decidem fazer esse tipo de dieta alternam períodos sem comer nada (geralmente entre 12 a 48 horas) com períodos de alimentação.

Diz-se que esse método provoca perda de peso, além de controlar o açúcar no sangue e reduzir o risco de doenças crônicas. No entanto, a maioria desses benefícios não foi comprovada ou testada em seres humanos, o que nos permite questionar se o jejum intermitente funciona mesmo.

Vamos ver o que um estudo publicado em setembro de 2020 e liderado por Ethan Weiss, cardiologista da Universidade da Califórnia e entusiasta do jejum intermitente, diz sobre o assunto.

Jejum intermitente não promove perda de peso significativa

A pesquisa observou 116 adultos, dos quais 105 completaram o protocolo completamente. Os voluntários tinham idade entre 18 e 64 anos, apresentavam sobrepeso ou obesidade e foram divididos aleatoriamente em dois grupos.

Um dos grupos praticou o jejum intermitente, sendo instruído a comer a partir do meio-dia até 20h, e depois a ficar completamente sem comida. Os participantes dessa turma deveriam fazer 16 horas de jejum e se alimentar em um período de 8 horas, sem realizar o café da manhã, refeição que os pesquisadores consideraram culturalmente mais fácil de ser pulada. Já o grupo controle foi orientado a realizar três refeições estruturadas por dia, com a permissão de lanches.

Os participantes não precisavam aderir a nenhuma dieta restritiva, ou seja, não houve restrição de calorias, macronutrientes específicos (carboidratos, gorduras ou proteínas) nem de determinados tipos de alimentos.

Ao final de 12 semanas, período estipulado para o estudo, os pesquisadores verificaram que o grupo que praticou o jejum intermitente perdeu um pouco mais de peso (1,17% de perda) que o grupo controle (0,75%). Porém, a diferença não foi suficiente para ser estatisticamente significativa e não houve mudança significativa na massa de gordura corporal total em nenhum dos grupos.

Quanto a outros indicadores de saúde, como os níveis de colesterol e açúcar no sangue, também não foram encontradas diferenças significativas entre os dois grupos.

Isso vai de encontro a resultados de algumas pesquisas que sugerem o jejum intermitente como um método eficaz na perda de peso e na melhora da saúde metabólica. No entanto, a maioria desses dados são provenientes de experimentos com animais ou de pequenos estudos em humanos, mas com duração relativamente curta.

Também é comum a associação do jejum intermitente a uma maior perda de peso a curto prazo. No entanto, os pesquisadores argumentam que nesses casos geralmente ocorre uma restrição calórica que poderia explicar essa diferença.

Isso poderia ser melhor discutido e comprovado pelo estudo em questão, não fosse uma limitação: a inexistência dos valores de ingestão de calorias. Mas um modelo matemático sugere que esses valores não diferiram entre os grupos. Os pesquisadores, por fim, concluíram que não existem evidências de que o jejum intermitente funciona.

Jejum intermitente pode levar à perda de massa magra

Como disse anteriormente, os voluntários do grupo que realizou o jejum intermitente apresentaram uma perda de peso ligeiramente maior em relação ao grupo controle, mas sem diferença estatisticamente significativa.

Além disso, os pesquisadores observaram que o grupo do jejum também perdeu um pouco mais de massa magra (ou seja, músculo, e não gordura), o que pode explicar a maior perda de peso.

Aqueles que jejuaram perderam em média 1,7 kg, dos quais 1,1 kg (aproximadamente 65% do peso perdido) foi de massa magra e apenas 0,51 kg de gordura. A perda de massa magra durante a perda de peso é responsável por 20% a 30% da perda de peso total e nesse estudo percebe-se que a proporção de perda de músculo excede em muito a faixa normal.

A perda de massa magra pode estar ligada a alterações metabólicas, recuperação do peso, efeito sanfona e diminuição da força muscular. Uma das hipóteses para isso acontecer é que o jejum pode estar relacionado a um menor consumo de proteínas.

Assim, os pesquisadores indicam que não há evidências de que o jejum intermitente funciona e que realizá-lo pode trazer desvantagens. No entanto, também apontam a necessidade de mais estudos que esclareçam como o jejum afeta a massa muscular e também os seus efeitos em pessoas idosas e com doenças crônicas como o diabetes.

Além de tudo, fazer jejum intermitente não é sustentável

O próprio Ethan Weiss declara, em matéria para o Insider, que fazia restrições em sua própria alimentação e realizava jejum intermitente.

A partir dessa experiência pessoal, em 2018, ele e esse grupo de pesquisadores deram início a um ensaio clínico para estudar o jejum intermitente, que até então era objeto de estudo de pequenas pesquisas ou experimentos com animais. Ao perceber que não existem evidências de que a dieta funciona, Weiss passou a repensar essa prática.

É importante lembrar que a saúde não se limita a aspectos fisiológicos nem a resultados de exames laboratoriais. Como definido pela OMS (Organização Mundial da Saúde), trata-se de um "completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade".

Se você está considerando o jejum intermitente, pense melhor. Pular refeições e passar muito tempo de barriga vazia pode não ser uma boa escolha para a sua saúde.

Além disso, essa prática do controle da fome pode alterar o comportamento alimentar de muitas pessoas. Vejo muitos casos de transtornos alimentares no meu consultório que começaram com a prática do jejum intermitente. É difícil aguentar a longo prazo, ou seja, essa prática não é sustentável para muitos. Além disso, a ciência está mostrando que para perder peso e ter saúde não é preciso jejuar nem pular refeições.

Muito melhor e mais eficaz é investir no estilo de vida melhor, buscar saúde, bem-estar e paz com a comida, comer melhor: aumentar o consumo de alimentos in natura, variar na alimentação e, se possível, cozinhar mais e aproveitar as refeições para socializar com aqueles que fazem parte da nossa vida. Dessa forma, você vai perceber que é possível comer de tudo, com prazer e sem culpa!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL