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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hepatite C e Chemsex, é preciso agir antes que seja tarde

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

08/10/2021 04h00

A hepatite C é uma doença causada por um vírus que foi isolado pela primeira vez em 1989. Naquela época, a sua principal via de transmissão conhecida era a sanguínea. Antes dos anos 2000, a maioria dos casos da doença no Brasil ocorria entre indivíduos com antecedente de transfusão de sangue ou uso de drogas injetáveis.

Nos últimos 20 anos, muita coisa mudou. Um fluxo efetivo de rastreamento de infecções foi implementado para todas as doações de bolsas de sangue e hemoderivados no país, ao mesmo tempo em que, com a chegada do crack, as redes de usuários de cocaína injetável se reduziram drasticamente.

O que se esperava então como resultante dessa equação seriam a queda da incidência e posterior interrupção da transmissão da hepatite C no Brasil. No entanto, o que vimos na verdade nas últimas décadas foi uma mudança no perfil epidemiológico da hepatite C, com aumento progressivo dos casos cuja transmissão se deu por via sexual.

Por décadas, aprendemos e ensinamos na faculdade que a transmissão sexual da hepatite C era pouco eficiente. Que o vírus tinha mais relação com sangue do que com sexo. Já hoje, percebemos que, em alguns contextos, a via sexual já se tornou a principal forma de sua transmissão.

Isso é o que mostra um estudo em fase de publicação realizado por um grupo da Faculdade de Medicina da USP. Depois de revisar os prontuários das centenas de pacientes atendidos no ambulatório de hepatite C do Hospital das Clínicas da FMUSP, verificou-se que a proporção de casos com via de transmissão sexual dessa infecção aumentou de forma significativa de 26% para 64%, quando comparados os períodos de diagnóstico pré-2000 com o pós-2010.

Um dos principais fatores que pode estar influenciando nessa tendência é um fenômeno conhecido como Chemsex (do inglês, sexo químico), que se iniciou na Europa no final dos anos 1990 e desembarcou no Brasil de forma mais disseminada nos últimos anos.

O Chemsex consiste no uso de substâncias psicoativas durante o sexo com o objetivo de desinibir, potencializar a experiência, aumentar o prazer e prolongar as relações sexuais. Algumas das drogas frequentemente utilizadas nesse contexto são a metanfetamina (conhecida como Crystal ou Tina), o GHB (Gi ou Gisele) e a cocaína.

Sob efeito dessas substâncias, seus usuários praticam em geral o sexo em grupos, podendo ficar em alguns casos por dias nesse circuito. Por estarem com a percepção alterada, costumam praticar sexo sem preservativo ou lubrificante, podendo provocar lesões de mucosa anal e genital, e microssangramentos. E assim, o vírus da hepatite C, assim como outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), é transmitido com facilidade.

No caso da metanfetamina, que pode ser consumida tanto fumada como também injetada na corrente sanguínea (uso conhecido como Slam), os riscos de transmissão da hepatite C são ainda maiores.

O isolamento social causado pela pandemia de covid-19 com o fechamento de bares e casas noturnas, o aumento da disponibilidade dessas drogas e a consequente redução do seu preço provocaram uma explosão no número de usuários do Chemsex no Brasil, sobretudo entre homens gays e bissexuais.

Os danos desse fenômeno já podem ser percebidos tanto por quem trata hepatite C e outras ISTs, quanto por profissionais da saúde mental, a quem os usuários do Chemsex recorrem para lidar com o uso abusivo dessas substâncias e com os transtornos psiquiátricos associados a ele.

O que está acontecendo agora em São Paulo já acontece em cidades como Londres, Berlim e Amsterdã há mais de 10 anos. A diferença é que aqui no Brasil não existe um plano organizado para abordar a situação e nem mesmo uma rede de acolhimento que esteja olhando para a saúde dessas pessoas.

Na Europa, um programa intensivo de testagem, tratamento e cura da hepatite C entre os usuários do Chemsex, associado a um projeto de redução de danos no uso dessas substâncias está obtendo bons resultados no controle dos desfechos negativos de saúde pública.

Se não fizermos nada parecido por aqui, em breve teremos uma catástrofe instalada. E as únicas pessoas felizes serão os dealers, nome dado às pessoas que vendem as drogas do Chemsex.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL