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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Efeitos colaterais não devem assustar quem pensa em iniciar PrEP

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do VivaBem

08/04/2022 04h00

Desde 2010, quando comecei a trabalhar com Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), percebo que só a possibilidade da ocorrência de efeitos colaterais associados ao uso desse método de prevenção, já afugenta muitos dos seus potenciais usuários.

Infelizmente, no entanto, são os efeitos colaterais imaginários e as fake news sobre a PrEP os principais responsáveis por essa impressão equivocada de que seu uso é algo perigoso. E para muita gente esse medo infundado funciona como uma barreira de acesso a uma prevenção eficaz contra o HIV.

A preocupação com eventuais efeitos colaterais da PrEP é compreensível, afinal prescrevemos antirretrovirais para pessoas que não estão doentes nem necessitando de tratamento. Além disso, no senso comum existe a impressão de que antirretrovirais são tóxicos hoje como eram na década de 1990, época em que eram chamados de "Coquetel".

Para a nossa sorte, os antirretrovirais utilizados na PrEP em comprimidos (Tenofovir e Entricitabina) já se mostraram bastante seguros em diversos ensaios clínicos que avaliaram a ocorrência de efeitos colaterais.

Cerca de 20% dos seus usuários apresentam algum desconforto gastrointestinal transitório e autolimitado nos primeiros dias de PrEP, enquanto menos de 1% pode desenvolver uma alteração renal e óssea causada pelo Tenofovir, ambas reversíveis com a interrupção da PrEP.

Isso foi o que demonstrou também uma revisão sistemática liderada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), publicada no mês passado na prestigiada revista científica Lancet HIV. Foram analisados os dados de mais de 13.500 indivíduos participantes de ensaios clínicos de PrEP.

Entre os resultados foi identificado um risco aumentado de ocorrência de alterações renais leves entre usuários de PrEP, quando comparados com o braço que recebia placebo. Essas alterações foram raras, não progressivas e se resolveram com a interrupção dos antirretrovirais. Não foi encontrado risco aumentado de alterações renais graves associadas à PrEP.

Mais do que isso, os indivíduos com maior propensão a desenvolver as alterações renais leves após o início da PrEP foram aqueles com idade maior que 50 anos e/ou que já tinham algum acometimento da função renal antes do início dos comprimidos.

Até agora, tanto o Brasil quanto a OMS recomendava, no acompanhamento da PrEP, o rastreamento da função renal com exames de sangue e urina a cada 3 - 4 meses. No entanto, o estudo publicado propõe que, dada a baixa probabilidade de ocorrer algum evento renal grave, essa frequência exames de rotina pode dificultar a retenção dos usuários ao seguimento da PrEP.

Dessa forma, os autores do trabalho propõem que, sobretudo para os indivíduos mais jovens e com rins saudáveis, seria viável e seguro fazer rastreamentos de alterações renais de forma menos frequente.

Derrubar barreiras de acesso à prevenção deve sempre ser o norte das ações para que possamos alcançar o controle da pandemia de HIV. Mas não podemos nos esquecer que no seguimento dos usuários de PrEP, além dos exames de função renal é feito também o rastreamento para HIV e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a avaliação da adesão aos comprimidos e o aconselhamento de redução de riscos. Por isso, reduzir a frequência da realização dessas abordagens poderia resultar num efeito não desejado de descontrole dessas infecções.

Prefiro citar como exemplos de ações que de fato ampliam o acesso à prevenção, a permissão para que outros profissionais da saúde também possam prescrever a PrEP e acompanhar os seus usuários, como enfermeiros, farmacêuticos e dentistas. Bem como a distribuição gratuita da PrEP pelo SUS para todos os usuários de PrEP do Brasil, inclusive para pessoas atendidas pela medicina privada.

Os efeitos colaterais da PrEP definitivamente não são o seu maior problema no controle da pandemia de HIV, mas sim a dificuldade que a população mais vulnerável a esse vírus encontra para acessá-la.

A PrEP não vai "acabar com o seu fígado", como se diz diariamente nas redes sociais. Então, ao invés de reproduzir e compartilhar informações equivocadas, vamos lutar para que os serviços de saúde acolham e acompanhem de forma adequada aqueles que mais necessitam de prevenção contra o HIV.