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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessoas que vivem com HIV de todo o Brasil, revacinem-se!

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

24/09/2021 04h00

No início de 2021, o plano brasileiro de vacinação contra a covid-19 se iniciou priorizando aqueles que tinham um risco aumentado de desenvolverem formas mais graves da doença, como os mais idosos. O resultado dessa escolha foi a surpreendente redução no número de casos graves e na mortalidade associada à covid-19 entre os grupos populacionais vacinados.

Agora, quando os olhos da sociedade estão voltados para a discussão sobre a vacinação dos adolescentes, as evidências científicas produzidas nos mostram que ainda não é hora tirar a atenção dos grupos prioritários que haviam sido vacinados no primeiro semestre de 2021.

Pessoas com idade mais avançada e com algum problema de saúde que enfraqueça a sua imunidade classicamente apresentam uma resposta imune pior para todas as vacinas que existem. Isso acontece porque um sistema imune envelhecido ou doente tem menor capacidade de produzir defesas depois da aplicação de uma vacina, o que as torna menos protegidas das doenças. Esse fenômeno fica ainda mais evidente conforme aumenta o tempo desde a vacinação.

No caso da covid-19, alguns estudos começaram a mostrar recentemente que, depois de seis meses da vacinação, os números de casos e de formas graves da doença voltaram a aumentar entre indivíduos com mais de 80 anos de idade.

Se por um lado estamos constatando agora que a vacina da covid-19 funciona pior em alguns subgrupos, por outro temos estudos que estão nos ensinando que a aplicação de doses adicionais dessas vacinas é capaz de induzir a recuperação da imunidade perdida com o passar do tempo, o que por sua vez pode melhorar novamente a proteção contra o coronavírus.

Diversos estudos já foram realizados para avaliar a melhora na resposta imune depois da aplicação de uma dose adicional de vacina e, aparentemente, quando as doses de reforço utilizam vacinas de RNA mensageiro (Pfizer ou Moderna) ou de vetor viral (AstraZeneca ou Janssen), a melhora na resposta imune é superior àquela obtida quando se utiliza o reforço com vacina de vírus inativado (CoronaVac).

Sendo assim, essa semana o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica regulamentando como deve ser a aplicação de dose adicional de vacina de covid-19 no Brasil. Segundo o documento, desde já dois grupos populacionais devem procurar os postos de vacinação para receber a dose de reforço: pessoas com mais de 70 anos de idade e pessoas com imunossupressão.

Entre os idosos, a dose adicional deve ser aplicada depois de seis meses da segunda dose do esquema inicial ou da dose única. Já para os imunodeprimidos, esse intervalo deve ser de 28 dias. Para todas essas situações, a dose adicional a ser aplicada deve ser da Pfizer, Janssen ou AstraZeneca, e não de CoronaVac.

De acordo com a nota técnica, entram no grupo dos imunossuprimidos qualquer pessoa que tenha o diagnóstico de uma imunodeficiência primária grave, que esteja em quimioterapia para tratamento de câncer, em pós-transplante de órgão sólido ou medula óssea, vivendo com HIV/Aids, ou em uso de medicação ou tratamento imunossupressor.

Para as pessoas que vivem com HIV/Aids, houve uma discussão sobre a necessidade de um corte no valor da contagem de CD4 abaixo do qual se indicaria a dose adicional. No entanto, como pelo SUS (Sistema Único de Saúde) as pessoas acompanhadas com esse diagnóstico desde 2016 já não colhem mais esse exame de forma rotineira, optou-se por liberar a dose extra para todos, independentemente da situação clínica e da imunidade atual.

O município de São Paulo, no entanto, publicou no dia seguinte um informe que contraria a nota técnica do Ministério da Saúde e determina que só serão aplicadas doses adicionais para as pessoas que vivem com HIV com contagem de CD4 menor que 200 células/mm3. Aguardamos, portanto, para saber qual recomendação vai prevalecer.

Seguindo a ciência e o exemplo de diversos outros países do mundo, o Brasil finalmente começa oficialmente a revacinar grupos prioritários. Essa vacinação adicional é tão importante quanto o ciclo inicial de imunização. Ajude a divulgar essa informação a todas as pessoas que se beneficiarão dessa ação. E fique atento, pois é possível que em breve a dose adicional seja indicada para mais grupos populacionais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL