PUBLICIDADE

Topo

Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como ficou a sua vida sexual durante a pandemia de covid-19?

iStock
Imagem: iStock
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

30/04/2021 04h00

Há pouco mais de 13 meses ouvimos diariamente que devemos manter o distanciamento social para reduzir a circulação do coronavírus e os casos de covid-19, mas não ouvimos quase nada sobre como devemos gerenciar a vida sexual nesse mundo novo em que nos metemos.

A covid-19 não é conceitualmente uma IST (infecção sexualmente transmissível). No entanto, durante uma relação sexual é muito fácil ocorrer a troca de secreções de vias aéreas, sua principal via de transmissão. Dessa forma, quando alguém beija ou transa com uma pessoa que está com covid-19, é grande a probabilidade de transmissão do vírus.

Em geral não vemos nas campanhas oficiais de comunicação qualquer orientação em relação à vida sexual durante a quarentena, pois consideram que a mensagem está subentendida na ideia de "fique isolado". Mas alguns lugares foram mais criativos, como a cidade de Nova York, nos Estados Unidos, que criou uma cartilha de orientações para redução de danos no sexo durante a pandemia.

As orientações são muito interessantes. Começam sugerindo que agora cada pessoa é a sua própria parceria sexual mais segura, incentivando a masturbação e a prática do sexo virtual pela internet.

Para quem optar por sexo presencial, a cartilha sugere formas para selecionar uma parceria que traga menos riscos de infecção, posições sexuais mais seguras e até recomendam limitar o número de participantes se for organizar uma suruba. Lembram que, para algumas pessoas, talvez seja possível transar usando máscara ou evitar dar beijos.

Enfim, a cartilha fala de vida real. Dialoga com pessoas que tem desejos, ansiedade, solidão e tesão. Pessoas que talvez não topem ficar abstinentes por meses, anos ou enquanto durar a pandemia. Pessoas como qualquer outra pessoa do planeta.

Falando de vida real, um estudo apresentado recentemente na 5ª Conferência Britânica de HIV, realizado em 2020 durante o primeiro lockdown no Reino Unido, procurou avaliar o impacto da pandemia na vida sexual dos britânicos. Foram recrutados 6.554 participantes de 18 a 59 anos de idade para responderem a um questionário eletrônico que abordava o seu comportamento sexual.

Entre os resultados, 52% dos participantes relataram que durante a quarentena tiveram sexo com a parceria com quem moravam junto, 38% não tiveram nenhum contato íntimo com outra pessoa nesse período e apenas 10% saíram de casa para ter uma relação sexual.

O relato de sexo com alguém que habitava em outro domicílio durante o lockdown foi mais frequente entre os menores de 25 anos, os homens cisgênero, as pessoas que se identificaram como gays ou lésbicas e aqueles que tinham tido 3 ou mais parcerias sexuais no ano de 2019.

A maioria das pessoas que não estavam num relacionamento fixo, no entanto, relatou que não teve nenhuma relação sexual durante os quatro meses de iniciais de quarentena. Paralelamente, no mesmo período foi verificada uma queda significativa no registro de casos de infecção por gonorreia, clamídia e sífilis no país.

No Brasil, há indícios que sugerem que também houve redução nas relações sexuais durante os primeiros meses da pandemia. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre os meses de abril e julho de 2020, houve uma redução de mais de 33% nas dispensações de Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP) em todo país em comparação com o mesmo período do ano anterior. Depois desse período os números voltam a aumentar e ficam próximos aos de 2019.

A conclusão de todas essas informações é que a educação sexual sobre prevenção é necessária sempre, independente de estarmos tentando controlar uma epidemia de sífilis ou covid-19. A história da epidemia de HIV/Aids já nos ensinou que ignorar que as pessoas têm uma vida sexual do jeito que elas quiserem ou achar que elas se tornarão abstinentes sexuais por medo ou por uma recomendação oficial não só é pouco eficaz, como também pode ser catastrófico.

Nova York já entendeu isso e tem obtido bons resultados no controle do HIV e da covid-19. No Brasil, ainda estamos ignorando o tema, e em saúde pública ignorar um assunto é a pior maneira de lidar com ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL