PUBLICIDADE

Topo

Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entenda o aumento da variante do HIV resistente ao tenofovir no Brasil

Getty Images
Imagem: Getty Images
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

09/07/2021 04h00

Na última semana, algumas reportagens falando sobre um estudo científico publicado recentemente causou pânico em alguns grupos que discutem o tema do HIV e sua prevenção nas redes sociais.

O trabalho em questão, realizado por pesquisadores portugueses e brasileiros, foi publicado na revista International Journal of Molecular Sciences e se propôs a avaliar as mudanças na última década no perfil de mutações genéticas de resistência aos medicamentos antirretrovirais encontradas em amostras de HIV do Brasil.

Entre os resultados do estudo, foi identificado que entre 2008 e 2017 houve um aumento de 2 para 12% na prevalência de uma mutação conhecida como K65R, que confere ao vírus resistência ao antirretroviral tenofovir, medicamento presente tanto no esquema inicial de tratamento de pessoas que vivem com HIV no Brasil, quanto na PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV).

Diferente do que foi concluído por alguns nas redes sociais, o resultado desse estudo não significa que 12% das cepas de HIV que circulam pelo Brasil já são resistentes à terapia antirretroviral disponível ou que não poderão mais ser prevenidas com o uso da PrEP.

O que o estudo mostra é que 12% dos indivíduos que fizeram o exame de genotipagem no país (exame que procura por mutações genéticas de resistência) tinham um vírus com a K65R, resistente ao tenofovir.

É importante pontuar a diferença entre as duas interpretações, uma vez que, no Brasil, a enorme maioria das pessoas só realiza uma genotipagem quando há suspeita de resistência viral aos antirretrovirais prescritos.

Como no caso de um indivíduo que, depois de meses tomando os seus medicamentos com má adesão, deixa de ter sua carga viral indetectável.

Esses são apenas uma pequena parcela das mais de 1 milhão de pessoas que vivem com HIV no Brasil. Isso significa que os 12% de prevalência da K65R foram encontrados num grupo pequeno e bem específico. Portanto, a PrEP continua sendo um método extremamente seguro e eficaz de prevenção contra o HIV.

Saber dessa informação é importante para entender que também é equivocada a conclusão que encontrei nas redes sociais de que o uso da PrEP seria o motivo do aumento da prevalência da K65R.

Já sabemos hoje que a PrEP não está envolvida na seleção de cepas resistentes de HIV desde que não seja prescrita para quem já está infectado com esse vírus. A principal origem de mutações de resistência é a tomada com má adesão da terapia antirretroviral por pessoas que já vivem com HIV.

Aliás, esse é também um dos achados do estudo. Conforme no Brasil cada vez mais pessoas passaram a usar o tenofovir no esquema de tratamento do HIV, aumentou também a frequência de cepas com mutações de resistência a esse antirretroviral. Isso porque se existem mais pessoas usando tenofovir, haverá também mais pessoas tomando esse medicamento com má adesão.

Mas veja bem, se por um lado quero passar a ideia de que não é preciso ter pânico com os dados divulgados pelo estudo, por outro eles devem sim ser motivo de preocupação.

Precisamos no Brasil mapear o perfil de resistência das cepas de HIV que circulam na população geral e não apenas naquele pequeno grupo que teve má adesão ao tratamento.

Em geral, os vírus com mutações de resistência têm menor transmissibilidade, no entanto somente com a realização da genotipagem de forma universal para todos os indivíduos vivendo com HIV antes do início do tratamento poderíamos determinar com que frequência esses vírus estão sendo transmitidos entre as pessoas já com a mutação de resistência a algum antirretroviral.

Genotipagem pré-tratamento é o que eu, o artigo publicado e quase todos os infectologistas do Brasil recomendamos há anos, mas nem o Ministério da Saúde nem os planos de saúde estão dispostos a incorporá-la na prática clínica de forma rotineira por um motivo muito simples: o alto custo do exame.

A vigilância genética para variantes é fundamental para qualquer vírus no Brasil e a pandemia de Sars-CoV-2 está nos ensinando isso na marra. Quando isso não é feito de forma adequada, simplesmente não sabemos com quem estamos lidando e nem se estamos usando as ferramentas certas no seu enfrentamento.

Espero que os resultados do estudo que acabou de ser publicado sirvam para que algo mude nesse cenário, como a incorporação da genotipagem universal pré-tratamento, e não para causar pânico ou desacreditar a PrEP.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL