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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Brasil que não quer usar máscara nem camisinha

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

22/10/2021 04h00

No dia em que o Brasil atingiu a marca de 600 mil mortes em decorrência da pandemia de covid-19, uma fala do ministro da Saúde Marcelo Queiroga durante um evento me fez parar para refletir.

Tratava-se de uma coletiva de imprensa em que, depois de fazer um panorama da situação brasileira atual em relação à disseminação do Sars-CoV-2, o ministro anunciou um esboço do que poderá ser o plano nacional de vacinação contra a covid-19 para o ano de 2022.

Quando questionado sobre a exigência do uso de máscaras, o ministro disse ser contrário à criação de leis para esse fim e argumentou: "Essas leis são ineficazes. Por exemplo, preservativos diminuem doenças sexualmente transmissíveis. Vou fazer uma lei?"

Num primeiro momento, o argumento parece até fazer sentido e tem um componente de ironia. Imagine alguém pagar uma multa ou ainda ser detido por ter feito sexo sem camisinha? Mas ele atropela décadas de ciência e aprendizado acumuladas sobre a prevenção de doenças transmissíveis.

Explico aqui o meu ponto. Quando surge uma nova epidemia, por dependerem de menos tecnologia e pesquisas científicas, as primeiras medidas de prevenção utilizadas serão sempre as comportamentais. Recomenda-se uma mudança no comportamento das pessoas para que dessa forma tenham menos riscos de se infectarem com o vírus ou a bactéria em questão.

Da mesma forma que, na década de 1980, as campanhas de prevenção diziam para as pessoas não fazerem sexo ou para fazê-lo com camisinha com o objetivo de reduzir os novos casos de infecção por HIV, em 2020, para controlar os casos de covid-19, recomendou-se que as pessoas ficassem em casa ou que usassem máscara sempre que saíssem.

Se por um lado temos evidências de que o uso da camisinha ou da máscara é bastante eficaz para evitar as infecções por HIV e Sars-CoV-2, respectivamente, por outro percebemos que na vida real o desempenho dos dois métodos no controle dessas epidemias é decepcionante.

De fato, nenhuma pandemia causada por vírus ou bactérias na história recente da humanidade foi controlada apenas com medidas comportamentais de prevenção, e a razão disso é muito simples: só estarão bem protegidos aqueles que aderirem de forma correta e constante a esses métodos de prevenção. E as pessoas não são todas iguais, sendo que algumas podem não se adaptar às mudanças de comportamento propostas.

O impacto de medidas comportamentais sempre será limitado no controle de epidemias, mas a partir do momento em que a ciência tem tempo para trabalhar e consegue desenvolver métodos biomédicos de prevenção, como as vacinas e os medicamentos, o jogo pode virar.

Enquanto tínhamos apenas o "fique em casa"/"não faça sexo" e o "use máscara"/"use camisinha", os casos de covid-19 e HIV cresceram de forma explosiva no Brasil, nos dando a impressão de que essas epidemias nunca teriam fim.

Quando começamos a vacinar a população contra a covid-19, os casos da doença se reduziram abruptamente a níveis bem menores no país. Da mesma forma, quando começamos, na década de 1990, a tratar as pessoas que viviam com HIV no Brasil, tornando-as indetectáveis e não mais transmissoras do vírus, os novos casos dessa infecção pararam de crescer ano após ano e se estabilizaram num patamar.

Mais recentemente, as regiões do país que disponibilizaram um programa completo de prevenção combinada, incluindo o acesso ampliado às profilaxias pré e pós-exposição ao HIV (PrEP e PEP), começaram a ver enfim a taxa de incidência de infecção por HIV despencar.

Pessoas do tipo que não vão usar máscara ou camisinha sempre existiram e sempre vão existir. É papel do Ministério da Saúde acolhê-las, compreendendo as suas razões, e ajudá-las a chegar às medidas biomédicas adicionais de prevenção, como a vacina contra a covid-19 ou a PrEP.

No entanto, o ministério não pode deixar de abordar aquelas pessoas que não aderem a nenhuma das medidas comportamentais ou biomédicas, sejam elas o presidente ou um cidadão comum. Afinal, são elas as responsáveis pela persistência dessas epidemias, mantendo ativa a circulação dos vírus. Vejam o exemplo da atual terceira onda de covid-19 nos Estados Unidos entre indivíduos que recusaram a vacinação.

Concordo com o ministro Marcelo Queiroga que essa abordagem não deve ser feita por meio de leis que obrigam uma medida comportamental. A história da epidemia de HIV/Aids já nos mostrou que é com educação continuada em saúde embasada em conhecimento científico atualizado e com a corresponsabilização da população que podemos encontrar os caminhos para o fim de uma epidemia.

Se não quer usar máscara, pelo menos tome a vacina. Se não quer tomar a vacina, pelo menos use a máscara. Se não querem usar nenhum dos dois, vou esperar para ver a justificativa do ministro da saúde quando atingirmos os 700 mil mortos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL