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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com 40 anos, epidemia de HIV/Aids está longe do fim se não houver liderança

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Imagem: Reprodução
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

11/06/2021 04h00

No dia 5 de junho de 1981, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos publicou o primeiro relatório alertando ao mundo que havia uma nova doença se espalhando. A doença em questão era a Aids. Somente dois anos mais tarde foi identificado que ela era causada por um vírus denominado HIV, que se transmitia na população principalmente por via sexual. Se iniciava ali a pandemia de HIV/Aids.

Agora em junho de 2021, completam-se 40 anos que temos conhecimento dessa triste pandemia, responsável globalmente por cerca de 35 milhões de mortes até hoje. Com razão, a data foi lembrada em todo o mundo em uma série de atos, cerimônias, reportagens e especiais produzidos pelos canais de comunicação.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, a Parada do Orgulho LGBT+, realizada no último domingo de modo totalmente virtual, teve como tema "HIV/Aids: Ame+, Cuide+, Viva+". Com 8 horas de programação, a parada contou com rodas de conversa sobre prevenção e tratamento do HIV, discussões sobre as informações mais atualizadas da pandemia e espetáculos musicais. #Ricomendo que assistam.

No entanto, de todos os especiais celebrando os 40 anos dessa pandemia, o que eu mais gostei foi o elaborado pela revista científica britânica The Lancet. Uma série de artigos escritos por alguns dos maiores especialistas na área estão disponíveis gratuitamente para os interessados no site da revista numa seção chamada Past Successes and Future Challenges (Sucessos do passado e desafios do futuro).

Em um dos artigos mais interessantes da coleção, a editora de saúde inglesa Udani Samarasekera entrevistou o microbiologista belga Peter Piot, um importante pesquisador do HIV/Aids que atua na área desde o princípio da pandemia na década de 1980, e fundador em 1995 do UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), órgão que dirigiu até 2008.

As reflexões do cientista de 72 anos de idade, que esteve envolvido em momentos cruciais da história da pandemia de HIV/Aids, são de uma clareza raramente vista. Piot, por exemplo, durante um projeto de pesquisa que conduziu no Zaire, já em 1983 percebeu que se não enfrentado com seriedade o vírus tinha potencial para devastar um país inteiro, independente da orientação sexual dos seus habitantes.

Em outro momento da entrevista, Piot conta como foram os primeiros anos da sua atuação no comando do UNAIDS. Segundo ele, o órgão foi de certa forma ingênuo por pensar que bastaria apresentar as evidências científicas de quão grave poderia ser a pandemia de HIV e o que havia disponível para se evitar uma catástrofe humanitária que todos os líderes mundiais e seus ministros da saúde automaticamente seguiriam as recomendações do órgão.

Rapidamente então o microbiologista entendeu que não se tratava apenas de uma questão de saúde, mas que os aspectos políticos, econômicos e de segurança eram tão ou mais importantes no enfrentamento da pandemia do HIV/Aids.

Entre as suas conclusões diante dos 40 anos do HIV/Aids, Peter Piot aponta que o ainda alto número de novos casos de HIV e de mortes por Aids no mundo mostra uma forma de acomodação. Segundo ele, o assunto HIV tem se mantido ausente demais da mídia e da cabeça das pessoas. E avalia que nas últimas décadas os gestores de saúde acabaram priorizando mais empenho e recursos destinados para o tratamento do que para a prevenção do HIV para não terem que lidar com temas complicados, como sexo, drogas e discriminação.

As reflexões do pesquisador sintetizam o que qualquer pessoa aprende quando se dedica a estudar a pandemia de HIV/Aids mais profundamente. A ausência de liderança, interesse e investimento no enfrentamento de uma pandemia torna pouco efetivo qualquer avanço obtido pela ciência e perpetua a crise sanitária sobretudo entre os mais marginalizados e vulneráveis.

Infelizmente foi isso que aconteceu no Brasil nesses 40 anos de HIV/Aids, e da mesma forma nesses 500 dias da covid-19. Se nada mudar, apesar de a ciência já ter desenvolvido as ferramentas para eliminá-las, daqui a 100 anos ainda estaremos celebrando o aniversário das duas pandemias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL