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Rico Vasconcelos

REPORTAGEM

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Vacina experimental falha na proteção contra o HIV. E agora?

alashi/Getty Images
Imagem: alashi/Getty Images
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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

03/09/2021 04h00

Em meio a uma onda de grande expectativa em relação aos estudos de vacina preventiva contra o HIV, no último dia 31 de agosto uma notícia chegou como um banho de água gelada. Os pesquisadores responsáveis pela condução do estudo Imbokodo, que estava sendo realizado na África Subsaariana desde 2017, anunciaram que o ensaio clínico foi interrompido devido à falha da vacina experimental na prevenção contra o HIV.

O Imbokodo recrutou 2.637 mulheres cisgênero de 18 a 35 anos no Malaui, Moçambique, África do Sul, Zâmbia e Zimbábue, para receberem doses de uma vacina experimental contra o HIV ou placebo. Esse é um dos grupos populacionais mais vulneráveis à infecção por HIV na África Subsaariana. Depois de receberem as doses, as participantes retornaram em visitas trimestrais para receberem aconselhamento de prevenção e testagem para HIV.

Depois de quase 4 anos do início do recrutamento, essa semana foram divulgados os resultados parciais do Imbokodo. Entre as 1.109 mulheres que receberam placebo houve 63 novas infecções por HIV, enquanto entre as 1.079 que receberam a vacina experimental houve 51 casos.

Ainda que tenha ocorrido 25% menos casos entre as mulheres vacinadas, a análise estatística mostrou que essa redução na incidência não pode ser atribuída à vacina e está muito abaixo do mínimo de 50% de redução de incidência esperado pelos pesquisadores.

Em outras palavras: no estudo Imbokodo, as mulheres que receberam placebo ou a vacina experimental tiveram o mesmo risco de se infectar com o HIV. Esses resultados levaram seus pesquisadores a anunciarem a interrupção do ensaio clínico e fizeram o resto do mundo parar para refletir.

O desenvolvimento de uma vacina preventiva contra o HIV tem sido um desafio para a ciência nos últimos 40 anos, levando até alguns pesquisadores a acreditarem que será preciso mudar a estratégia de imunização para se obter melhores resultados.

O Imbokodo testou uma vacina experimental que utiliza nas suas 4 doses o adenovírus 26, um vírus inofensivo para os seres humanos que, depois de modificado em laboratório, passou a carregar no seu genoma genes enxertados de proteínas do HIV. A mesma tecnologia é empregada com bons resultados nas vacinas da Janssen e AstraZeneca contra a covid-19.

Além do adenovírus aplicado em todas as 4 doses, a vacina experimental testada na África adicionou às duas últimas aplicações, uma combinação de proteínas gp140 presentes no envelope viral do subtipo C do HIV, o mais prevalente naquele continente.

O racional dessa plataforma de imunização é treinar o sistema imune de uma pessoa para se defender contra as proteínas do HIV para que num posterior encontro com o vírus verdadeiro, exista menos chances de a infecção ocorrer.

A ideia parecia boa, mas na prática não funcionou.

Paralelamente ao Imbokodo, um estudo irmão chamado Mosaico, está sendo conduzido desde 2019 em países da Europa e Américas, incluindo o Brasil, para testar uma versão melhorada dessa vacina experimental. Na versão da vacina utilizada no Mosaico, a combinação de proteínas gp140 aplicada inclui proteínas de diferentes subtipos do HIV e não apenas do subtipo C, o que teoricamente pode melhorar a proteção.

A vacina que está sendo testada no estudo Mosaico, em ensaios pré-clinicos com macacos, conseguiu reduzir em 67% a incidência de infecção por HIV. Resta saber se resultado semelhante será atingido entre humanos.

Os resultados do estudo Imbokodo nos ensinam muito sobre a imunização contra o HIV e nos dão embasamento para os próximos passos na busca por uma vacina eficaz. Agora, todas as atenções se voltam para o estudo Mosaico que, num futuro próximo, divulgará seus aguardados resultados.

A história da pesquisa clínica é como a vida de qualquer pessoa, repleta de tentativas que resultam em erros e acertos. Os erros servem de aprendizado e os acertos apontam para o caminho a se seguir.

Agradeço e presto a minha homenagem a todas as participantes do estudo Imbokodo por nos ajudarem a escrever a história da pesquisa da vacina contra o HIV.