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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com a melhora da pandemia, esteja pronto para retomar sua vida sexual

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

17/09/2021 04h00

A pandemia de covid-19 impactou na vida de todas as pessoas em diversos aspectos, inclusive na vida sexual. Como já disse nessa coluna, sabemos que uma parcela da população reduziu de forma significativa sua atividade sexual desde 2020, como resultado do medo da infecção pelo Sars-CoV-2 e como medida comportamental de prevenção dessa infecção.

Agora, com a redução progressiva dos casos de covid-19 decorrente da ampliação da cobertura vacinal no país, é esperado que a população comece a retomar sua vida sexual. Assim, pretendo discutir aqui alguns pontos com os quais acredito ser preciso estar atento nesse processo.

Em primeiro lugar, precisamos lembrar que não é porque as pessoas estavam mais quietas que as ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) deixaram de existir.

De fato, o número de ISTs diagnosticadas até se reduziu durante a pandemia. Isso é o que mostram por exemplo os dados do Reino Unido. Segundo relatório recente do Public Health England, departamento de saúde pública daquele país, no ano de 2020 houve uma queda de cerca de 32% no número de ISTs diagnosticadas, em comparação com o ano anterior.

A redução sem dúvidas pode ter ocorrido como resultado da diminuição da atividade sexual, mas também pela diminuição no número de testagens de rastreamento de ISTs realizadas durante a pandemia. Isso se torna ainda mais preocupante uma vez que as ISTs podem causar infecções totalmente assintomáticas.

Se existe a possibilidade de você ter se infectado com uma IST durante a pandemia, antes de pensar em retomar sua vida sexual normal uma boa ideia é fazer um rastreamento dessas infecções e tratar se alguma for diagnosticada.

Um segundo ponto é a prevenção do HIV e das outras ISTs. Muitos usuários da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) optaram por interromper a tomada dos comprimidos durante a pandemia por considerarem que, por não estarem tendo relações sexuais, não estavam vulneráveis ao HIV.

Essa atitude é perfeitamente compreensível, adequada e está em consonância com os princípios da Prevenção Combinada, levando em conta a importância do gerenciamento individual das vulnerabilidades de cada pessoa.

A partir do momento que as relações sexuais vão voltar a acontecer, é fundamental fazer uma nova avaliação dos riscos presentes na sua vida sexual para mais uma vez encontrar quais os métodos de prevenção que cabem no seu atual contexto de vida. Para alguns, o uso consistente da camisinha será suficiente para garantir uma prevenção eficaz, enquanto, para outros, convém retornar ao profissional da saúde para reiniciar o uso da PrEP.

Em terceiro e último lugar, acredito que todos devemos fazer uma reflexão sobre como iremos nos relacionar com nossas parcerias daqui em diante. A pandemia de covid-19 e o distanciamento social proposto como medida de prevenção impulsionaram o processo de virtualização das relações entre as pessoas. Redes sociais e aplicativos de relacionamento se tornaram a principal forma de interação para uma enorme quantidade de indivíduos.

Com a melhora dos números da pandemia e a queda das restrições, vai chegar o momento em que cada uma dessas pessoas vai ter que redesignar a maneira com que está à vontade para voltar a interagir social e sexualmente.

Esse processo não precisa de forma alguma ser traumático e nem é preciso ter pressa. Mas, se garantida a prevenção das ISTs, ele tem muito mais chances de terminar bem, com saúde sexual e prazer para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL