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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Casos de sífilis caem 26,5% no Brasil, mas não devemos comemorar ainda

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

12/11/2021 04h00

Já há muitos séculos se disseminando entre seres humanos, a sífilis é uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais antigas do mundo. Apesar disso, no Brasil só começamos a notificar e contar os casos da doença transmitidos entre adultos em 2010. Só então pudemos identificar que tínhamos uma epidemia explosiva e descontrolada de sífilis em curso no país.

Entre 2010 e 2018, o número de novos casos anualmente notificados de sífilis aumentou em mais de 36 vezes, se concentrando sobretudo entre os menores de 30 anos. Em 2016, o Ministério da Saúde reconheceu a existência de uma epidemia de sífilis e começou a articular uma resposta, que resultou no Projeto Sífilis Não, uma parceria com a UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) para elaborar ações estratégicas que conseguissem reverter a curva crescente de casos no Brasil.

A partir de 2018, uma série de campanhas informativas para a população e de eventos para a capacitação de profissionais da saúde foram realizados nos municípios com maior número de casos. Começou-se aí a falar pela primeira vez de testagem e de tratamento da sífilis, além do uso da camisinha, como estratégia de controle da epidemia.

Em outubro de 2021, com a publicação do Boletim Epidemiológico de Sífilis, tivemos a agradável notícia de que os novos casos de sífilis tinham se reduzido em 26,5% em 2020, quando comparados com o ano anterior. Se compararmos com 2018, a queda é ainda maior, chegando perto dos 29%.

Gráfico sífilis - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Tão logo foram divulgados esses dados, o governo federal começou a soltar as notas em tom de vitória como resultado do seu trabalho. É claro que qualquer redução nos casos de uma IST é bem-vinda, mas devo admitir que vejo a festa com essa queda com os dois pés atrás.

Em primeiro lugar, devo lembrar que somente em 2020 foram notificados no Brasil mais de 115 mil casos de sífilis e que devido ao arcaico e trabalhoso sistema não eletrônico de notificação de casos à vigilância epidemiológica, devemos ter uma monstruosa subnotificação de casos de sífilis no país.

Além disso, os anos de 2020 e 2021 foram completamente atípicos por conta da pandemia de covid-19 que atravessou o país causando até agora mais de 610 mil mortes. O contexto pandêmico tem o potencial de multiplicar a subnotificação da sífilis uma vez que foram realizados menos testes, diagnósticos, notificações, tratamentos e curas, e até mesmo aqueles casos que cumpriram todas essas etapas adequadamente, levarão mais tempo para serem incluídas nos bancos de dados do Ministério da Saúde.

Existem também evidências de que durante a pandemia de covid-19 a atividade sexual da população se reduziu, o que naturalmente já provocaria uma redução no número total de casos de sífilis e outras ISTs, mas não entre aqueles indivíduos que mantiveram sua vida sexual ativa durante o período de distanciamento social.

Em segundo lugar, considero importante também pontuar que as campanhas informativas de prevenção da sífilis de fato melhoraram nos últimos anos, por saírem do monótono e ineficiente "Use Camisinha" e incorporarem o conceito "Teste. Trate. Cure". No entanto, estão ainda longe de serem empáticas, atraentes e inteligentes do ponto de vista de comunicação, para captar a atenção do público-alvo e promover qualquer atitude ou mudança de comportamento.

Apenas para exemplificar, a recém-lançada campanha de prevenção de sífilis de 2021 do Ministério da Saúde conta, entre outros materiais, com 2 folders com informações sobre a doença. Um deles direcionado para a população geral e o outro para profissionais da saúde. E, curiosamente, o texto contido nas duas peças é exatamente o mesmo.

Sem uma campanha que de fato se comunique com a população que tem vida sexual ativa, jovem, heterossexual e LGBTQI+; sem uma divulgação maciça em redes sociais e aplicativos de encontros, capaz de chegar às pessoas realmente mais vulneráveis; e sem uma abordagem que não julgue, mas que transmita informações úteis (como a frequência de testagem, a transmissão por sexo oral ou a existência de formas assintomáticas da infecção), é difícil acreditar que a redução na incidência de sífilis divulgada no boletim epidemiológico foi resultado da ação do Ministério da Saúde.

O controle de uma epidemia de IST custa caro, requer disposição para tocar em temas sensíveis e depende de estratégias criativas de comunicação. Simplificar essa complexidade sempre será um erro, mas o Brasil tem todos os recursos financeiros, sociais e humanos necessários. Isso sim é um motivo de alegria, basta que sejam empregados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL