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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Brasil não está preparado para a moderna prevenção do HIV

andriano_cz/IStock
Imagem: andriano_cz/IStock
Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

25/06/2021 04h00

Agora que completamos 40 anos de pandemia de HIV e 500 dias de pandemia de covid-19, gostaria de propor uma reflexão: imaginem se daqui a 40 anos ainda tivéssemos que evitar os encontros com as pessoas que gostamos e usar métodos de barreira (máscara) para que os casos de covid-19 continuassem sob controle?

Foi mais ou menos isso o proposto para o controle da epidemia de HIV por mais de 35 anos. A redução no número de parcerias sexuais e o uso de um método de barreira (camisinha), foram, até pouco tempo, os principais pilares da prevenção dessa IST (infecção sexualmente transmissível).

Sem dúvidas a adesão a essas recomendações fez com que muitos e muitos casos de infecção por HIV fossem evitados, no entanto somos testemunhas que na pandemia de COVID-19 enquanto uma parcela da população vulnerável continuar se expondo ao vírus por não aderir às medidas comportamentais, a pandemia não vai terminar.

Pessoas que não usam camisinhas/máscaras de forma correta e constante sempre existiram e sempre vão existir e é uma completa utopia acreditar que medidas comportamentais de prevenção de doenças funcionarão de forma duradoura para todas as pessoas do mundo.

Quer um exemplo? Ainda que toda a população saiba que ter uma atividade física regular é uma forma de prevenir doenças cardiovasculares como infartos ou derrames, é uma ilusão achar que apenas com essa informação todos os sedentários de um país vão imediatamente começar a correr na praça perto de suas casas.

No caso das doenças cardiovasculares, ser uma pessoa sedentária é algo que pode causar problemas apenas à sua própria saúde, afinal ela jamais conseguirá provocar um infarto no coração de outra pessoa. Mas no caso das doenças transmissíveis as coisas ficam mais complicadas, uma vez que quando alguém não adere às medidas comportamentais estará contribuindo com a manutenção da circulação daquele vírus ou bactéria na sua comunidade.

Essa é a principal razão para acreditarmos que as medidas de prevenção biomédicas, como vacinas e medicamentos preventivos, têm um potencial muito maior de controle de epidemias de doenças transmissíveis.

No caso da covid-19, a comprovação disso é evidente. Foram poucos os países, como Vietnã e Nova Zelândia, que conseguiram controlar a disseminação do Sars-CoV-2 apenas com máscaras, restrição de circulação e rastreamento de contatos. Todos os demais países que atingiram um controle satisfatório da covid-19 utilizaram a vacinação em massa.

Para o HIV, foi somente nos últimos anos que viramos o disco e passamos a utilizar também os métodos biomédicos de prevenção. Mas aqui não foram vacinas e sim as Profilaxias Pré e Pós-Exposição (PrEP e PEP, respectivamente).

Da mesma forma que com a vacina contra a covid-19, essa mudança tem gerado bons resultados na redução da incidência de HIV nas localidades em que PrEP e PEP foram implementadas de forma mais ampliada. E diferente do que o senso comum pensa, nesses lugares os casos das outras ISTs não-HIV não explodiram e, ao contrário, podem até mesmo começar também a se reduzir em decorrência da maior frequência de testagem e tratamento na população.

Uma vacina preventiva contra o HIV encontra-se em fase final de testes no Brasil e em outros países. Em no máximo 2 anos e meio saberemos qual a sua eficácia preventiva nos grupos populacionais mais acometidos por essa pandemia em todo o mundo.

Para a covid-19, as pessoas não veem a hora de poderem abandonar as medidas comportamentais de prevenção, mas será que para o HIV estamos preparados para a incorporação e sucesso dos métodos biomédicos de prevenção?

No caso de a vacina preventiva ser realmente eficaz contra o HIV, sua aplicação, associada ao acesso à PrEP ou PEP, poderá em poucos anos zerar os novos casos de infecção por HIV. No entanto, diferente da covid-19, percebo uma resistência na sociedade em mudar o discurso da prevenção e descolá-lo das medidas comportamentais.

Essa resistência, que tem raízes muito mais morais do que epidemiológicas, pode atuar como obstáculo para o sucesso do controle biomédico das epidemias de HIV e outras ISTs. Para que isso não aconteça, já que a moral não funcionou para conter nenhuma pandemia, precisamos desde já nos acostumar com os conceitos de vacina, PrEP e PEP contra o HIV.

Acreditem, se depender da ciência, daqui a menos de 40 anos não teremos mais no mundo a covid-19, o HIV e nem as outras ISTs, e poderemos encontrar as pessoas que gostamos do jeito que quisermos, seja para transar ou para uma corrida na praça, sem precisarmos usar qualquer método de barreira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL