PUBLICIDADE

Topo

Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

PrEP sob demanda é ainda mais segura do que a PrEP diária, mostra estudo

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

05/11/2021 04h00

Desde que a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) surgiu no final de 2010, uma das principais preocupações das pessoas em relação a esse método de prevenção têm sido os efeitos colaterais que ele poderia causar. Afinal, na PrEP estamos dando medicamentos antirretrovirais para pessoas que não têm nenhuma doença para tratar.

Essa preocupação é genuína e sempre existiu também na cabeça dos pesquisadores da prevenção do HIV. Os medicamentos usados na PrEP (Tenofovir e Entricitabina) já eram utilizados há mais de 10 anos no tratamento do HIV e hepatite B, por isso seus efeitos colaterais eram bem conhecidos.

Entre os dois antirretrovirais, o motivo de preocupação sempre foi o Tenofovir, droga que pode causar entre seus usuários uma alteração na função renal com progressão silenciosa, só podendo ser diagnosticada por meio de exames de sangue e urina.

De forma simplificada, a intoxicação das células renais com o Tenofovir pode provocar a perda pela urina de elementos que são importantes para o nosso organismo, como aminoácidos, fósforo e cálcio. Se não diagnosticado, esse processo pode levar também a um quadro de enfraquecimento dos ossos (osteoporose) e piora do funcionamento dos rins.

Se esse dado lhe pareceu assustador, pode ficar tranquilo. Os trabalhos científicos que avaliaram os efeitos colaterais do Tenofovir têm demonstrado que essas alterações ocorrem numa frequência menor que 1% dos usuários de PrEP. Além disso, quando a alteração é identificada nos exames de rotina, a interrupção da PrEP leva a recuperação da função renal e óssea.

Atualmente são aprovados e recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) dois esquemas de uso de PrEP em comprimidos: a PrEP diária (1 comprimido ao dia) e a PrEP sob demanda (comprimidos tomados de acordo com as exposições sexuais). Até agora, uma questão que ainda não havia sido completamente compreendida era se a ocorrência das alterações renais causadas pela PrEP variava de acordo com o esquema de tomada utilizado.

Na última semana, durante a 18ª Conferência da Sociedade Europeia de Aids, foram apresentados os resultados de um estudo que se dedicou a resolver essa questão. Trata-se do estudo francês Prévenir, que acompanhou homens gays e bissexuais em PrEP de uma forma original: cada indivíduo recebeu os comprimidos de Tenofovir-Entricitabina e decidiu, de acordo com o seu contexto de vida sexual, se faria uso da PrEP no esquema diário ou sob demanda.

Os dados de eficácia na prevenção do HIV do Prévenir já haviam sido divulgados anteriormente, comprovando que qualquer um dos dois esquemas de tomada se mostrou extremamente potente para evitar infecções por esse vírus, desde que os comprimidos fossem tomados com boa adesão. A subanálise apresentada agora detalhou as informações sobre a ocorrência de efeitos colaterais renais em cada um dos grupos.

No Prévenir foram acompanhados mais de 3.000 participantes entre 2017 e 2020. Como esperado, entre aqueles que escolheram usar a PrEP diária o número de comprimidos tomados foi maior do que entre os participantes que usaram a PrEP sob demanda ou que migraram de um grupo para o outro durante o estudo.

Em todos esses três grupos a ocorrência de alterações renais foi bastante rara e sem casos graves, no entanto, a análise estatística encontrou alteração significativamente maior na função renal no grupo que escolheu tomar a PrEP diariamente.

Segundo o estudo, os indivíduos que apresentaram maior risco de desenvolvimento dessas alterações foram aqueles que, antes do início do uso da PrEP, já tinham alguma alteração na função renal e os com idade maior que 40 anos. Assim, os autores do trabalho discutem que o acompanhamento da função renal após o início da PrEP pode ser feito de forma mais frequente nesses grupos.

Diferente do que o imaginário popular brasileiro acredita, o uso da PrEP é bastante seguro, não causa "sobrecarga do fígado" e nem deve ter os efeitos colaterais como um obstáculo para a sua implementação ampliada na população mais vulnerável ao HIV.

O uso da PrEP sem dúvidas tem na balança da vida real muito mais benefícios do que riscos. No entanto, seu uso exige o acompanhamento contínuo de eventuais alterações renais, que, mesmo que raras, são possíveis. E ao que tudo indica, a individualização do esquema de PrEP a ser utilizado, bem como da rotina de coleta de exames de acompanhamento podem otimizar ainda mais o uso desse método de prevenção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL